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Quantas outras vezes aquele Ulisses de 15 anos viu, até então, aquela Tânia de 17 chorando? Duas. Na primeira vez, ele mal começara a freqüentar a casa de Bruno e já fora testemunha de uma batalha feroz entre mãe e filha. Era uma manhã de sábado. Quando Bruno, ele e Júlio chegaram da rua, as duas discutiam, gritavam uma com a outra. Tânia dizendo que não suportava mais viver naquela casa. Dona Ana exigindo respeito. Restou aos três meninos se refugiarem no quarto do anfitrião. Por enquanto, não ia rolar nem copo d’água. Mesmo fechada a porta do quarto, ainda se ouvia a troca de insultos perfeitamente. Bruno não sabia onde enfiar a cara. O motivo da briga aos poucos foi esclarecido: uma viagem com amigos de Tânia, um final de semana numa praia distante, sem pai nem mãe por perto. Para completar, Carlos, o irmão mais velho, saiu do banheiro como um elemento surpresa, querendo falar mais alto do que as duas, desafiando Tânia, defendendo dona Ana. Esta voltou para a cozinha, tentando acalmar-se. Os dois irmãos passaram a ser os inimigos na frente de batalha. Os meninos imaginaram que aquela tortura não terminaria tão cedo. Até que bateram uma porta com força. BUM! “Eh, diaboâ€, disse Júlio. Veio a calmaria. Alguém deu dois toques na porta do quarto. “Bruno?...†“Entra, mãe.†Ao aparecer, dona Ana também não sabia onde enfiar a cara. “Desculpem, meus filhos. Essa menina me tira do sério. Que vergonha...â€, ela sorriu nervosamente. “Que tal uns pedaços de bolo de chocolate e uma limonada geladinha? Num minuto eu apronto tudo.†A caminho da sala para aproveitar o lanche, Ulisses (e não só ele) pôde perceber a ressonância de um choro furioso do outro lado da porta do quarto de Tânia.
Na segunda vez, Ulisses fora a única testemunha... e secreta, diga-se. O conjunto de prédios onde Bruno morava tinha uma quadra que os meninos jogavam bola o dia inteiro. Numa tarde de muito sol e calor, Ulisses estava indo para lá quando ele viu Tânia andar com passos rápidos... em direção à Selva. A Selva era um lugar no fundo do conjunto, ainda com mata, amaldiçoado pelos pais, desafiado por meninos que brincavam de Indiana Jones e território de lendas e verdades envolvendo sexo, drogas, rock and roll e os jovens dali. Ulisses resolveu segui-la. Tomou distância para não ser visto. Em certo momento, começou a correr, pegando um atalho pela parte alta da mata para chegar primeiro ao final do caminho de terra. Quase lá, ofegante, ele se agachou atrás de alguns arbustos, no meio de uma descida. Ele se surpreendeu e teve cautela ao encontrar um sujeito loiro, musculoso, de camiseta azul e short amarelo, recostado numa árvore mais adiante. Não sabia quem era. Devia ter uns 19, 20 anos. Ulisses ouviu Tânia chegando. Ele tinha que ficar imóvel para que nem ela, ao passar, nem o sujeito, de onde estava, pudesse flagrá-lo. Deu certo. Mas que choque!, para ele e para o sujeito, e que maravilhoso, só para ele, foi presenciar a atitude dela. Ao se aproximar, ela meteu um tapa na cara do sujeito, sem mais nem menos. Ulisses não pôde ver tudo, porque Tânia de costas e um pouco da mata o impedia de ter uma melhor visão. Nem ela nem o sujeito disseram nada. Sem muita demora, ela deu meia-volta e caminhou com o mesmo passo rápido de antes. Em silêncio, apertou os olhos e dois filetes de lágrimas escorreram pelo seu rosto. O sujeito não parecia tão conformado com a sentença de Tânia. Ele ensaiou ir atrás dela, mas desistiu. Colocou as mãos na cabeça e gritou: “MAS QUE PORRA!...â€. Ulisses teve que esperar o sujeito ir embora para voltar à civilização.
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