DESNATAL

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Luciano Fortunato · Mendes, RJ
9/11/2009 · 0 · 0
 



Abaixo dos meus olhos estava a velha e bela esfera azul cintilante. Úmida, delicada, inacreditavelmente bela. Era eu a caminho da minha missão n.º 5 no planeta. Em alta velocidade eu me aproximava de sua atmosfera. E, no brusco contato com esta, uma dor lancinante em minhas costas. Eu já havia me esquecido em como isso doía. Só que desta vez foi bem pior – senti minhas asas se despregarem do meu corpo antes que eu caísse no mar. Dor, muita dor. E as asas se foram para não sei quando.

Acordei na praia, deitado na areia, com as ondas empurrando meu corpo. Era uma praia deserta. Impossível saber se era uma ilha deserta. Eu, contudo, sabia estar deserto de tudo: deserto de boa parte do meu passado, deserto de meus companheiros e talvez deserto de Deus. Nas minhas costas dois enormes ferimentos, da ruptura das asas. Os ferimentos iam dos ombros até a última costela inferior de ambos os flancos. Eu estava vivo. Não era ainda o meu fim. A saudade da dor já estava morta – a dor confunde, fazendo-nos pensar que ela é a pior coisa que existe. Depois de tantos anos esperando por esse momento, da minha volta à Terra, eu já estava com saudade do céu. Ah, a dor. Mergulhei no âmago da floresta e tratei meus ferimentos com ervas locais. Senti fome. Descobri que quase tudo serve como alimento mais ou menos nutritivo. Passaram os dias. A dor nas cotas havia também passado. Os ferimentos cicatrizados. Decidi ir em busca do meu destino: alguma cidade. Consegui um mapa-mundi e fiz minha escolha. Para onde eu faria minha penosa peregrinação.

Rio de Janeiro. Por alguns motivos, julguei ser o Rio o melhor lugar do planeta para eu exercer minha nova humanidade pessoal. Não foi tão difícil me readaptar à vida civilizada. À vida carioca, no caso. Em poucos anos eu já havia conseguido meu ganha-pão trabalhando como escultor. Esculpia mulheres nuas, homens nus, crianças e anjos com asas. Dava pra ganhar um troco. Apesar do ofício pouco comum, aprendi maneirismos do local, como o gosto por samba, embora eu nunca tenha me habituado ao carnaval. De toda forma, sempre preferi rock a samba – na minha casa tem guitarra, não cavaquinho. Um dia eu fui a um grande tatuador em Ipanema, que ficou impressionado com minhas cicatrizes mas não fez muitas perguntas. Em um ano as cicatrizes estavam completamente cobertas. Muitos desenhos foram feitos na minha pele disfarçando as enormes cicatrizes, com destaque para duas enormes asas.

No meu ateliê eu curtia minha arte e minha solidão. Tornara-me um colecionador não-maníaco. Em destaque, na sala, um antigo aparelho de som comprado num antiquário. No aparelho eu ouvia discos do Bob Dylan, para entender a vida – e muita coisa nesse planeta houvera mudado desde a minha última vinda, quando parti em 1848, deixando Londres e meus amigos Marx e Engels, com os quais atuei na elaboração do Manifesto. Bons tempos aqueles. Aquela foi a 4.ª grande viagem. Então, que rumo tomara minha vida nesta 5.ª viagem? Não me sentia preparado ainda, mas já era hora de eu fazer alguma coisa, ou seja, fazer o que precisava ser feito. Era dezembro, ano 2039 depois de Yeshua – este que foi um cara e tanto –, as coisas estão bastante diferentes. Um desânimo parecia pairar como nuvem de moscas sobre a cabeça de cada homem. Há uma coisa – aliás várias coisas diferentes dessa vez. Minha memória falhando era uma delas. Outra coisa são minhas forças, que não eram as mesmas, estando eu mais humano do que jamais me sentira. E já não tinha mais certeza de que poderia retornar ao céu. Minhas asas: era minha primeira vez sem elas. Se havia o lado bom, que era poder ir à praia, surfar – e essa a sensação mais próxima de voar que eu consegui como humano –, andar por aí sem o inconveniente sobretudo que as escondia, havia, por outro lado, o problema da insegurança, da incerteza se um dia as teria de volta. Não que a vida humana não seja boa. A morte humana é o que mais angustia. A morte parece sempre iminente. Teme-se a morte, e, ao mesmo tempo, anda-se tão perto dela e se a trata com tanta indiferença que não dá mesmo pra entender. As coisas parecem mais importantes que as vidas. As nações, religiões e ideologias são mais importantes que as vidas. Os automóveis mais importantes que as vidas. Os hotéis mais importantes que as pessoas hospedadas neles. As marcas mais importantes que as pessoas. Os animais não falantes? Estes, pobres coitados, não possuem mais sua própria vida: viraram coisas, meros itens alimentares. Não há diferença entre um frigorífico com bois e uma plantação de trigo. A logomarca de uma lanchonete de hambúrgueres tem mais alma que um boi, com certeza. Então alguém, de repente investe muito dinheiro para salvar as tartarugas, protegendo-as, assegurando sua reprodução e desova. Mas ninguém investe um centavo para salvar as almas dos bois. Isso ainda não é nada. Há ainda aqueles homens que tratam outros homem como se bois fossem. Hora de fazer algo.

