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Crítica da Sociedade Burguesa no Romance "O Primo

Cláudio Carvalho Fernandes
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Cláudio Carvalho Fernandes · Teresina, PI
25/10/2010 · 8 · 0
 

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS



CRÍTICA DA SOCIEDADE BURGUESA
NO ROMANCE “O PRIMO BASÍLIO”,
DE EÇA DE QUEIROZ


por

CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES


Aluno do Curso de Letras (Português) da UFPI



Teresina
Universidade Federal do Piauí
2001


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS



CRÍTICA DA SOCIEDADE BURGUESA
NO ROMANCE “O PRIMO BASÍLIO”,
DE EÇA DE QUEIROZ
por
CLÁUDIO CARVALHO FERNANDES
Aluno do Curso de Letras (Português) da UFPI

Trabalho apresentado como exigência para a conclusão da disciplina Introdução à Literatura Portuguesa, ministrada pela professora Maria Salomé Vasconcelos Lima, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí


Teresina
Universidade Federal do Piauí
2001


1. INTRODUÇÃO



O presente trabalho tenciona fornecer elementos concretos que caracterizem de forma cabal a perspectiva crítica do escritor português Eça de Queirós na elaboração da obra ficcional O Primo Basílio, mediante o aporte dos aspectos conexos à visão de mundo do autor, seus pressupostos artístico-literários e o dimensionamento de suas estratégias de transferência de identidade entre os personagens do romance e a imediata realidade local em seu sentido eminentemente sócio-histórico.

O que motivou a sua elaboração foi a necessidade de se estabelecer o impacto da construção romancística eciana de cunho realista sobre a classe burguesa da época e suas repercussões na sociedade portuguesa alicerçada em falsas bases no meio da transformação moderna.

Os subsídios que implementam a necessária pesquisa nos diversos meios foram coletados no levantamento da própria obra e sua pertinente bibliografia adiante referenciada e em referências avulsas em artigos da internet, além do exame de anexos e apensos ao texto original.

Quanto à metodologia utilizada no trabalho, constou da leitura principal da obra em questão, ao que se acrescentaram leituras secundárias de textos diversos relativos ao tema, além de pesquisa extensiva e coleta de material pertinente, referências bibliográficas e anotações colhidas durante o transcurso das atividades em sala de aula.

Deixou-se de determinar a identificação expressa dos artigos pesquisados em meio eletrônico pelo fato de os mesmos não constituírem, em sua maioria, fonte segura primária, ainda que o confronto entre tais haja possibilitado secundariamente um melhor direcionamento na pesquisa das particularidades inerentes ao estudo ora apresentado.


2. REALISMO COMO OPOSIÇÃO AO IDEALISMO ROMÂNTICO DA ORDEM SOCIAL BURGUESA


Mesmo na atualidade ainda existe muita confusão quanto ao uso dos termos “Realismo” e “Naturalismo”, sendo que freqüentemente alguns autores referem-se ao “Realismo-Naturalismo” como o estilo da segunda metade do século XIX. Também

“há aqueles que vêem o Naturalismo como um Realismo a que se acrescentam certos elementos, particularizando um estilo com identidade própria. Nessa linha, diz-se que, enquanto o Realismo apresenta uma visão biológica, o Naturalismo tende à apresentação patológica do homem. A verdade é que a fronteira entre os dois é pouco nítida, havendo propostas, como a de Hauser, de se denominar Naturalismo à totalidade de movimentos artísticos que a partir de 1830 manifestaram-se no Ocidente, e que seja reservado o conceito de Realismo para a filosofia oposta ao idealismo romântico. Portanto, a filosofia é que seria realista; a arte seria naturalista” (Cademartori, 1997, p. 46, grifo nosso).

