Diálogos da esfinge (parte V)

José Afonso Viana
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Cida Almeida · Goiânia, GO
16/3/2007 · 82 · 1
 


O calafrio que precede as grandes quedas

Lá está ele, aquele domingo emblemático e mordaz, como uma esfinge a circundar-me com seus mistérios; e aquelas portas que se abriram para um mundo interior e exterior que eu desconhecia. Foi apenas um esbarrão e em pouco tempo eu estava no fundo de um poço cheio de dúvidas e negações para situações tão obviamente ignoradas pela minha crença de que aquilo jamais aconteceria.
Mas aconteceu. Entre os dias que acreditava serem meus e também claros como a certeza que habitava o meu coração. E eram dias comuns e alegres, cheios de eu te amo, febre emocional, entrega cega, saudades insanas, escrituras do paraíso e ilusão de entrega.
E aquele esbarrão que até hoje dói na minha alma foi só o começo de uma lucidez desorientada e outras histórias carregadas do mistério original. Por isso, ainda me vem, em certos dias, o calafrio daquele domingo que virou a minha vida pelo avesso.
Tenho outra idéia fixa, mais dolorida do que aquilo que comecei a viver naquele domingo: pensar que poderia não ter escavado aquele mistério tantas vezes sondado e continuado com os meus dias plenos de uma falta que devorava tudo por dentro, sem que tivesse a chance de entender ou estancar minhas dores e meus gritos, que fossem.
E como doeu encontrar as respostas certas para aquelas perguntas que nenhuma esfinge plantada dentro de mim ousaria sussurrá-las no pior dos meus pesadelos! Tonta, ainda, por aquela queda livre e inesperada, agarrei o fio se desfazendo antes da resposta, batendo-se em retirada e recolhimento, feito momentos-conchas que sempre me intrigaram, e fui fundo.
- Por que não me disse antes?
- Porque não perguntou.
- Perguntei, sim, várias vezes, de várias formas...
- Talvez nunca tenha perguntado desse jeito.
- Desse jeito como?
- Assim. Talvez nunca tenha feito a pergunta certa.
- Meu Deus, que frio é esse que ainda hoje me percorre a espinha, como um calafrio!
Aquela tarde de domingo virou uma noite densa, estilhaços sob meus pés descalços e um choro de arrebentação. Nunca vou esquecer aquele momento em que me perdi; rasguei a pele como quem destrói uma roupa, uma fantasia... Varei dias, noites, choros, desesperos, convulsões e encolhimentos, e uma ciranda na minha cabeça com aquela descoberta: perguntas certas.
Empurrada pela situação, pelos movimentos e não-movimentos, caminhei decididamente em direção à esfinge. E avisei: só paro quando chegar ao fundo. Mas tive o cuidado da lição das respostas certas antes de todas as perguntas. Que tormento, descobrir respostas para perguntas além do nosso entendimento! Parei e prestei atenção a todos os sinais, as linhas tortas de um texto antigo e confuso, entrelinhas, movimentos e não-movimentos.
Os silêncios me contaram mais coisas do que todas as palavras cometidas. Fui fundo, como havia prometido, e com tudo, consciente e inconscientemente. Até meus sonhos viraram uma espécie de oráculo nesse diálogo torto e sem cabimento com a esfinge. E eu que pensei que já havia transcendido esse negócio de matar o pai e comer a mãe, de repente me vi sob o guarda-chuva da intimidade do mistério.
Também encontrei sujeitos ocultos e orações inominadas e móveis deslocados na sala. Não gostei, nenhum pouco, da sensação do chão fugindo aos meus pés e de me ver sozinha numa luta esquisita em um tatame duro onde recolhi verdades tiradas a força, no limite da exaustão. Já que era irremediável mesmo, essas verdades poderiam ter vindo naturalmente, numa generosidade perversa, mas espontânea naquele processo de cadeado arrebentado.
Se tivesse o direito da escolha, preferiria mil vezes a faca limpa, afiada e quente da verdade.
(íntegra do texto no anexo para download)

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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
21/03/2006.
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José Afonso Viana
 

Os efeitos e os cortes são tão interessantes que sequer lembram a fotografia original. Esta esfinge é um enigma também na leitura visual.

José Afonso Viana · Goiânia, GO 16/3/2007 09:01
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