Conversinhas no Ponto

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Caloan Walker · Salvador, BA
27/7/2015 · 0 · 0
 

A senhorinha, de sacola cheia e exausta, sentou-se no banco metálico sujo do ponto de ônibus. Perguntou pelas horas. “São 20h53”. “É?!” “É, isso mesmo.” Se não tivesse visto com meus próprios olhos, até eu duvidaria. Com um “Mas menino...”, conformou-se.

Uma jovem, dessas com barriga de mulher que acabou de parir quadrigêmeos hiperativos, chegou com um amigo. Sentaram-se, ambos inconformados com mais uma noite de sábado desperdiçada trabalhando. Pela indignação, pelos muxoxos e pelo semblante, qualquer leigo podia ver que ela estava em trabalho de parto e que os lábios tremiam em dilatação, a fim de dar a língua à luz.

A senhorinha perguntou se por ali passaria sua condução. Os jovens, com ar cabalístico, teimaram que ela teria de andar mais até outro ponto. Descobriram que estavam errados, um ônibus passara cerca de 10 minutos antes com aquele destino no letreiro. Ficaram, em parte, chateados pelo erro e por ver que a miséria deles não arranjaria companhia naquela velha.

Insatisfeita, a jovem puxa conversa com a chave-mestra dos diálogos entre estranhos: “A vida é uma merda”. Cadeados como problemas de saúde ou financeiros, ou até somente a demora dos coletivos, se abrem automaticamente.

“É... sei que eu pelo menos trabalho e venho para casa, deixo os problemas lá. Não sou que nem aquelas mulheres lá, que ficam se xingando de putas o dia inteiro.”

“E é, é?! Menino...”
“Pois é...”, percebeu então que não estava tendo o efeito esperado. Insistiu:

“É, sei que eu posso até ser simples e pobre, mas não fico me metendo nessas coisas, aquelas peruas ricas lá que ficam se xingando de puta... depois dizem que rico...”

Vish... e elas te xingam também, é minha fi'a?”

“Que nada! Oxe! Minha mãe, que me pariu, eu não admito que me xingue! Imagine aquelas peruas lá! Dou-lhe um murro na cara, que eu quero ver!”

“Ish...”
“...”
“...”

“Sei que eu que num queria viver desse jeito. Se dizem amigas e tal, mas fica uma chamando a outra de puta! Haiai! Eu que num ia querer isso pra minha vida. Veja só.”

Confusa, a senhorinha resolveu perguntar:
“Ih é, minha fi'a? E elas ficam se xingando desse nome, é?! Mas venha cá, que profissão é essa de vocês assim, pra ficarem se chamando desse jeito?”

“Não, minha tia! Eu trabalho pra elas, só! Trabalho aqui perto, eu sou... eu trabalho aqui perto, num prédio aí de rico!”

“Ah, tá...”

[Silêncio constrangedor. “E esse ônibus que não passa logo?!”, deve ter pensado a diarista que quase ficou marcada para sempre na imaginação de uma velhinha como uma varejista do gozo alheio.]

Sobre a obra

Crônica escrita no perfil do autor no Facebook, em 29 de junho de 2014, sobre uma senhorinha cansada demais para entender a amizade de mulheres ricas segundo o olhar de uma diarista.

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informações

Autoria
Caloan Guajardo
Ficha técnica
Crônica escrita no perfil do autor no Facebook, em 29 de junho de 2014.
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