Desde meados do século XIX, o desaparecimento da aristocracia européia da esfera dos acontecimentos históricos proporcionou à burguesia o desfrute pleno de seu poder. Esta classe alcançou indiscutível triunfo, tanto como sua evolução dentro do capitalismo concorreu para a visão conservadora do mundo. Até próximo da segunda metade de tal século, as lutas de classe do proletariado estavam incorporadas com as da burguesia porque, basicamente, as aspirações eram as mesmas. Com o surgimento da consciência de classe do proletariado, por perto de 1830, começou a divisão nítida das duas classes, pois houve o início de estruturação da teoria do socialismo e o surgimento paralelo de um movimento artístico ativista que, pela primeira vez, punha em crise a arte pela arte, ao exigir que a manifestação artística fosse dotada de uma utilidade social.
O período foi claramente marcado por várias teorias como o positivismo de Augusto Comte, que procurava a explicação do homem e do mundo através das leis naturais, baseando-se na observação, na comparação e na experiência; o evolucionismo de Charles Darwin, dizendo ser a seleção natural o agente de transformação das espécies; o determinismo de Taine, segundo o qual seria a arte um produto determinado pela raça, pelo meio e pelo momento; e o Socialismo “utópico” de Proudhon.
Em termos de literatura, o domínio do pensamento científico, em conjunto com a hegemonia do capitalismo e a progressiva industrialização, criou o ambiente em que se dá a deflagração do combate, que se prolongará por muito tempo, contra o tom confessional das obras, o sentimentalismo romântico, o convencionalismo da linguagem do Romantismo. A produção literária passou a apresentar como características das concepções da atualidade nesse período: busca da objetividade, crença na razão e preocupação com o social. Tendência oposta ao idealismo romântico, esse tipo de pensamento recebeu o nome de Realismo, estilo que tenciona fixar-se no real e no homem comum, dominado por problemas prosaicos e habituais:

“A personagem realista (...) carrega em si a contradição da natureza humana” (Id. ib., p. 45)

Segundo a concepção de ciência como o único meio legítimo de conhecimento, vigora nesse momento da história da arte a idéia de que a realidade subordina-se às leis orgânicas, com o mundo e o homem estando em igualdade de condição e sujeitos às mesmas finalidades. Fatos psicológicos e sociais são considerados meras manifestações de ordem física, materiais. Assim, as personagens das obras realistas serão determinadas por uma rigorosa lógica de causa e efeito, não se encontrando, na literatura realista, personagens originais e surpreendentes, pois os perfis são passíveis de serem explicados lógica e cientificamente, como as ações se explicam pela determinação de fatores atávicos e sociais.
Embora não haja lugar para divagações de ordem metafísica,

“busca-se uma verdade para além dos fatos, assim como valores morais e estéticos que caracterizarão essa literatura como sendo de ação moralizadora” (Id. ib., p. 45).


O escritor realista busca fazer uma descrição minuciosa da realidade com a preocupação moral de detectar os vícios da sociedade. Assim, os problemas da sociedade burguesa, eclipsados pela superficialidade da narrativa romântica, põem-se a descoberto, revelando distúrbios e conflitos inéditos ao leitor do período anterior. No Realismo, pela primeira vez, revela-se o conflito do herói (personagem) com a ordem social burguesa.
À época, passou a ser norma avaliar uma obra literária por sua relação com as questões da atualidade política e social, subordinando-se a arte aos ideais de melhoria da sociedade. Segundo Cademartori, o Romantismo continua existindo, mas evolui do misticismo e da alienação para um ativismo político posto a serviço dos interesses populares.
O período tem como elemento característico a vitória da concepção de mundo própria das ciências naturais e do pensamento racionalista e tecnológico sobre o idealismo e a tradição romântica.
A vida social é o centro de interesse, sendo esse o setor da realidade priorizado pelo estilo, pois o que se busca é delinear a estrutura da sociedade contemporânea em todas as suas particularidades, identificando os interesses, as revalorações e as mudanças sociais. A raiz do romance social data desse período.
A preocupação em conhecer a sociedade e expor suas desavenças faz com que essa literatura seja analítica, céptica e desmistificadora.



3. O ICONOCLASTA ENGAJADO EÇA DE QUEIRÓS ENTRE A IRONIA E A SÁTIRA


Apesar de fazer parte do grupo coimbrão, Eça de Queirós não participou da polêmica Questão Coimbrã ou do “Bom Senso e Bom Gosto”, que precedeu a atuação realista em Portugal, envolvendo-se mais efetivamente no cenário cultural português somente após sua adesão ao grupo "O Cenáculo" (1868-1869) quando então tornou-se um dos responsáveis pelas "Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense" (1871), evento propulsor do Realismo luso.

