Cabutá era filho de um índio pescador que veio de Manaus. O velho morreu de câncer de próstata e o deixou por aqui sozinho, em meio à perversidade linda que é o Rio de Janeiro. No canal Marapendi o jovem tirava seu sustento, mas os peixes há muito não apareciam. Decidiu, em um fim de tarde fresco, ir às margens para catar caranguejos e afins, e adoecido de fome e com os ossos fracos, tombou nas águas escuras e poluídas.
Logo foi cercado por um vasto contigente de GIGOGAS que foram não só se nutrindo dos podres nutrientes da água, e sim também do sangue e tecido marcado de Cabutá. A dor era imensa e o índio gritava e gritava, mas os jovens que passavam em seus carros importados logo acima, em uma ponte, não o ouviam e aceleravam em direção às luzes da Barra da Tijuca.
Ali abaixo, no escuro torpe e fétido, a natureza se transformava, dando nova vida ao corpo que já não era mais humano. A ira provida por um cérebro contaminado pela marginalização e pelos piores excrementos industriais e animais, movia uma massa esverdeada e grotesca para fora do lago. A fome é enorme e esta nova criatura, ainda não catalogada por ocultistas e biólogos, precisa muito se alimentar. A qualquer custo. E o alimento, que poderá ser a carne humana tenra e suculenta, com certeza será mais prazeroso, pois um sentimento íntimo de vingança surgirá.
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