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Ao ouvir alguém abrir a porta da rua, ele acordou mais lento do que pretendia, com o final do sonho ainda fresco na cabeça e a televisão ligada. Ele foi se levantando, mas voltou a deitar. Queria primeiro limpar a baba no canto da boca, esfregar os olhos com os nós dos dedos. Ele sabia que não era nenhum ladrão, nenhum intruso, pressentia isso. Ou era seu Jonas, o pai de Bruno, ou Tânia, a irmã... Era ela.
Tânia abriu a porta de casa e se deparou com um cara deitado no sofá, no escuro, a televisão ligada. Ela sabia que só podia ser o melhor amigo do irmão mais novo, mas resolveu checar assim mesmo.
“Cadê meu irmão?â€
A falta de gentileza dela não o intimidou, aparentemente. Ao ver que era ela, ele tinha se preparado para qualquer coisa, estava concentrado em não hesitar, em não gaguejar, em não falar truncado. Ele a olhou firme nos olhos e disse “Tá dormindo no quarto deleâ€. Sua voz saiu limpa, firme, e as palavras, inteligÃveis, fluentes. Ela o encarou por mais alguns segundos e foi para o quarto, fechou a porta. Ele mal teve tempo de comemorar o feito. Porque ele percebeu, mesmo em sua posição desfavorável, deitado no sofá, o pescoço esticado para o lado e para o alto, mesmo no escuro e na oportunidade fugaz entre variações luminosas vindo da televisão, que duas pequenas camadas de lágrimas brilhavam abaixo dos olhos dela. Ou teria sido uma ilusão de ótica?... Não. Ele tinha certeza. Fora rápido mas pôde ver bem. Mas, para ele, infelizmente, não havia nada a ser feito. Apenas estimular a imaginação. Especular um motivo.
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