Flama

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Katine Walmrath · Porto Alegre, RS
28/4/2007 · 14 · 0
 

Flama

Restar cor-de-rosa em fevereiro não chega a ser absurdo. Da tonalidade dos antúrios, sabe? Por que o horror? Sei de uns e outros que ficaram invisíveis. Acha inverossímil? Jurei usar esta palavra. E se disser que posso provar, acredita? Pois declaro que estou provando. Tem sido insuportável. Nem sei se vou resistir.

Está achando complicado? Não é não. Estou contando. A pele fina da barriga, inclusive a cicatriz, assim como as coxas grossas e um bom pedaço da bunda, está tudo cor de carne, em chamas, ardido, queimado, passado. Não é ficção. Não é minha imaginação. É um fato. Um fato róseo. Pode haver mais gracioso?

Bem, nada é tão simples assim. Um fato nunca é apenas um fato. Este fato é este fato entrelaçado a outras tantas coisas que acontecem e mais ainda a coisas que deixam de acontecer. Este é o caso. Veja só.

Era pálida, praticamente lívida, porque estava só. Tinha para si que no fogo encontraria o que estava momentaneamente (ou seria para sempre?) perdido. Por isso foi ao sol. Observe que foi ao sol encontrá-lo. Não ao sol. Mas a ele. Ele, ele, ele. Estava encantada, talvez tardiamente, com a idéia de pertencer e possuí-lo. Sendo tarde, ficou só, mais uma vez. E restou-lhe o cozimento. Porque nas sombras das palavras dele brincavam raios de sol. Era tal o enredo. E enredou-se.

Deitou todos os dias do mês, vamos dizer assim, pra fazer fita, que fica bem, todos os dias do mês como se fossem todos os dias da vida o corpo desnudo ao sol que ardia nas manhãs que vinham e vinham. E depois fez isso também com as tardes que se sucediam sem parar. E aqui vem o segredo. Nesse ponto se entrelaçam os fatos. As cousas que acontecem e as cousas que não se sucedem. As cores que fazem figura e as figuras que se desfazem no éter causando espalhafato. Pois foi que imaginou uma tal relação entre a ausência e a cor, de forma que adquirindo a coloração oferecida pelo sol fosse perdendo o desespero de abster-se forçadamente da presença dele. E era preciso rir muito da situação. Pois não era tão obtusa a desgraça. Nem era preciso queimar-se tanto. Nem na verdade foi tanto. Foi rosa. Foi sublime. É contar que deixa tudo tão rubro e vergonhoso. Mas vá lá que seja. E é esse o causo. De uma moça pálida que foi ao sol esquentar-se da distância de um tal rapaz que não estava nem aí, pensou ela com seus botões-de-rosa-metidos-a-inteligentes, e chamuscou-se. E por enquanto fim. Não achou graça, chora.

O que vem a ser? Se conto? Se historieta? Se piada? Seja o que for é impublicável. Por doce que tenha ficado. E azedará nas gavetas. Pelo menos por doze séculos. Depois virá à tona. E riremos muito. Como convém. Gargalharemos. Camadas e camadas de pele depois, sorriremos mansamente. E os antúrios nos fitarão acanhados.

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Katine Walmrath
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