Colhões Reluzentes

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Lena Girard · Belém, PA
11/12/2021 · 1 · 0
 

OS COLHÕES RELUZENTES

Era pretinho. Suas pernas mais pareciam dois cambitos. Eram frágeis. A impressão que se tinha era que se quebrariam a qualquer momento, só de andar. Ledo engano! Aqueles cambitos ainda o levariam a lugares inusitados.
Mas aquele, para o pretinho, era um dia diferente. Era carnaval. E ele gostava de ver os blocos de sujos, os mascarados. Porém, um detalhe era muito importante: olhar mesmo, só de longe. Tinha verdadeiro pavor daquelas máscaras artesanais. Elas entravam em seus sonhos, fazendo deles seus piores pesadelos: eram homens vestidos de dama da noite, de bruxa, de palhaço, de presidiário, de gorila. Ainda tinham os cabeções querendo engoli-lo. Coitadinho!!! E nessa terça-feira gorda, para aquele pretinho magro, a coisa não estava lá muito divertida, não! Já tinha sido amedrontado por bruxas, mascarados desconhecidos, foliões embriagados.
E ele, na sua ingenuidade, achava que tinha visto de tudo. Por isso ficou lá, sentado na calçada, com o coração quieto, sem sobressaltos. E, então, ele ouve a sirene do carro de polícia, desembestada, como que pressagiando uma tragédia. O pretinho levantou-se e olhou para o lado, assustando-se com aquele bebê gigante: tudo nele abundava - a mamadeira imensa, cheia de "água que passarinho não bebe", a chupeta... meu Deus, que bebê põe na boca essa coisa? A fralda devia ser algum lençol esquecido, no varal da vizinhança. Como e onde ele conseguira aquele alfinete de segurança enorme?
O pretinho ficou preso no chão. Os músculos todos paralisados. Ai, ai, ai, ai, ai! Valha-me minha Mãezinha do Céu! E a polícia conseguiu alcançar aquele folião inusitado. "O que será que esse bebê fez pra ir preso"? Era a cabecinha do pretinho a mil. Tudo isso passaria em branco se a cena que se seguiu não o tivesse deixado atônito. Os policiais pegaram o "bebezão" pelos braços, levantaram-no para colocá-lo no camburão. Foi aí que o pretinho viu, por entre as pernas do bebê, aquelas bolas brancas, engelhadas, reluzentes, com quatro gatos pingados de cabelos brancos fora do fraldão. Não se conteve, apontou para as pernas do bebê e gritou para sua mãe, sempre atenta:
– Manhêêê!!! U qui é aquilo?
Dona Bené não perdia parada, não. Na bucha, gritou como resposta:
– São os reluzentes colhões do mascarado, filho!
Sem se aperceber, o pretinho segurou os seus. Ele nunca vira colhões assim. Eu, hein!!!!!

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