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Os alunos que estavam nas primeiras carteiras, e mais ainda os que estavam junto à mesa da professora, perceberam sua inquietação. Ela permaneceu de pé, a cabeça meio baixa, os cabelos longos cobrindo parte do rosto, mexendo sem parar na bolsa grande, à procura não se sabia do quê. Uma aluna lhe perguntou sobre a manifestação, se ela ia participar, muita gente da sala pretendia ir... Ela respondeu que não, não iria. Desistiu de fuçar a bolsa. Em seguida, teve certa dificuldade de tirar umas folhas em branco de dentro da pasta de borracha. Ao se dirigir para o centro do tablado, ela enfiou os dedos nos bolsos de trás da calça jeans, deixando os polegares livres, os braços recuados e observou a turma com um olhar duro. Como ela era jovem, bonita e a adoravam ou respeitavam, aquilo teve o efeito de uma ameaça. A sala inteira ficou em silêncio.
Então ela começou a falar:
“Vocês estão pensando o quê? Que mandam no destino desse paÃs?... Não se iludam!... Pensem um pouco e me digam se essa história de Fora Senhor Presidente não está cheirando mal... Quem começou isso? Alguém pode me dizer?... Não se deixem levar pela cabeça dos outros. Vocês não são um bando de idiotas. Pensem um pouquinho, pensem!... O que está acontecendo agora não é nada diferente do que aconteceu antes. É uma disputa de poder entre a elite podre desse paÃs. As cobras criadas desse ninho estão se arrastando e se esfregando para ver quem come quem... A verdade é a seguinte: apostaram no homem mas não deu certo. Pensaram que ele seria um deslumbrado. Ambicioso, sim, mas não o megalomanÃaco que se mostrou... Pensaram que ele faria as vontades dos donos do poder tradicionais. Que modernizaria o Brasil do jeito deles. Favorecendo os interesses deles... Mas quebraram a cara. Ele tinha seus próprios planos. O monstro deu as costas para o doutor Frankenstein, para quem o fez.... Aà quase todas as tevês, jornais e revistas, a grande maioria do Congresso e os empresários da turma deles se cansaram daquele pastiche de Nixon. E se cansaram porque ele é brega... Apesar da pinta de patrão moderninho, ele, no fundo, se parece mais com o Brasil sertanejo, periférico, de cores berrantes, música alta, novo-rico. De pobre que nunca viu dinheiro e se lambuza todo, até passar mal. O cara é um coronelzinho urbano do Nordeste, e gente do Nordeste só serve para servir...â€
Silêncio.
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