UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÃ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
DISCIPLINA: INTRODUÇÃO À LITERATURA PORTUGUESA
O AMOR EM “OS LUSÃADASâ€
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Teresina
abril - 2001
INTRODUÇÃO
A temática do amor (ou Amor) encontra-se comumente associada à s formas de poema lÃrico, sendo o próprio lirismo definido como o gênero de poesia em que o artista expressa sentimentos, emoções, tornando-a (a poesia) subjetiva.
Ao fazer-se tal consideração de modo absoluto, pode parecer estranho que se fale do tema em um poema épico como Os LusÃadas, de Camões.
No artigo “Bucolismo e Eticidade n’Os LusÃadasâ€, LuÃs de Sousa Rebelo comenta que os estudiosos da epopéia camoniana várias vezes têm levantado a questão da mistura dos gêneros que no poema se oferece numa época em que a retórica tradicional mantinha uma compartimentação estrita entre eles e respeitava os códigos estilÃsticos que lhes são inerentes. Rebelo afirma que os modos lÃrico e épico combinam-se n’Os LusÃadas, contrastando-se seus valores numa ambivalência em que os aspectos ou variações do modo poético lÃrico projetados sobre a narrativa de natureza épica parecem transgredir, à primeira vista, a noção dos três estilos ou tons elementares que têm como modelo a roda de VirgÃlio da retórica medieval.
O mesmo Rebelo observa que se Camões não pode ser acusado, dentro deste dogmatismo estilÃstico, de jamais passar as fronteiras que definem os respectivos modos, já a transição de um gênero para outro no curso de uma narrativa épica é efetuada por ele com uma arte e sutileza cuja originalidade tem sido devidamente evidenciada. Os modos estilÃsticos, que adotou e integrou dentro da grande tradição clássica com fina originalidade, permitiram-lhe uma maior amplitude de reflexão sobre o sentido ético da conduta individual e na sua relação com a sociedade, fazendo-lhe compreender a grandeza e os logros da condição humana.
O filósofo alemão Heidegger, ao procurar a essência da poesia em Hölderlin, não afastou a possibilidade de ser ela conceitual e, ao mesmo tempo, lÃrica. De fato, é constante poética, através dos tempos, o aspecto lÃrico, presente, inclusive, na obra dos grandes épicos como em Homero, nas cenas de amor de Circe ou na espera do amado por Penélope (Odisséia); ou como em Camões, nas cenas do Adamastor e de Inês de Castro (Os LusÃadas). Assim, os interlúdios lÃricos são comuns à s epopéias clássicas, já desde a Odisséia e IlÃada de Homero, e a Eneida, de VirgÃlio, não sendo Camões o seu precursor.
Comentando sobre convenção e inovação na poética camoniana, Maria Leonor Carvalhão Buesco diz que não existe um “Camões lÃricoâ€, ao lado, ou até versus, um “Camões épicoâ€. A voz lÃrica e a voz épica não são senão uma única voz poética, cujos registros podem, certamente, percorrer toda a escala possÃvel do poético. Ética e Estética, Convenção e Inovação, Modelo e Dissidência, são marcos de uma identidade literária complexa mas coerente, que torna uno o diverso e que se apropria igualmente do “LÃrico†e do “Épicoâ€.
O AMOR EM OS LUSÃADAS
O Amor é um dos temas mais ricos da poética camoniana, dividindo-se em dois aspectos: o Amor visto como idéia (neoplatonismo) e o amor como manifestação da carnalidade.
Inês de Castro, O gigante Adamastor e A Ilha dos Amores são episódios com caracterÃsticas lÃricas dentro do épico. Para que melhor se compreenda sua inserção em Os LusÃadas, convém examinar as raÃzes das tradições clássica e medieval.
O século XVI é o século do Renascimento da cultura clássica, humanista e antropocêntrica, em oposição ao caráter religioso teocêntrico da cultura medieval. Em linhas gerais, essa transformação ideológica deve-se à crise do feudalismo (sistema econômico baseado na posse do feudo, ou da terra) e à emergência do mercantilismo (sistema econômico baseado no comércio), que promove a ascensão da classe burguesa, responsável pelas práticas comerciais, e o conseqüente declÃnio da aristocracia feudal. Interessava, portanto, à burguesia, no século XVI, substituir o teocentrismo medieval por um racionalismo que favorecesse eventos da importância das grandes navegações para o crescimento do mercantilismo: a descoberta de novas terras, de novas mercadorias a serem vendidas, de novos caminhos marÃtimos, implicou a descoberta de novos valores ideológicos e culturais. Valores mais próximos do paganismo grego do que do espiritualismo cristão. No entanto, a tradição medieval não foi extinta.
