Soul Sócrates
Todos os céus têm os seus lucÃferes e todos os paraÃsos as suas tentações. Ali estava o exemplo, talvez mau, por sinal, porque haveria de custar uma reputação, indigna, é verdade, mas anda assim, uma reputação. Sem mas, pôs os olhos cobiçosos na sua comadre, que, ofendida, disse meia palavra ao tio, padre, que logo deu inicio ao fim do relacionamento entre os dois servos da santa madre igreja, um pela freqüência, outra pelo direito. Com discrição, valendo-se assim do poder da batina, não recriminou o olhar de quem deseja a mulher do próximo, porque o próximo poderia ser o próprio padre e não pegaria bem. Todos sabem dos hábitos, mas não convém expor, tenho dito. Foi então que o padre se valeu do matrimônio, não dele, ainda que por ele seja benzido, em nome do pai, do filho e do espÃrito santo, amém, mas do outro homem, casado, que arrastava asa nas vistas da esposa, caindo em discordância com os preceitos monogâmicos da católica igreja, que de tão católica, universal no dizer, pode condenar até os que estão na lua. E assim foi. Condenou as vistas do outro em público e assim saiu vencedor, com a aparência inabalada e a autoridade santificada pela tábua das 10 leis de Moisés , para não dizer de Deus. Mas haveria de ter o troco, prometeu o condenado, nas vistas da esposa, calada, quiçá por vergonha, por vergonha ou por felicidade, se não pode ela, pode o padre, que é homem e santo. Uma semana passada, a igreja, como nunca antes, estava cheia. Tinha poucos fregueses e nem todos constantes, por isso o espanto. Até porque não era o recinto de milagres, um ali, outro aculá, nada que possa valer uma romaria ou uma simples quermesse. Nem a marca do santo tinha, apenas o nome, católica. E, por mais que o nome traga consigo todos os outros, não são dos segundos que se lembra, mas do primeiro, muito prazer, Sócrates. Mas não estava ai o defeito. A debilidade da ação apostólica não estimulava as devoções.Não pelo padre viver em dúvida com a sobrinha e isso assombrar as ovelhas, mas pela secura com que realiza missa, velório ou procissão. Mas, nada como uma ovelha condenada, porém, “arrependidaâ€. Corria a boca pequena que grande se fazia, na verdade uma conversa de uma pessoa só, que o padre iria realizar um sermão daqueles, digno dos melhores paramentos da sacristia, um deles, o castiçal, doado pelo Papa Bento, que não carregava mais nomes, mas dezesseis. Por isso estava cheia a igreja. O padre, depois da surpresa, consternou o semblante estupefato e foi até os pés dos santos, todos presentes.Quando foi a hora de tocar cada um deles, como é de costume, em respeito a santidade que todos haviam de ter, o padre ouviu uma campanhia. Ali estava a ovelha arrependida, chamando a atenção de todos. Alguns riram, não se sabe o quanto pelo padreou pelo engraçadinho. Uma vergonha, co os santos todos a olhar, e Deus que tudo vê. Enraivecido pelo despautério do sacristão, tomou-lhe o padre a campanhia das mãos e deu-lhe uma safanada. Mas não ficou por menos, tomou de volta.E não tardou que paramentos de padre e opa de sacristão se envolvessem em turbilhão confuso, qual de baixo, qual de cima, sacrilegamente rolando nos degraus do altar. Foram apartados como dois galos que brigam e no meio, aproveitando-se do emaranhado de pernas e braços, matando uma sede antiga, as beatas, que ali não cabia ver rezas, mas, tão pouco, confissões; no meio de tanta gente, qualquer deslize é mero mau jeito. E acabou a missa, um pra lá e o outro pra cá. O primeiro e o segundo tão sem graças, que não haveriam de ter nomes para definir o que ocorreu, por um lado pecado e pelo outro, hipocrisia, mas não se sabe ao certo em qual cabeça cabe a carapuça da onde.
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