PERDOA-ME, MINHA QUERIDA ESPOSA

1
Armando Neres (PSD) · Taubaté, SP
11/10/2013 · 1 · 0
 

Amostra do texto

Nasci em Taubaté, no ano em que o Brasil havia declarado guerra à Alemanha e à Itália, 1942. Sempre morei nesta cidade, onde me casei há 43 e apesar dos meus 62 ainda não me aposentei depois de quatro décadas como enfermeiro e o salário destes anos todos não me permitiram progredir muito na vida e dar maior conforto para minha esposa e nossos 6 filhos, dois já casados. Minha rotina sempre foi a mesma, desde quando saio de casa e retorno no fim do dia. No fim do expediente, inclusive nas sextas-feiras, recuso convites de amigos para passar uma ou duas horas no barzinho, pois depois de um dia fora prefiro matar a saudade da minha esposa e dos três filhos que, adultos, ainda moram conosco. Os finais de semana passo-os com a família e quase não viajamos, pois praticamente não sobra dinheiro. Portanto, sempre estive presente, com a vida aberta, os passos vigiados, mais ainda a partir de 1991, quando o nosso condomínio instalou câmeras de monitoramento no portão da rua, recepção e nos corredores. Apesar de estas câmeras ainda serem novidade nesta época, elas funcionavam perfeitamente e armazenavam as imagens, dando conta de todo o movimento no prédio 24 horas ininterruptas. Já éramos, portanto, em nossas casas e em muitas ruas da cidade, espionados constantemente, o que de certa forma era bom, para a nossa proteção. Coisas da modernidade que auxiliariam a partir daí na solução de muitos crimes.
Eu e minha esposa sempre tivemos um bom relacionamento conjugal e acredito que poderia ter sido bem melhor, mas como cada pessoa é única, tenho o meu jeito de demonstrar carinho, de dizer "te amo" e este meu jeito é leve, calmo, quase imperceptível, meio tímido. Muitas vezes não consigo dizer o que sinto. Isto, como muitos sabem, pode traduzir-se em desinteresse, como se eu não gostasse da pessoa que amo. O que não é verdade. Eu a amo cada momento, preciso dela, preciso dos meus filhos e dos netos (temos já 4).
A minha esposa, que penso me amar - afinal, imaginem uma mulher viver com um homem por mais de 40 anos, envelhecer junto, e permanecer ao lado dele nos bons e maus momentos, mesmo tendo ela, por tantas vezes, desconfiado da sua fidelidade, do seu amor, da sua entrega. Tendo desconfiado tantas vezes, sem qualquer fundamento, sem jamais ter comprovado uma traição. Pois bem, minha esposa, não sei porque, tantas vezes se afastou de mim dentro de casa, tantas vezes não a vi, mesmo estando com ela na mesma sala, na mesma cama, tantas vezes abri a boca para perguntar-lhe o que se passava, mas não conseguia dizer nada. Este "não dizer nada" provavelmente era pior do que perguntar o motivo daquele silêncio dela, daquele afastamento dela. É difícil amar uma mulher, estar bem por dez dias e ficar ausente dela por até dois meses, dois estranhos, sem entender o motivo, e de repente, numa manhã qualquer, tudo parecer estar normal para, novamente uma ou duas semanas depois, a situação anterior. Tantas vezes sem explicação, outras vezes por algum motivo fútil, vivemos dez ou quinze dias, morremos um ou dois meses, às vezes mais. Nem sei quantos anos vivemos nestes quarenta e três. Quinze? Vinte?... Não sei...
Este meu calar, este meu silêncio arrasa-me, mas não consigo mudar. Tantas vezes pensei que, se ela não parece feliz, talvez fosse melhor eu mudar de casa, morar sozinho, deixá-la ser feliz, encontrar alguém que a faça, finalmente, ser feliz de verdade, mas tenho medo de ser só, de perdê-la de vez, de me perder de mim pro resto da vida. E vou ficando, me calando, esperando. E a vida vai fluindo, independente de mim, sem se dar conta de mim...
