— Eu sou a prova viva de que o amor não existe!
Conversa de filho de pais separados. Foi o que o levou a ler Freud e a procurar nos existencialistas franceses uma desculpa para achar o mundo mais azedo do que já era. Assim, podia ser a vÃtima sem-vergonha que a maioria das pessoas têm medo de ser, mas que desejam, ah, como desejam ser a vÃtima em quem todo mundo passa a mão na cabeça e olha com cara de pena e lamenta um lamento gasto, de tanto que já foi lamentado. No entanto, tanto fazia se seus pais tivessem ou não evitado o divórcio: não amaria nem se lhe fosse dito que era muito amado e só precisasse responder “eu tambémâ€.
— Esse paÃs de merda, esse estado de merda, essa cidade de merdinha!
Tivesse nascido em Alegrete ou no Rio de Janeiro, não se encaixaria sob qualquer pretexto. A vida é dura aos que não conseguem nem uma tentativa de adaptação. E ao “cidadão do mundoâ€, como gosta de ser chamado, é tão difÃcil reconhecer este mundo em sua totalidade, que a ele o mundo resume-se basicamente à Europa. “Sou um cidadão do mundo de Paris, de Londres, de Madriâ€. Vai ser cidadão do mundo no interior de Santa Catarina, vai! E apesar de citar Shakespeare, Tolstoi e interpretar Dalà como ninguém, chama-se João, que quando não consegue fazer-se conhecer apenas pelo jota ponto, insinua que gosta que o chamem de John.
— Esses colonos me incomodam a ponto de existir ser ainda mais difÃcil!
Vai saber o que quer dizer colono. Se colono é quem coloniza, como se chama quem é colonizado? Sorri estranho quando, na roda de amigos, rola música dos The Something ou outra banda qualquer, porque é um dos poucos que consegue cantar todas as músicas e traduzi-las. Não foi fácil, mas quinze anos de curso de inglês o tornaram um excelente ouvinte de música importada e que na maioria das vezes não falam para ele, mas para um jovem burguesinho de Beverly Hills ou dos arredores de Nothingham. De qualquer forma, sua qualidade tradutora é inverossÃmil e não pode ser contestada, pois que ele põe pra te xingar em inglês durante mais de meia-hora e tu ficas com cara de palhaço, digo, de clown, or anything like this. E não conta nada pra ele, mas só não pesa mais porque um amigo de fora lhe recomendou um diet shake exclusivo para consumidores de McDonalds. Que sorte!
Então um dia foi visitar os pais, que moram, como se diz, no meio do mato. Porque não vivia na metrópole, mas também não era vila: uma cidade dessas, inofensivas, com seus quase trezentos mil habitantes. Chegou nada entusiasmado. Falou de como as coisas iam. Tomou café e comeu docinhos de manteiga. Café caseiro, isso ainda existe. Dois dias depois, estava conversando alegremente, querendo se inteirar de tudo — o pouco — que acontecia na cidadezinha. Mas quando era hora de voltar para a sua casa, na sua cidade, o seu apartamento e o seu emprego, vestiu-se com a armadura dura que só usa com prazer quem sabe que pode, às vezes, não sempre, só às vezes mesmo, despir-se e andar completamente nu.
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