Os ritos de chegada inebriam o barracão da Ialorixá Mãe Preta, anunciado pelo baticum dos três atabaques de couro de bode curtido, Rum, Rumpi e Lê, no dialeto Ioruba, e pelo agogô que cadencia o som liderado pelo alabé ê e acompanhado das palmas dos iniciados e dos agés. No centro da sala, tapeteado por folhas de pitanga, pequenas, verdes e cheirosas, a roda dos filhos de santo dançam e cantam lamentos e chamamentos à incorporação dos orixás. Os cantos reverberam nas ruelas, nos becos e ladeiras suburbanas, remetendo os partÃcipes e a vizinhança próxima à s senzalas e quilombos e à s origens do povo negro, que dista a milhares de quilômetros dali, separado pelo Oceano Atlântico e por séculos de história e contradições, estas trazidas da Ãfrica Subsaariana e misturadas à s incoerências do novo continente, geram uma profusão de sensações contrárias e incongruentes que reverberam por toda a cidade, da Baixa dos Sapateiros à Liberdade, da Baixa da Égua à Ladeira do Quebra Bunda, do Maciel Pelourinho a Itacaranha, passando pelo Curuzu, por Brotas de Macaúbas, pelo Candeal Pequeno e pelo Gengibirra do Meio.
Ao final da cerimônia, são distribuÃdos aos presentes, copos de mingau de mugunzá, feitos com milho branco e deburú com coco. As espadas de Ogum, Orixá Guerreiro, protegem a porta principal, seiva de alfazema é oferecida aos orixás e etabás são fumados e baforados à hora do passe:
“Ô boa noite pra quem é de boa noite, ô bom dia pra quem é de bom dia...â€
O ritmo dos atabaques e do agogô continua ecoando na mente dos partÃcipes, mesmo depois de finalizado o ritual naquele velho barracão de seis por dez metros, cujas paredes servem de encosto para os bancos de madeira avermelhada, logo acima, um quadro de São Jorge sobre o cavalo branco combatendo um imenso dragão e uma grande tela de Yemanjá, que exibia o seu tradicional vestido azul claro e tinha ao fundo um imenso mar, enfeitavam o terreiro.
Lá fora a noite segue seu curso, de lua e estrelas e as ondas marinhas jogam as catraias de um lado para o outro e após a traquinagem que mansamente nas pedras que compõem o pequeno litoral.
“Adeus camarada, adeus, adeus eu já vou embora, pelo balanço do mar eu vim, pelo balanço do mar eu vou embora...â€.
GLOSSÃRIO
ADJà – Pequeno sino cerimonial. Campânula de metal com duas ou mais bocas tocadas pelo pai ou mãe-de-santo, nas cerimônias rituais a fim de facilitar o transe dos filhos de santo.
AFOXÉ – Bloco carnavalesco que exalta as origens negras e seus rituais na Bahia.
AGÉ – Pessoa que não entende o Ritual.
AGOGÔ – Instrumento de percussão feito de sinos que marcam o toque dos orixás.
AKIRIJGEBÓ – Frequentador do Candomblé.
ALABÉÊ – Tocador de tambores lÃder no terreiro. Aquele que canta pontos de Candomblé.
ATABAQUES – São três tambores de tamanho pequeno, médio e grande, que marcam o ritmo e a cadência dos cânticos. O maior se chama RUM, o médio RUMPI e o pequeno LÉ.
ATABAQUES – São três tambores de tamanho pequeno, médio e grande, que marcam o ritmo e a cadência dos cânticos. O maior se chama RUM, o médio RUMPI e o pequeno LÉ.
AXÉ – Força vital que dá vida a todas as coisas, presente especialmente em objetos ou seres sagrados. Expressão utilizada para passar força espiritual.
BABALAÔ – O sacerdote do culto de Ifá. Quer dizer: aquele que tem o segredo. Diz-se da pessoa que pode ver através do jogo de Opelê-Ifá (jogo de búzios).
CANDOMBLÉ – Nome que define os cultos afro-brasileiros de origem Jejê, Iorubá ou Bantu.
DEBURÚ – Pipocas.
ERÊ – EspÃrito infantil que incorpora depois dos Orixás, a fim de transmitir recados aos iaôs. Quando se recolhe passa-se uma semana incorporada por um erê.
ETABA – Charuto, cigarro.
IALORIXà – A suprema em uma casa de santo. O mesmo que mãe de santo.
IANSÃ – Nome do Orixá feminino que controla os ventos, raios e tempestades. Foi uma das esposas de Xangô, e também a mais fiel delas.
IBÊJI – Orixás crianças que quando incorporados são chamados Erês.
IORUBà – Povo nigeriano que se dividiram em diversas tribos ou nações são elas: os Ketu, os Oyó, os Igejá, os Gegês e os Nagos. Embora divididos em tribos diferentes, mantiveram a mesma cultura. É óbvio que houve algumas deturpações, mas as origens de culto são as mesmas.
MUGUNZà – Comida feita com milho branco cozido, leite, leite de coco, sal, açúcar, cravo e canela.
OFà – Arco e flecha utilizada por Oxóssi como ferramenta e, com o qual ele dança quando incorporado nos terreiros.
OGUM – É o Deus das guerras e o Orixá, que abre os caminhos.
ORIXà – A palavra Orixá significa Ori=cabeça, Xá=Rei, senhor. Senhor da Cabeça.
OXALUFAM – Oxalá-Lufam, a forma mais velha de Oxalá.
QUELÊ – É como se fosse uma gravata de Orixá colocada no yaô durante a iniciação. Ela serve para indicar que o iniciado, a partir daquele momento, está sujeito ao seu orixá. As gravatas dos iniciados têm cores variadas, para cada orixá e é usado um tipo de cor que o identifique.
XANGÔ – Deus do raio e do trovão. Foi o segundo rei de Oyá e segundo as lendas Iorubá, reinou com tirania e crueldade. Xangô não nasceu Orixá porque sua mãe era humana. Ele só tornou-se Orixás após a morte, quando voltou ao Orun.
YEMANJà – Na Nigéria ela é cultuada como deusa do Rio Ogum, sendo um orixá de rio. Porém, no Brasil, ela é cultuada como deusa das águas salgadas.
Ritual do candomblé - Cultura baiana.
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