Estávamos em dezembro. Dezembro é quando se come mais animais. É o mais sangrento dos meses. É o mês que escolheram para dedicar a meu velho conhecido Yeshua. O que Yeshua iria achar se soubesse que as nações trocaram seu nome por um outro adaptado? Se soubesse que é adorado não por seu nome, e sim por um apelido: Jesus. E, pior do que tudo, o que ele iria achar ao saber que alguém que nada se parece com ele roubou pra si as celebrações de dezembro? Um homem velho, gordo, rico, com a barba branca e um imponente e prepotente roupão vermelho. Um velho, que por ser rico, estimula a troca de presentes, que só faz enriquecer ainda mais os ricos que são donos dos meios de produção dos artefatos presenteados pelo mundo inteiro. Essa idéia só poderia mesmo vir de um rico: o mundo inteiro comprando presentes, ampliando-se ao máximo a produção e o lucro. É claro que é preciso comemorar o enorme lucro. Para isso, uma grande matança de animais. Muito dinheiro e muito sangue nos insanos dezembros pelo mundo afora. A festa está completa.

Maracanã. A velha tradição da chegada oficial do bom velhinho à Cidade Maravilhosa. Eu toco guitarra em uma das bandas que se apresenta na festa de boas vindas ao velho metido. Lá vem o desgraçado clone, da legião de clones desgraçados, no helicóptero. A nave pousa. Ele, escoltado, caminha até a plataforma onde eu toco com meus amigos. A plataforma é bem alta. Uma queda daqui de cima seria fatal. É minha chance então. Jogo a guitarra no chão e avanço com toda velocidade e raiva pra cima dele, lanço-me contra ele, caindo, nós dois, de uma altura de quase 30 metros. Nossos corpos não puderam suportar a queda. As imagens, registradas por diversos ângulos, rodam o mundo. As marcas em minhas costas chamam a atenção de um médico, que percebe que há mais que tatuagens em meu corpo. Minha matéria mortal é levada para a faculdade de medicina. Num exame de raio-x, o espanto: algo muito errado com a estrutura óssea do meu corpo. Não houve um enterro cristão para os meus restos mortais. Sem família para pleitear um funeral, a moradia ficou mesmo sendo um refrigerador no hospital da faculdade. Médicos do mundo inteiro fizeram visitas secretas ao hospital para ver a realidade gritante e surda daquele corpo. O que se sabia da identidade daquele homem? O que encontraram na casa dele? Esculturas belíssimas. Pranchas de surf. Um violão. Uma guitarra Gibson. Diários. Sim, diários. Sim, os meus diários. Os diários tornaram o assunto ainda mais complicado para os investigadores. Polícia Federal com auxílio do FBI. Nenhuma conclusão, obviamente.

É fogo. Até hoje não sei exatamente se minha verdadeira missão n.º 5 era matar um papai-noel. Isso parece tão pouco, não é verdade? Além do mais, não sou assassino. Não sou o anjo exterminador enviado por Deus para matar os primogênitos do Egito. Ouvi até dizer que isso não passa de boato. Eu nunca quis matar ninguém. O que fiz, fiz por um impulso humano. Acabei me tornando humano e mortal. É humano matar, morrer e carregar o peso das culpas. Hoje, ao escrever essas minhas memórias póstumas, ainda posso sentir o peso da culpa nas minhas costas.

Passara-se um ano daquele trágico natal. Um novo dezembro então. O detetive do FBI morava no Rio a convite do Governo brasileiro. Muitas informações sobre o caso, sem nenhuma que o pudesse esclarecer. Na noite que antecederia a festa da chegada de Papai Noel no Maracanã, apreensão na casa do detetive americano. O dia porvir seria cheio. A segurança multiplicada por dez. Nada poderia atrapalhar o culto simbólico ao anti-homem de vermelho, o falso deus capitalista – já que o verdadeiro deus é o próprio dinheiro, como já sabemos e fingimos não ver. É o dinheiro que se cultua nas noites de natal e ano-novo. A musiquinha diz de forma clara e direta sobre nossos desejos mais íntimos: “muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Vejam que até a saúde é uma mercadoria a ser vendida. Lendo os diários do estranho, o detetive se obrigara a pensar sobre questões nunca antes por ele formuladas a respeito do absurdo natalino. Hora de ir pra cama. Adormeceu o homem, enfim. No meio da noite silenciosa alguém bate na porta. Ele acorda e, com certo medo, vai atender. Vê que é uma menininha – bonita, com os cabelos encaracolados, olhos grandes. Abre a porta. A menina o entrega o que parecia ser um terno sob um plástico escuro. Ele segura. A menina sai correndo noite a dentro. Na sala ele retira o plástico. E o que ele tem em mãos? Um enorme par de asas.



*

Sobre a obra

Conto insólito de Natal

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Luciano Fortunato é colaborador do site Crônicas Cariocas
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