Há quatro, quatro! meses, estamos assim, perto e longe, quase não nos falamos. Os meus dias no hospital são pesados, escuros, lentos e espero chegar em casa e encontrá-la de braços abertos para mim. Mas só posso dar-lhe um beijo no rosto, dou-lhe um abraço e ela não me abraça. Nas noites, deitados, abraço-a pelas costas - ela sempre fica assim, nesta posição - e ela afasta as minhas mãos. De manhã dou-lhe um beijo de bom dia na face, sem retribuição, e saio. Novamente não tive coragem de perguntar-lhe, de dizer que nada fiz, que a amo. Há quatro meses estávamos bem e um dia ela perguntou-me onde eu tinha ido numa quinta-feira depois do trabalho. Eu disse que do trabalho tinha ido pra casa, que não havia nenhum compromisso naquele dia em outro lugar. Ela já havia indagado com aquele semblante incriminador tão bem conhecido por mim. Perguntei-lhe porque e ela disse: _ "Nada". Como nada? Nada é motivo para ficar outra vez desconfiada de mim? Ela continuou calada, fria, ausente por uma semana e eu, daquele meu jeito, cale-me também, fiquei todos estes dias pensando o que poderia ter acontecido. Mas não sou mágico, não sei criar algo que não existe. E como explicar a alguém que, sabendo ou não, cria uma situação ilusória e crê que ela é real? Como dizer a um artista plástico, a um escultor, que uma obra exposta somente na galeria da sua memória não existe? Ela existe, sim! Para ele ela existe e não há como dissuadi-lo disto.
Depois de tomar coragem e novamente perguntar, alguns dias depois, o que acontecia, minha esposa disse que eu havia usado o cartão de crédito num bairro distante de casa, depois das 22h. "Onde você foi?", perguntou. Mas eu não fui a lugar algum, há meses saio direto do trabalho para casa. "Você não estava em casa quando cheguei?", perguntei-lhe. Não me lembro se ela estava trabalhando neste fim de tarde da referida quinta-feira, porque ela é manicure e atende também nas residências vizinhas. Perguntei do comprovante do cartão e ela disse secamente "procura!". Mais duas semanas se passaram. Pedi um extrato no banco e naquela quinta-feira não constava nenhum saque ou compra no meu cartão. Eu, daquele meu jeito, guardei o extrato e nada falei. Emudeci como ela. Eu não fizera qualquer coisa errada.
Depois de mais de um mês, lembrei das câmeras. Claro! As câmeras! Todas as minhas entradas e saídas de casa estavam registradas. Pensei em pedir ao síndico para verificar, mas logo decidi que, assim como eu lembrei das câmeras, ela também se lembrara. Se ela não fora verificar, eu nada iria dizer. Porque ter que provar algo que não fiz? Ela que fosse ver as gravações. Penso que outa vez ela criou esta situação (querendo ou não, não sei), para ficarmos longe de nós mais uma vez. Por qual motivo, se ela me ama? Apesar de mim, apesar do meu jeito estranho, difícil de me relacionar, de dizer coisas belas, ela me ama! Senão não estaria mais comigo. Minha esposa é daquelas que, se descobrir uma traição, acabou tudo! Se ainda está comigo, se não a traí , porque age assim? Porque nos faz jogar fora 70% da nossa vida?
Creio que quase tudo é por causa de mim, do meu estado de mansidão, eu reservatório de mágoas e dores eternas, eu feio e pobre, eu velho desde o nascimento, eu impossível de ver nas entrelinhas, eu incapaz de mostrar amor da forma mais comum, eu tímido, eu estranho, eu fora de mim desde que nunca me conheci, eu que, sem saber a forma de dizer e mostrar, amo a minha esposa e não posso viver sem ela.
Perdoa-me, amor meu, se jamais consegui te fazer eliz, perdoa-me se perdeste tua vida comigo, perdoa-me se há 43 anos iniciaste comigo o fim da tua juventude, o fim da tua alegria, o fim das tantas glórias que te esperavam.
Perdoa-me, se eu nunca soube da minha impossibilidade, da minha inutilidade, da minha incapacidade de fazer-te feliz.

Armando Neres (PSD).

Taubaté, SP, 25 de dezembro de 2005.

Sobre a obra

Minha rotina sempre foi a mesma, desde quando saio de casa e retorno no fim do dia. No fim do expediente, inclusive nas sextas-feiras, recuso convites de amigos para passar uma ou duas horas no barzinho, pois depois de um dia fora prefiro matar a saudade da minha esposa e dos três filhos que, adultos, ainda moram conosco. Os finais de semana passo-os com a família e quase não viajamos, pois praticamente não sobra dinheiro.

compartilhe



informações

Autoria
Armando Neres (PSD)
Ficha técnica
Relacionamentos, amor, dúvida, dor, filhos, traição
Downloads
331 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
rtf, 8 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados