Acordo. O telefone grita. Ainda intermédio humano entre sonhos e o real, atendo. Alô! Amor?! Tu pode me acompanhar em umas compras? Então beleza! Estou esperando, beijos. Desligo. Acho que dá para dormir mais um pouco... o som da chuva de Riders on the storm embala meus cÃlios para uma dança do sono. Acordo atordoado. Nossa! Já passou meia hora. Tenho que ir. O telefone toca. Você não vem? To chegando.
A loja é bem ornamentada, cheia de adereços para motivarem compras. Como telespectador, assisto ao movimento, às compras, ao marketing objetivo da loja. As outras lojas também são bonitas. Estou confortável dentro desses óculos escuros. Me sentia alheio àquela realidade, um vouyer. Olá! Tudo bem?! Uma moça simpática se dirige a mim. Posso te ajudar? Sim, minha namorada. Ela quer calças... Claro! Ela volta o olhar para o meu lado. Vem comigo, tem calças lindas por aqui.
Volto ao mundo dentro dos meus óculos. Será que tem coisas legais por aqui? Pergunto-me. Entre divagações deslumbro um cabelo. Um conjunto deles, de cor escarlate. Cabelos que mesmo presos insistiam tocar suas costas. Eram grandes seus cabelos, grandes e bonitos. A moça do cabelo escarlate se vira. Ela é linda. Me pego fitando seu corpo. Belas curvas! Generosas! Repreendo-me. Viro o olhar. Dentro dos óculos ela não te vê. Algo que não minha consciência fala dentro de mim. Tem razão. Passo a fitá-la pelo canto dos olhos através dos óculos escuros. Tem também um sorriso lindo. Esquisito. Parece que já a conheço. Não, não conheço. Mas a conheço sim, talvez de outras vidas. Me sinto um idiota e prefiro esquecer esse impulso romântico. Ela esta dobrando calças, a três metros de mim. Percebo um olhar. Ela me olha. Minha imaginação reage agressiva. A vejo gemendo, cavalgando em mim. Gemidos, um olhar, quase posso saboreá-los... Não deve saber que também a olho. Ela tira o olhar. Finjo interesse pelas roupas no mostruário. Como ela é linda! Exótica... Não, sedutora... Talvez os dois. Era linda, enfim. Vamos amor! Depois voltamos aqui. Vamos, disse.
Não queria olhá-la enquanto me dirigia para a saÃda, mas percebi que era o único perto da porta, enquanto minha namorada abraçava alguém. Um encontro entre amigos garantiu uma estada maior. Ela me olhava. Um olhar delator. Os interesses eram mútuos, estava claro. Uma calça cai por distração, a tÃpica distração de quem mantém atenção em algo alheio ao que esta fazendo. Tive vontade de rir, mas me controlei. Enxerguei um sorriso. Parecia que a conhecia de algum lugar. Tivemos que ir.
O som estava alto à quela noite no bar. A garoa que havia cobrido a cidade com sua umidade me embebia o juÃzo. Seus olhos, pensava. A garota dos cabelos escarlates havia saÃdo da loja enquanto eu entrava no carro. SaÃdo por mim, quis meu ego. Terá sido recÃproco realmente? Me sentia um traidor. Me sentia vivo! Estou bêbado... Viro o copo. Amanhã irei ver umas camisas.
(Conto cunhado em Fevereiro de 2006)
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