A inauguração da escola em Portugal, na ficção, coube a Eça de Queirós, que, depois de tentativas menos expressivas, passou da teoria, exposta nas Conferências do Cassino, à prática, com a publicação de O Crime do Padre Amaro (1875, 1876, 1880), primeiro romance realista-naturalista português, seguido de O Primo Basílio (1876), que fixou o Realismo na literatura portuguesa. (Enciclopédia Barsa, 1975, volume 11, p. 391).
O que há de melhor na obra queirosiana está no conto e no romance, sendo o autor considerado um dos maiores prosadores da língua portuguesa.
A produção literária de Eça, vasta e rica, passou por três fases:
1ª - Presença do Romantismo em mistura com o Naturalismo de Baudelaire, Nerval e outros.
2ª - Adesão ao Realismo no que este tem de exame e crítica da sociedade, recusando a "arte pela arte" do Parnasianismo: sob a bandeira da Revolução, o escritor realiza obras engajadas e comprometidas com os novos modelos realistas, combatendo as instituições de então e voltando-se, principalmente, contra a burguesia, a monarquia e o clero, em atitude iconoclasta e irreverente. Suas obras, nesta ocasião, constituem um retrato - vigorosamente criticado e analisado - da sociedade burguesa de seu tempo, e destacam-se pela linguagem plástica, original e fluente, assinalada pela naturalidade, exatidão e entusiasmo narrativo, em modo antideclamatório (buscou fazer um veraz estudo da sociedade portuguesa de seu tempo).
“A análise psicológica, aguda, enriquecida por seu pendor para a ironia e a sátira, muitas vezes transforma em ridículo as ações de personagens criadas para representar os exemplos típicos da decadência de uma sociedade podre em suas bases. Influenciado pela fase realista de Balzac e por Flaubert, o autor faz, nesta etapa de sua carreira, um painel variado do Portugal da época, em seus três "romances de tese": O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias”. (Castro, s.d.)
3ª - Sem repudiar a mentalidade realista, Eça apresenta obras de atitude construtiva, adequadas à madureza intelectual e humana do autor, com um ciclo de maior otimismo, assinalado por uma compreensão de vida mais aberta e humanitária e por uma linguagem plástica , expressa em um tom mais lírico, evidenciando certo desencanto com a "civilização" técnica (personagem característico deste período da ficção queirosiana é Fradique Mendes: um gozador da vida, totalmente desligado de preocupações coletivas).
Com a maturidade de sua arte literária, Eça de Queirós foi aperfeiçoando a apresentação de tipos e grupos típicos exatamente na linha de Flaubert e Zola. A Igreja, a família e todas as outras instituições consideradas burguesas foram duramente analisadas por ele, segundo semelhante ponto de vista recebido de, dentre outros, Proudhon.
Mesmo apresentando uma obra literária fértil, é aceitável alegar a existência de um elemento comum em tudo o que Eça escreveu: crítica irônica dos princípios burgueses que dominavam seu país. Para isso, utilizou-se dos fatos notados tanto no relacionamento cotidiano dos conterrâneos quanto nas ocorrências nacionais e internacionais que ele soube decifrar com clareza

Seus três romances de tese (O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e Os Maias), que baseiam a fase realista do autor, faziam parte de um grande projeto literário:
“Na realidade, o escritor queria montar um amplo painel sobre a vida portuguesa de seu tempo. Influenciado pelas teorias positivistas e deterministas e pela obra dos escritores franceses Émmile Zola e Gustave Flaubert, Eça tinha a intenção de corrigir os vícios da sociedade burguesa, por meio da crítica de costumes e da sátira”. (Gomes, s.d.)
Assim, em favor da Revolução, era necessário eleger os erros e menosprezar as chamadas virtudes com que tal sociedade decadente continuava a viver.
“O arsenal estético com que podia enfrentar a sociedade burguesa era aquele de uma arte corrosiva e desmistificadora que pudesse se exercer por meio da caricatura, da ironia e do escárnio” (Maria Lúcia Dal Farra, s.d.).
Tais romances de tese, dentre os quais O Primo Basílio, objeto desta elaboração, mostram um escritor que aderiu de corpo e alma ao ideário matriz do Realismo, idéias estas já relacionadas anteriormente, no sentido contextual. Para Eça de Queirós, sob a perspectiva analisada, as instituições sociais, representadas pelo regime político de então (a monarquia), a religião (católica apostólica romana), a classe social dominante (a burguesia), deveriam ser substituídas por outras que, em seu entendimento, oferecessem a todos condições de sobrevivência e conforto. De uma forma geral, Eça constrói as narrativas com exatidão matemática, à semelhança do cientista que põe em ordem as experiências para obter o resultado que se busca. E reveste-as de uma nova linguagem, isenta da retórica tradicional, ágil, pródiga em soluções modernas. A ironia fina com que narra cenas e descreve personagens é outro detalhe que empresta mérito a tais romances
Em resumo, as preocupações realistas do autor Eça de Queirós, apesar de sua técnica continuamente refinada, ultrapassam o âmbito meramente literário para situar-se no plano da análise social.




