Exposição de olhos virgens- abre-se as portas( I )

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poetética patética · Cuiabá, MT
1/4/2006 · 0 · 1
 

Uma virginiana, envolvida em seus próprios métodos não convencionais de viver. Alguns até cabiam tão perfeitamente nos moldes corriqueiros da rotina em massa que disfarçavam muito bem que eram na realidade trejeitos típicos adquiridos pela posição de todos os astros ao nascer. Sua presença era vista nas ruas com o sol já queimando alto e sua falta não era sentida no gelo de começo de noite. Morava no fundo de um velho casarão central que acabara de ser reformado. Não vivia de bicos, não vivia de gatos e também não vivia de luz. Um pouco estrábica, franzina e pálida não passava despercebida pelos becos e centros que percorria. Tinha uma beleza singular que poucos conseguiam ver e ninguém ousou esmiuçar. Para muitos, quase todos, passava como uma maria ninguém, sem prumo e pouco rumo. Andava quase o dia inteiro pelas ruas centrais se arriscando poucas vezes na periferia da cidade embarcando pelos fundos dos ônibus lotados. Fazer oque? Não se tem com precisão essa informação, até porque, a seu respeito não há nem informação, quanto mais precisão. Os expectadores diários da sua aparente não rotina viviam a se perguntar como afinal levava essa sobrevida, como comia, de onde vinha e para onde tinha pretensão de ir. Será que havia pretensões? Ela nunca pediu dinheiro nem comida. Nunca foi vista em qualquer tipo de estado alterado da sua aparente falha percepção. Nunca ninguém ouvira a voz daquela andante. Não sabiam se era muda, surda ou louca. No entanto nunca ninguém lhe deu bom dia, boa tarde ou como vai. Alguma coisa naquela rapariga intimidava quem trafegava de alguma forma pelo seu caminho. Uma espécie de poder saia daquele corpo fraco fechando a boca dos que tinham a intenção de lhe dirigir a palavra. Sempre usava a mesma roupa, porém tanto a roupa quanto o corpo se mantinham limpos dia a dia. Exalava um cheiro característico nunca antes sentido, não havia substantivos que especificassem a mistura possível para resultar naquele aroma que era agradável ao passar mas não deixava saudade.Uma virginiana andante, estrábica e com uma não rotina tão detalhada e performática que parecia seguir um roteiro pré-determinado. Dos fundos do casarão cheirando tinta não se ouvia vozes, gritos, choros ou qualquer outro vestígio e vida humana. Chegava sempre por volta das 7 horas passadas da noite entrava pelo pequeno portão quase imperceptível ao lado da imensa fachada, só o que via era um corredor de terra que ao encontrar o grande muro de limite do terreno continuava a esquerda como que contornando a casa. O vulto chegava silencioso fazia o caminho e silêncio. Por volta das 9 horas matinais do dia seguinte fazia o trajeto contrário e saia para a peregrinação.Assunto geral dos moradores centrais, já se passavam 2 meses que esse silêncio estrábico intrigava e ouriçava a imaginação daqueles seres sedentos por estórias. 2 dias sem vulto, 2 dias passados sem a pequena sombra fraca. Ao fim do terceiro dia por volta das costumeiras 7 horas já passadas da noite, carros e mais carros praticamente trancavam a ruela já escura. Pessoas finas, mulheres em saltos e vestidos al dentes, homens pingüins, carro da televisão local. Um senhor alto, magro e igualmente estrábico para em frente ao principal acesso ao interior do casarão enquanto dois homens sobem em escadas fixando uma enorme faixa com os dizeres: HOJE: EXPOSIÇÃO INAUGURAL E FINAL DOS OLHOS DE LORI NIVES.

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informações

Autoria
Bárbara de Araujo Ferlin
Ficha técnica
Curadora do boas idéias
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Vítor Meireles
 

Belo!! Intrigante... com um leve toque fantástico. E como eu acho o final a parte mais importante de qualquer escrito, parabenizo também pelo final, a melhor parte!

Vítor Meireles · Cuiabá, MT 3/4/2006 09:42
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