Lutar contra o amor é uma luta vã: os guerreiros morrem abraçados com as armas na mão.
Meus dois amigos, Helena e Bernardo, capitularam, perderam a guerra e um se rendeu aos olhos do outro. Romancezinho vulgar de duas pessoas bastante interessantes. Digo vulgar, porque a guerra que eles travavam estava fadada ao fracasso. Dois combatentes tentando se enganar e a luta era não ceder às investidas do “inimigo”. Eu que sempre tive um ar trágico e fatalista, ria-me daquela comédia charlatã. Eu já previa, eu antevia as cenas do ato seguinte.
Os dois se “odiavam”, um maldizia o outro, praguejava e toda à platéia já percebia que isso era raiva demais para não ser amor.
Nas baladas o primeiro rosto que Helena via era o de Bernardo. No cinema quando as luzes se acendiam, era o rosto de Helena que Bernardo via. As coincidências tempo-espaço a cada dia aumentavam. Até que um dia houve um estalo, algo se quebrou no peito de Helena, o ciúme, vizinho do amor, deu as caras.
(Retorno ao passado) Escola Duque de Caxias, manhã de outubro de 2001, eram 9h20min. Bernardo conversava com a Márcia e a Márcia bom, como dizer sem ser indelicado, era uma pessoa “dada”.
Helena estava por perto. Eu no canto oposto do pátio acompanhava toda a trama.
Bernardo segurava as mãos de Márcia, puxava-a para junto de si, sussurrava qualquer coisa no ouvido dela, eles riam. Num dado momento o riso se desfez, o olho no olho ocupou o primeiro plano e a boca de Bernardo se uniu à boca de Márcia.
Do meu canto olhei para o rosto de Helena, não vi nada; mas ouvi a convulsão de seu peito, os estalos e as batidas desritmadas de seu coração. Num impulso ela se levantou do ponto onde estava, puxou Márcia dos braços de Bernardo, olhou fixamente para os olhos dele e deixou cair um sonoro tapa no seu rosto. Ele nada fez. Ela o observou e disse bem alto “Seu babaca, você não entende nada!” e saiu.
Ninguém entendeu, mas entendi a coisa toda.
Na semana seguinte os dois estavam aos beijos, os combatentes, finalmente, selaram o seu armistício: a “guerra” chegava ao fim.
Depois veio o vestibular. Helena passou na PUC-SP, faz jornalismo. Bernardo passou para engenharia na UFSC. Às vezes converso com eles. O que ficou do estranho amor que eles viveram foi apenas uma constatação: a de que nada foi em vão!
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