Em Camões, o poder de integração da experiência do homem na expressão estética alcança nÃveis que constituem a expressão total de uma época, na sua obra confluem as diversas tendências do Humanismo e do Renascimento.
Camões persegue uma visão idealizada da mulher, elevada a elemento de purificação e de divinização da alma do poeta. Através dessa visão idealista, pretende atingir a supremacia do Bem e da Beleza.
Mas a vivência de Camões não lhe permite realizar-se plenamente na idealização da mulher, como seu modelo Petrarca sugeria. Freqüente nele é o apelo carnal que ora transparece como conflito, opondo-se à concepção do amor ideal, ora surge como vigorosa união. Episódios como “A Ilha dos Amores†de Os LusÃadas exemplificam esse sentido de solicitação erótica, na tentativa de demonstrar a possibilidade de se atingir o entendimento de conceitos como Beleza e Bem através da consumação do amor, isto é, quando há a adequação do espÃrito à forma. Nesse processo antitético ( espiritualidade e materialidade, sensualismo e idealização ) está a grande tensão lÃrica camoniana. O poeta não chega a resolver os problemas da contradição; portanto, não chega à sintese, à racionalização.
No episódio do gigante Adamastor (como em alguns outros de mesma natureza mitológica) observa-se a presença da idéia de Amor, no empenho do gigante em proteger o ambiente em que vivia sua amada.
Também no episódio de Inês de Castro encontra-se igualmente a concepção idealista de um Amor elevado, sublime, que transcende os limites humanos, para o bem ou para o mal de seus protagonistas. É o verdadeiro Amor, amor puro, que está no mundo das ideias.
CONCLUSÃO
A poética de Camões tendo como temática o Amor apresenta-se marcada por uma dualidade, que representa as próprias dimensões básicas do fazer poético em que o autor se insere como protótipo do homem em sua relação dialética com o mundo: espÃrito clássico e espÃrito medieval; razão e emoção; humanismo e religiosidade; vontade sempre urgente de crescer e medo do novo; impulso e retração; exterioridade, objetividade, macrocosmo e interioridade, subjetividade, microcosmo.
BIBLIOGRAFIA
BUESCU, Maria Leonor Carvalhão. Convenção e Inovação na Poética Camoniana. www.cncdp.pt/oceanos/n23/artigos/buescu//buescu.html
ENCICLOPÉDIA BARSA, Volume 11. RJ-SP, Encyclopaedia Britannica Editores, 1975.
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através dos textos. 21ª edição, revista e atualizada. São Paulo, Cultrix, 1997.
PASSONI, Célia A. N. LÃrica de Camões. 2ª edição, revisada e ampliada.. São Paulo, Editora Núcleo, 1987.
REBELO, LuÃs de Sousa. Bucolismo e Eticidade n’Os LusÃadas (Internet) www.cncdp.pt/oceanos/n23/artigos/rebelo/rebelo.html
A temática do amor (ou Amor) encontra-se comumente associada à s formas de poema lÃrico, sendo o próprio lirismo definido como o gênero de poesia em que o artista expressa sentimentos, emoções, tornando-a (a poesia) subjetiva.
Ao fazer-se tal consideração de modo absoluto, pode parecer estranho que se fale do tema em um poema épico como Os LusÃadas, de Camões.
Comentando sobre convenção e inovação na poética camoniana, Maria Leonor Carvalhão Buesco diz que não existe um “Camões lÃricoâ€, ao lado, ou até versus, um “Camões épicoâ€. A voz lÃrica e a voz épica não são senão uma única voz poética, cujos registros podem, certamente, percorrer toda a escala possÃvel do poético. Ética e Estética, Convenção e Inovação, Modelo e Dissidência, são marcos de uma identidade literária complexa mas coerente, que torna uno o diverso e que se apropria igualmente do “LÃrico†e do “Épicoâ€.
O AMOR EM OS LUSÃADAS
O Amor é um dos temas mais ricos da poética camoniana, dividindo-se em dois aspectos:
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