Admito que estou apreensivo. É a primeira vez que ela vem à minha casa. Falamo-nos diariamente – quase, ao menos - mas não houve a oportunidade de ela vir aqui. O relógio, como é costume nessas situações, fica imóvel. Levanto-me e torno a sentar inúmeras vezes. Abro a geladeira e depois a fecho, sem pegar nada lá dentro. Caminho em direção à porta e depois faço o percurso inverso. Volto, destranco e tranco a porta. Não estou confortável. Olho para o meu pequeno apartamento procurando algo que possa estar fora da ordem, um motivo para que ela venha a reclamar, apontar como desvio da norma. Sei que ele está um pouco sujo, mas agora não há nada que eu possa fazer. Pelo menos organizado está. E, principalmente, guardei todos os indÃcios de solidão e tristeza pelos quais eu passei nos últimos meses.
Saà de sua casa quando eu percebi que a minha vida era mais da porta para fora que dentro das quatro paredes. HavÃamos vivido 20 anos juntos. Nos últimos tempos nos suportávamos. Saà e resolvemos manter a civilidade. Eu usava um argumento para me convencer: todo o tempo não poderia ter sido em vão. Ligava para ela como que obrigado. Não era agradável. A conversa beirava a burocracia.
Senti que ela perdeu o interesse, de uma maneira geral, de uns tempos para cá. Ela, que sempre fora bastante alegre, organizava festas para os familiares, mesas enormes com pessoas completamente desconhecidas para mim. Não pertencia à quele mundo, à quela realidade. Já ela, ela era a favor da união sangüÃnea, diferenças seriam diminuÃdas, amigos formados pelo sobrenome em comum. Nós não brigávamos nunca, mas esse teria sido um bom motivo para discussões. E agora, ela perdeu por completo a empolgação. As suas falas são decoradas, quase ladainhas. Reclama de tudo, diz que está sozinha, que se sente perdida, que não há mais ninguém. Eu não soube lidar com isso e apenas a escutava, sem pronunciar nenhuma palavra. Não queria me envolver, não achava que era da minha conta, que eu deveria fazer. Mantive-me à distância dos fatos e fui um observador frio da sua queda.
Não creio que a sua doença tenha começado por minha causa. Pelo menos não quero ter essa culpa, já que não vejo utilidade nesse sentimento. Mas é coincidência demais ela ter piorado assim que eu saà de casa. Ela começou a murchar, acinzentar-se, desistir da vida. A doença veio logo em seguida. Não havia mais porquê de ela lutar contra. Entregou-se à fatalidade e esperou o inevitável.
Naquele dia viria à minha casa porque eu morava mais perto do hospital que ela. Queria demonstrar que poderia viver sozinho, sem ela. Parecer independente, este era o meu intuito. Mal eu sabia que quanto mais lutava para me desvencilhar dela, me perdia de mim mesmo e de todos à minha volta. Com a independência tão almejada, veio a solidão profunda. Eu passava dias inteiros, finais de semana sem abrir a boca para conversar com qualquer pessoa. SaÃa de casa poucas vezes, para nunca me divertir. Todas as festas não tinham mais nenhuma graça porque não me atingiam. Eram distantes da minha realidade de solitário. Cheguei a pensar que para sempre viveria assim. Todos os meus planos estavam naufragando. Continuava porque não tinha opção ou era covarde, ou para provar que conseguiria sobreviver.
VivÃamos o mesmo sentimento, apenas distanciados um do outro. Não havia forma de consertarmos, deveria ser assim. Eu não queria diferente, ela não enxergava outra forma ou tinha medo de tentar.
E então, a campainha soou...
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