Entre todos os ranços saturados.

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Daniel Longhi · Recife, PE
5/8/2008 · 51 · 1
 

Trouxe o café à boca em um gole pausado. Da beira da cama, pousou a caneca no chão e virou-se para ver a garota, cega porque vendada, longe de impotente porque nua, estática. Pensou em desligar o televisor, mas Jules aos poucos fazia-se ciente da traição de Catherine, e, por ciência, amargo; sentiu-se cúmplice, e deixou-o sofrer. Que o fizessem juntos.

Levou a boca à curva do pé diminuto, mas tão somente houve a expectativa do toque; sente-se por sabê-lo certo, apenas. Descobria com os lábios a extensão de suas pernas, preservava os poucos milímetros de tensão entre pele e pele. Sentiu o cheiro do café que bebera misturado ao aroma de um corpo que convida; fosse qualquer outro final de tarde, o ímpeto já o teria levado, mas, hoje, pensava no tempo enquanto sentia a respiração dela acelerar. Prazer maior é a iminência do prazer, e dessa certeza vinham os suspiros por ela já ensaiados.

Tempo qualquer que durasse, seria apenas o suficiente para levá-la ao suspiro final; se há de chegar o fim, e disso sabe-se sempre, que a ele se chegue pelos melhores caminhos. Estóico, reservou a si o direito de percorrê-los, ao menos hoje. O leve agrado, quase uma brisa, fez-se um súbito assalto ao pudor, e o amargo do seu hálito foi ao que a mulher tem de mais oculto, depois das cavidades obscuras de seu coração. E enquanto Jeanne Moureau cantava sobre o turbilhão da vida sob os olhares óbvios dos dois amigos, era improvisada no quarto uma sinfonia inédita, à meia luz e A capella.

Vendara-a pela certeza de que ela se queria cega, assim como certo sempre esteve Jules da traição de ambos e amou-os mesmo assim. Amaria, mesmo assim. Cego já estava ele pela natureza obtusa de um sentimento que resistiu à velhice de sua metade, justo era que assim também ela estivesse. Levou o beijo despudorado ao que restava de corpo intocado, em um ritmo descompassado. Seus braços tinham-na firme enquanto, entre os dentes, fazia-se leve pressão. Pode-se recorrer ao exagero, mas não pouco sincero, de que foram os lábios alheios a parcela única de corpo a não ser tocada pelos seus. Entre duas bocas, depois de findos os beijos de amor, ou há beijos amargos ou beijo nenhum.

Ergueu-a, um corpo inerte e sem visão. Sentados, tomou-a por sua. O possessivo empregado é um conveniente clichê, em verdade, na paisagem do quarto em que estavam, ela e suas roupas eram os únicos elementos que não o pertenciam. Do que um dia foi uma vida concedida, restava apenas um pronome mal empregado. Gestos mais impetuosos entornaram as canecas, e o lugar todo cheirou a café e secreções. Na tela, sexo; no quarto, sexo. Em ambos, a amargura de não saber o que fazer com o cadáver do amor. Sempre se pode maquiá-lo e deixá-lo à vista, mera lembrança do que um dia foi e já não é. Mas vem a putrefação, e não se pode ignorá-la. O cheiro de carniça não me incomoda, em minha alma eu também o tenho, pensaria o rapaz, se não estivessem ambos, ele e ela, a tecer o o suspiro final, em uma última cumplicidade de fina ironia.

Dois corpos, nus e molhados, sobre a cama. O alívio pós-coito fez-se logo constrangimento; que carinhos seriam ensaiados que não remetessem àqueles feitos, um dia, com sincera serenidade? Tomou ele a iniciativa de vestir-se, logo imitado por ela, já com os olhos descobertos. Despediram-se, seria a última vez e sobre isso já haviam ambos concordado previamente. Os dois, por necessidade. Ela, da carne; ele, de sabe-se lá onde.

Fechada a porta, sentou-se no chão. No vídeo, eram velados os corpos de Jim e Catharine; sobre a cama, apodrecia um cadáver. E entre todos os ranços saturados, o do café era o que havia de menos amargo.

Sobre a obra

Recomenda-se ter assistido ao filme Jules et Jim, de Truffaut.

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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

bom o texto.votei.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 6/8/2008 13:02
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