Ugo decidiu que iria fazer um filme.
Não que ele fosse um ardoroso fã da sétima arte. Assistira a alguns bons filmes ao longo da sua curta vida; apreciava as cenas tramadas e digeria sem objeções qualquer bem engendrada mentira cinematográfica. Como ele mesmo dizia: “quem é que vai assistir uma fita e ficar esperando que o galã não sobreviva no final?â€
Porém uma coisa deixava Ugo revoltado. Filmes que acabam sem uma boa e lógica explicação o irritavam, personagens sem um final definido, atitudes ou motivos não explicados lhe tiravam a paciência. “Nada é mais aborrecedor do que uma trama mal resolvidaâ€, dizia ele com a testa franzida de puro descontentamento.
Com algumas economias deu entrada numa câmera para pagar o restante em prestações a perder de vista e se dedicou a estudar todo o manual. Paralelamente, matriculou-se em um curso de roteirista e em outro de iluminador, freqüentava aulas de segunda a sábado. Pouco dormia no espaço que lhe sobrava entre o trabalho, os cursos e os filmes que religiosamente passara a alugar e que assistia madrugada a fora.
Começando a dominar a câmera, Ugo passara a registrar todos os seus possÃveis passos, dividindo a opinião dos amigos quanto a sua tão dedicada loucura.
Lia rompeu com ele um namoro que já durava mais de quatro anos, por sentir-se relegada a um segundo plano. Seu compadre, Osmar, deixou de convidá-lo para os almoços de domingo – achava insuportável aquela obsessão de Ugo, em querer registrar aquilo tudo que se passava a sua volta – não mais o considerava, como um bom exemplo para os meninos.
O chefe, apesar de apreciador dos bastidores de Hollywood, decidiu transferi-lo para os porões do prédio onde se localizava o arquivo, o isolamento era um pouco compensador em face do aumento de salário e de mais tempo para estudar – na verdade Herrera temia uma má interpretação por parte da diretoria ou até uma possÃvel ação movida por um dos funcionários que incomodados se sentissem – não lhe via com motivos para demissão, mas não desejava expô-lo a incidentes nem se expor as possÃveis contrariedades com a diretoria.
Wagner lhe dava força, apesar de não serem muito chegados, lhe indicava livros e lhe passava recortes conseguidos das publicações de cultura e arte que assinava.
Suelli achava instigante a obstinada empreitada de Ugo – um dia ela teve que optar entre a dança e um altar, e após alguns anos, já como uma mulher desquitada, sabia muito bem o quanto custava um sonho interrompido – mesmo não se sentindo mais disposta a retomar seu caminho junto a dança, se via na obrigação de incentiva-lo, por mais utópico que parecesse o seu sonho.
Eu não estava mais na cidade, meu trabalho era outro, mas pude com facilidade reconhecer o nome: Ugo Carnevalle.
Era a folha de um jornal de meses passados, lá entre tantos pequenos parágrafos das páginas de lazer que embrulhavam um lote de camarões que eu tentava me concentrar para limpar.
Lembrei dele, que eu conhecera já deixando de ser um menino, abrindo e fechando malotes, depois já na maioridade datilografando os pedidos que chegavam aos montes via fax; e mais tarde tagarelando empolgado pelos corredores, falando o que aprendera sobre Spielberg, Nelson Pereira dos Santos, Nelson Rodrigues, Cacá Diegues, Orson Wells, Akira Kurosawa, Ridley Scott, entre outros diretores e cineastas, seus favoritos. Por fim, já o ouvia falar de gente que jamais saberei quem é ou quem foram os tais. Meus conhecimentos sobre cinema são tão vastos quanto os poucos fios de cabelo que me restam e tão esparsos como a possibilidade de me emocionar com um filme. Mas ler aquela nota até o final me entristeceu de verdade.
Tratava-se de uma mostra de cinema, e um dos trabalhos em destaque era o de um jovem cineasta que vendera seu rim para tentar realizar seu primeiro filme. Seu trabalho começava a dar bons frutos e alcançar algum sucesso, só que o prazer obtido com a confecção do filme, não havia sido recÃproco, com o esperado no resultado da operação.
Conheci bem o Ugo, e sabia bem das suas convicções. Até hoje lembro daquela nota no encharcado jornal, e não consigo encaixar aquele obstinado jovem, dentro de uma estória mal resolvida.
Parte integrante do Livro Folha A4
http://www.overmundo.com.br/banco/noites-sob-tuas-formas
Ola amigo vote. Se gostar. – elio Candido ibia -mg
Obrigado parabéns pelo seu trabalho.
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