4. O PRIMO BASÍLIO E O ESCÂNDALO DA FAMÍLIA LISBOETA COMO ÍNDICES DA DECADÊNCIA DA SOCIEDADE BURGUESA



Em O Primo Basílio o alvo da crítica de Eça de Queirós é a burguesia. Publicado em 1878, o romance constitui uma análise da família burguesa urbana. Tendo já criticado anteriormente a província em O Crime do Padre Amaro, Eça volta-se agora para a cidade, com o intuito de sondar e analisar problemas semelhantes, desta vez na capital. A obra enfoca um lar burguês aparentemente feliz e perfeito mas com bases falsas e igualmente podres. É o próprio escritor quem, numa carta a seu amigo Teófilo Braga, explica o propósito do romance:

“Ataco a família lisboeta, −;;;;;;;; a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata [...], um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa”. (Carta a Teófilo Braga, anexo A)

Ao compor esse “pequeno quadro doméstico”, o autor reúne personagens muito medíocres, que indicam as diversas facetas da sociedade alfacinha de então: o casal aparentemente perfeito, constituído por Luísa e Jorge; a empregada doméstica que os odeia e inveja, Juliana; a beata d. Felicidade; um alto funcionário público, o conselheiro Acácio; um médico desiludido com seu ofício, Julião; um escritor de dramalhões, Ernestinho; e, por fim, o vilão de toda a história, Basílio, o conquistador barato.

Basicamente, o romance trata da vida em família. Luísa, fútil e leviana, passa a vida lendo folhetins. Influenciada por suas leituras românticas, torna-se amante de Basílio, durante uma viagem do marido. Posteriormente, será chantageada pela empregada, que lhe rouba algumas cartas. Ao fim de muitas peripécias, Luísa morre de febre cerebral, e Basílio continua com sua vida de malandro, maroto.
Na já citada carta a Teófilo Braga, Eça diz o seguinte:

“A minha ambição seria pintar a sociedade portuguesa [...] e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formam, −;;;;;;;; eles e elas. É o meu fim nas Cenas da vida portuguesa. É necessário acutilar o mundo oficial, o mundo sentimental, o mundo literário, o mundo agrícola, o mundo supersticioso −;;;;;;;; e com todo o respeito pelas instituições que são de origem eterna, destruir as falsas interpretações e falsas realizações, que lhe dá uma sociedade podre”. (Id. ib)

Para a realização eficiente do retrato deste meio, a ironia queirosiana se serve do principal recurso dos escritores realistas: a descrição, com abundância de detalhes, que têm a função de “explicar” o personagem, mediante o espaço físico em que vive. Em sua manifesta intenção de radiografar a decadência da família lisboeta e, ipso facto, da sociedade lisboeta, como bem o disse o estudioso Massaud Moisés, essa obsessão de detalhes transfere-se para os próprios personagens, como se Eça quisesse revelar a íntima relação entre os aspectos físicos e os psicológicos. Além da descrição minuciosa, é possível também ver nos trechos do romance a marca registrada de Eça de Queirós: sua tendência à caricatura, à sátira. Personagens como o conselheiro Acácio, o escritor de dramalhões Ernestinho Ledesma, a beata d. Felicidade e muitos outros são deveras engraçados. Mas Eça não queria do leitor o seu riso gratuito. Para ele, era importante o seguinte ditado latino, quase que como lema: “ridendo castigat mores”, em português, “rindo, castigam-se os costumes”. Eça caricaturava os personagens para melhor expor os erros e defeitos deles, como representantes de um determinado meio social em processo de franca decadência: a sociedade burguesa lisboeta.
O Primo Basílio é a obra de maior êxito de Eça de Queirós, devendo o seu sucesso ao naturalismo de suas cenas, além de outros méritos próprios haja vista a interpretação crítica do autor sobre a pequena burguesia lisboeta, tendo por alvo a família como produto de namoros insólitos e da educação sentimental(óide) da mulher, entregue a sonhos românticos, idealizados, e ao ócio. Também ressalta a montagem do enredo, que se constrói partindo-se da elaboração de personagens

