Trago as mãos frias, o corpo coprologicamente imundo. Estou morrendo, mas antes quero contar a minha vida: eu Adônis Boaventura.
A última pessoa que tentou consertar o mundo morreu ridiculamente dependurada numa cruz. Já me acostumei aos reveses da vida, aprendi cedo a lascívia hedônica deste mundo, a mim pouco importa os outros, se eu posso gozar. Gozar é a palavra de ordem. Para quê ideais, se você pode gozar. Para quê religião, para quê a busca incessante por um sentido... se você pode GOZAR! No mundo não cabe o amor, apenas o desejo.
Vem-me agora uma cena recorrente: meu esquife sobre o estrado, as mulheres que já comi estão lá, chorosas, lembrando que em pouco tempo o tecido que revestia meu pau irá se decompor sob os lábios dos vermes e elas pranteiam, não por mim, mas pelo pau que perderam! A grana que ganhei me vendendo, gastei toda com drogas, bebidas e putas. Fazia uma carrerinha e cheirava tudo, bebia tudo; fodia com todo mundo... é, fodia!!!!
Depois conto o começo. Agora só cabe o fim. Estava comendo uma mulher de um policial, o cara velho, sargentão marrento da PM, tipão barrigudo, bigodinho sem graça, olhos de peixe morto. Tava tomando cuidado, a dona me pagava bem. O cara viajou. Ela me chamou. Fui. Tudo aconteceu na casa dele, na cama dele. Quando eu tava terminando o filho da puta chegou. Deu um chute na porta, trazia a arma na mão. Ela segurava o meu pau, tava pagando UM. Ele apontou a arma pra mim. Parecia enfurecido... tirou as calças “Me come!” ele disse. Fiquei atônito “O quê?”. “Me come ou te mato, e você vagabunda, engole esse choro!”. Fiz o que ele pediu. Depois ele comeu a mulher dele. Me deixou algemado no canto da cama. Acabou. Pegou a arma, deu dois tiros na minha barriga. “Vai morrer bem devagarinho, filho da puta!” e sorriu.
Diário de um gigolô, parte II
[1981] Os dedos ainda reluzem no rosto de Carmem. O primeiro soco atinge o lado direito de sua face. Outro murro no estômago, ela grita, murmura qualquer coisa inaudível. O filho de cinco anos vê tudo, à moda dos anjos que se dependuram nos altares e espiam, espiam absortos na sua total impotência... “mamãe, mamãe!” e a frase se perde no tempo...
[Apartamento, 203, rua Epam..., são 14h, chove, uma mulher gozou] “Adônis, você é mesmo muito gostoso!”, diz a velha matrona de 42 anos, mulher do deputado L. Arias, ferrenho opositor da situação. Adônis veste a calça, toma seu óculos de Gamboa Air2 Preto Brilhante “Fico bonito assim?” e faz uma pose estranha em frente ao espelho.
“Você ama o velho?”, perguntou o “puto”. A senhora M. Arias, não se conteve “Você é mesmo engraçado, Adônis... Amor! O que é o amor? Quer dizer, a gente não mente para si mesma. Nossas mães ensinaram a gente a ser pura, e você vai se apaixonar e casar e continuar apaixonada pelo mesmo homem a vida inteira. Ok. Mas a gente sabe que não é assim que acontece e não mente para si mesma. Você talvez nem encontre alguém para amar. Ou talvez encontre alguém para amar por quatro minutos, talvez dez minutos. Mas, quer dizer, por que mentir para si mesma? A gente sabe que não vai amar o mesmo homem a vida inteira. Talvez seja a BOMBA – a gente sabe que pode acabar tudo amanhã, então por que tentar se enganar hoje? Viva ao dinheiro que move esta engrenagem, Adônis, no fim é só isso que importa!”
Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!
+conhea agora
No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!