Palmilhei quadras com minhas botinas Zebu. A lua, igual bola de vôlei, iluminou o céu, ciceroneada por nuvens semelhantes a pequenos morros repletos de arbustos. Encontrei Gustavo em frente à varanda da casa. Das paredes descascadas, vibrava Ângela Ro Ro, cantando Amor, Meu Grande Amor.
— E daà meu? — disse ele, com um sorriso e um cumprimento de mãos. Estávamos sem namoradas. Por isso a festa daquela noite parecia ser ótima oportunidade para nos divertir. Ambos usavam camisa xadrez de manga longa — eu, azul e ele, marrom —, abertas, mostrando nossas camisetas brancas. Filosofamos sobre Gramsci. Estávamos fascinados por aquele pensador italiano ter previsto que comunicadores e artistas eram o setor intermediário de um partido, que permitia a direção e aos militantes se relacionarem. Éramos, eu e Gustavo, comunicadores sem partido.
Minto, palpitávamos pela esquerda. Por isso participávamos daquela festa do PCdoB, porém também gostávamos do PT, do PDT e do PST-U. Todos pareciam querer reduzir a distância entre as classes sociais.
Do toca disco, Djavan cantava Lambada de Serpente. Luana, Augusto, Miguel e vários outros surgiram em turmas, cumprimentando-nos e adentrando o corredor exÃguo que dava para o pátio, nos fundos da casa. Fomos para lá, também.
Encontramos mais algumas dezenas de amigo. Onde estava Aline? Pensei que viria a festa. Comprei uma cerveja, armazenada em uma caixa metálica repleta de gelo, ao lado de uma das árvores do gramado. Ouvi uma seleção psicodélica sessentista de Caetano Veloso. O disk jóquei, Juliano, aproveitava para doutrinar politicamente alguns adolescentes. Muitos estariam na tarde do dia seguinte, domingo, em uma reunião do partido.
Clarice, loira e esguia, surgiu, espalhafatosa, com seu vestido policrômico esvoaçante. Flanava com plumas e sorrisos, sabendo ser admirada pelos rapazes e invejada pelas garotas. Ao cumprimentar, oferecia seu braço como se aguardando um beijo-mão. RÃamos.
Subimos a escadaria de cimento rachado. Na casa com, piso de madeira, uma banda arrumava os equipamentos para tocar alguns covers de Barão Vermelho, Roling Stones, Beatles, Red Hot Chili Pepers, Cazuza, Legião e Mutantes.
A fila do banheiro, composta por viciados, indicava o que acontecia ali, enquanto um casal de lésbicas aguardava oportunidade para utilizá-lo de forma mais criativa. O baterista, tocando a introdução de Rock and Roll de Led Zeppelin, tremeu o piso precário. Em minutos, dezenas de pessoas abarrotava as duas salas, a cozinha e a biblioteca do partido, repleta de volumes de Marx e Engels, biografias do Che Guevara e coleções de revistas do partido.
Gargalhávamos com mÃmicas de meu vizinho, Júlio. Gustavo depositava cerveja em nossos copos. Aline veio, acompanhada de Andressa. Fingiram não me ver? Conversaram com alguns alunos das Artes. Cumprimentei-as erguendo o copo cheio e sorrindo. Aline manteve o olhar por alguns segundos nos meus, como que consentindo o prazer em me ver.
Isso seria verdade?
A bela estava com as bochechas rosadas, provavelmente de beber vinho. Os olhos cintilantes, combinando com os cabelos negros que caÃam sobre uma pequena camisa listrada de manga curta, terminada na altura das calças jeans boca de sino que guarneciam nádegas volumosas.
Na próxima vez que me olhasse, iria até ela. Contaria algumas piadas, parecidas com "se você me amasse como eu te amo, a gente se amassava a noite inteira". Diria algumas frases inteligentes, extraÃdas de algum intelectual qualquer, como "o homem é uma ponte entre o animal e o além-homem", do Nietzsche. Depois a convidaria para dar uma volta no pátio e então a beijaria e a roçaria pelo restante da noite. Mais no TXT.
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