Mais uma partida emocionante no jogo da vida. As equipes se posicionam. De um lado, Beatriz, hábil defensora, sempre se antecipa na jogada, ótima visão periférica, uma grande estrategista, é o cérebro do time. Do outro, João, atacante insinuante, driblador convicto, cheio de malícia, de gingado, pensa pouco, é verdade, mas não desiste nunca. Dessa vez o jogo é em casa, já que João andou jogando muitas vezes na casa do vizinho, ou melhor, da vizinha.
E começa o jogo...
João chega em casa, cambaleia as pernas tortas inspiradas em Garrincha, parte em direção à porta. Passa por um, passa por dois e abre a maçaneta. Quanta habilidade, a sutileza dos movimentos na hora em que o barulho é o inimigo. Mas Beatriz não se deixa enganar. Bem plantada na sala, ela costuma jogar na sobra. É sempre a última a dar combate. Talvez, por conhecer melhor o oponente do que as outras zagueiras, não se deixa levar pelos ludibriosos dribles de João. Não havia mais beleza em seus movimentos.
A única diferença desse jogo para o outro, mais racional, é que não há tempo determinado por ninguém, a não ser pelos dois jogadores. E Beatriz jogou todas as dores para cima do atacante. Pela primeira vez, João percebeu que seus dribles nada poderiam fazer contra uma defensora machucada que não vai mais para a dividida. Dividida estava ela, perdida entre dois tempos muito distintos. No primeiro, um jogo bonito, cheio de técnica, os dois jogavam no mesmo time e faziam uma tabelinha digna de Coutinho e Pelé. A cada dia um novo espetáculo, jogavam por música. Beatriz fazia lançamentos de quarenta jardas, lindos, cheios de magia para a bola morrer no peito de João, mais precisamente do lado esquerdo.A bola pedia abrigo ali, no coração do atacante.
Até que João começou a vestir outros uniformes. Saia de campo sem avisar, ia para o vestiário, tomava um banho e se arrumava para atuar em outros estádios. Os erros de passe começaram a aumentar, o entrosamento diminuiu e Beatriz decretou o intervalo da partida.
Uma pausa para o descanso, a reflexão, talvez pensar uma tática melhor para os dois.
Ela resolve voltar para o segundo tempo, mas agora é visível que os dois não jogam mais no mesmo time. Dizem que um zagueiro, quando humilhado, costuma marcar o atacante mais de perto. E foi isso que Beatriz fez. A magia do espetáculo foi embora. Virou um jogo truncado, cheio de faltas, de cartões amarelos, de contestações na marcação das jogadas. Como jogavam em times diferentes, começaram a se provocar a toda hora, para tentar desestabilizar o adversário. Um jogo chato, sem técnica, digno de um 0X0. Beatriz se lembrava com saudades dos dribles e lançamentos que cansou de fazer. Sabia que podia jogar mais do que aquilo, mas ultimamente havia se contentado somente em marcar, como uma zagueira caneluda que nunca fora. De líbero, zagueiro que costuma subir ao ataque para ajudar o companheiro, havia se tornado a mulher da sobra, que só dá pancada e chega na jogada quando muito pouco tem a ser feito. Seu passe começou a desvalorizar. Ela, sistematicamente, ouvia da sua consciência que sua carreira não estava acabando como os críticos insistiam em afirmar.
E João chegou, hoje, aos 48 minutos do segundo tempo tentando desempatar um jogo que já havia terminado. Beatriz já havia apitado o final da competição. Cansou da peleja. Deixou com que João a driblasse com as pernas de Garrincha, arrumou as malas e partiu. A partida de Beatriz foi sem prorrogação, sem pênaltis. Somente um melancólico estádio vazio, mais silencioso que o Maracanã na final da copa de 50.
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