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Ele continua deitado no sofá, assistindo a um filme de Jerry Lewis ; o sono já era. Mas não se sente mais à vontade, porque de quando em quando Tânia fica pra lá e pra cá. Ela foi ao banheiro, tomou banho, passou um bom tempo na cozinha preparando o que comer, entrou e saiu do quarto dela umas duas vezes, assistiu televisão no quarto dos pais. Ele acha que se ela está retada com a vida, deve se enfiar logo na cama e dormir. Ele não está gostando dessa condição inédita, de os dois ficarem sozinhos no mesmo lugar; Bruno não conta.
“Você pode me dar uma ajuda?â€
Dessa vez não houve tempo para estratégia, preparação. Num momento divertido do filme, Ulisses vidrado numa cena cheia de trapalhadas e mal-entendidos, Tânia tocou em seu ombro, mostrou-se com um rabo-de-cavalo e uma blusa folgada. Talvez o que mais o assustou foi o rosto dela: os olhos leves, o sorriso amistoso.
Ele concorda, mesmo sem saber exatamente o que está dizendo.
Ela pede para ele pegar a televisão dos pais e colocar em seu quarto.
Ele vai até lá. Passando pelo corredor, ouve o ronco de porco de Bruno.
Ela está no seu quarto, tirando o que tem na tampa do baú, que vai servir como rack.
Ele acende a luz e encara a televisão de 14 polegadas na mesinha de fórmica robusta. Sabe que tem de carregá-la, atravessar o corredor sem bater nas paredes e entrar no quarto de Tânia. E fazer tudo com certa pose, não mostrar cansaço.
Ele está preste a abraçar a televisão, quando percebe Tânia na porta. Agora ele se assusta por outro motivo: o olhar dela é de maluca. Os lábios fechados e imóveis, a testa saliente e o cabelo preso realçam a pele limpa do rosto. De inÃcio, ele até pensou que ela estivesse segurando uma faca.
Ela se aproxima. Ele não sabe o que fazer, então fica parado. O rosto dela cresce em sua frente. Ela se aproxima tanto que os seios encostam em seu tórax; ele é apenas um pouco mais alto do que ela. Ele engole em seco, olha os olhos verdes, pisca, pisca. O olhar de maluca se desmancha. Ela sorri. Ele tenta. Ela mete a mão dentro do short dele e encontra um pênis duro, mas não o bastante. Ele pensa: Eu não vou gozar, eu não vou gozar, eu não vou gozar... Ela recolhe a mão. Acaricia o pescoço dele, o beija lentamente. Ele a acompanha. Se atreve a apertar um seio. Eles afastam as bocas. Ela respira fundo. Ele quer dizer alguma coisa. Ela o impede, segurando o rosto dele. “Não diga nada, tá bom?†Ele concorda, segurando a cintura dela. “Hum-hum.†Ela vai até a porta, apaga a luz do corredor e passa a chave. Ele se recosta na cama. Seu maior medo é de que tudo seja uma catástrofe. Ela tira a blusa, está só de calcinha. Ele não acredita no que vê.
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