secundários, dentre os quais se destacam o já citado conselheiro Acácio, símbolo da mediocridade, frugalidade e tacanhez de caráter, Sebastião e Juliana.
O escândalo provocado quando da publicação do romance em foco, com reações críticas até no Brasil (Machado de Assis escreveu artigo contra o estilo de O Primo Basílio) deveu-se ao fato de que o mesmo é uma análise muito bem realizada sobre o casamento e o comportamento burguês.

“Havia os que celebravam sem restrições a arte de Eça. Eram a maioria. Não faltavam, contudo, os que, aceitando-lhe o talento, faziam-lhe toda a sorte de objeções ao estilo, à escola, ao processo literário. Entre estes figurava Machado de Assis. Dentro do seu culto erásmico da neutralidade, infenso à literatura de combate, preocupado exclusivamente com a travação psicológica dos romances, não poderia jamais concluir favoravelmente à obra satírica de Eça. Tanto no Primo Basílio como no Crime do Padre Amaro, tratava-se de um pouco mais do que de simples romances psicológicos: tratava-se de romance social, onde o verdadeiro personagem, o personagem que a todos se impõe e a todos domina é o meio”. (Moog, 1977, p.228)

O certo é que O Primo Basílio esgotou-se em pouco tempo, com as tiragens de dez mil exemplares sucedendo-se umas às outras. Assim, Eça tinha vencido: ele sintonizava com a sua época, sendo sucesso de público, com raras restrições na crítica, mais voltadas para a sua literatura com ponto de vista de destinação social.
É o mesmo Viana Moog quem comenta os aspectos que possivelmente fizeram deste romance queirosiano um sucesso escandaloso, traduzindo a proposta literária de Eça a partir da convergência de interesses temáticos por parte do público leitor:

“Apresentando um pequeno quadro doméstico da sociedade portuguesa −;;;;;;;; o formalismo convencional, a beatice, o charlatanismo, a gravitarem em torno de uma pobre mulher arrasada de lirismo e exacerbada na sua sensualidade pelos vícios de uma educação precária, visava Eça demonstrar que esses elementos combinados tinham de dar inevitavelmente os resultados que ele apontava: adultério, cretinização geral, decadência. Demonstrava essas conseqüências com a alta finalidade doutrinária e moral de provocar o horror por tais situações, para que tudo se refizesse em novas bases. Aliás, não se compreenderia que o homem que renegara a arte pela arte, a arte sem finalidades morais e sociais imediatas, se abalançasse a escrever romances, perdendo de vista o lado doutrinário de suas funções”. (Moog, Op. cit., p. 218) . . .

Sobre a obra

O presente trabalho tenciona fornecer elementos concretos que caracterizem de forma cabal a perspectiva crítica do escritor português Eça de Queirós na elaboração da obra ficcional O Primo Basílio, mediante o aporte dos aspectos conexos à visão de mundo do autor, seus pressupostos artístico-literários e o dimensionamento de suas estratégias de transferência de identidade entre os personagens do romance e a imediata realidade local em seu sentido eminentemente sócio-histórico.

O que motivou a sua elaboração foi a necessidade de se estabelecer o impacto da construção romancística eciana de cunho realista sobre a classe burguesa da época e suas repercussões na sociedade portuguesa alicerçada em falsas bases no meio da transformação moderna.

Os subsídios que implementam a necessária pesquisa nos diversos meios foram coletados no levantamento da própria obra e sua pertinente bibliografia adiante referenciada e em referências avulsas em artigos da internet, além do exame de anexos e ap

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Autoria
Cláudio Carvalho Fernandes
Ficha técnica
Colagem-síntese de autores e obras diversas sobre o tema Crítica da Sociedade Burguesa no Romance
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