A estrada erguia poeira. Sentia as partículas tomarem meus pulmões. Uma visão de nicotina e hidrogênio. O povo sem eira nem beira amontoado em um caminhão antigo. Acendi outro cigarro. Era meio-dia. O Presidente pronunciava chacotas no rádio. Uma mulher de olhos castanhos olhava o céu. Nuvens passeavam como cenários indecifráveis. Um senhor no auge dos seus setenta anos mantinha a enxada nos braços. Um idoso que pretendia cavar no concreto da hostil metrópole um lugar ao sol. Eu extravasava minha angústia em outro cigarro. O blá-blá-blá do político continuava, ele se vangloriava das descobertas das camadas de pré-sal. Mais combustíveis fósseis num mundo já deteriorado pelo monóxido de carbono que dificulta cada vez mais a respiração. E para acatar a contradição, acendi mais um cigarro. E a jornada avançava tarde adentro.
O horizonte prometia as glórias da cidade grande. Metrópole atraente e devoradora de esperanças. Eu ia com o povo, eu um intelectual engajado, socialista que preferiu ignorar o avião e os ônibus rodoviários. Um sociólogo que desejou estar próximo do povo. Que preferiu seguir viagem, a via crucis, com o povo faminto e sofredor, que na infância caminhavam comigo. O caminhão submetido ao desespero de seus desafiantes, mas não a uma revisão completa de suas condições de uso, balançava de maneira impertinente. Uma criança chorava no colo da mãe cabocla e pálida. Eu vislumbrei o medo de uma mulher de olhos castanhos e notei as lágrimas de arrependimento da criança. Ela cessou o choro, a mãe suspirou aliviada e voltando-se para a moça de olhos castanhos, chamando-a de Helena, sentenciou, “Essa criança abre o berreiro por qualquer coisa, Helena”. O céu subia a montanha conduzindo minha angústia para o centro da terra. O político expressou seu amor à coragem do povo e disse “Boa tarde”. Eu ri alto, estrondoso e furioso. A criança riu também. O senhor da enxada sorriu e a moça de olhos castanhos soube que o meu temor era adequado ao seu desejo de encontrar um tesouro enterrado no caminho do seu destino. O meu temor seria o seu mais forte e sensível apoio. O seu olhar traçava um esboço de destinos compartilhados. Helena parecia dizer com os olhos, “Somos iguais. Éramos iguais no deserto de outrora, e seremos os mesmos famintos no pântano de concreto que nos aguarda”. Senti-me agoniado, pois se eu quisesse, teria uma viagem bem mais cômoda. Eu estava lá, como uma fraude, falso refugiado da fome e da seca. Impostor e oportunista. O caminhão sacolejava indomável como um touro bravo buscando a fuga almejada das mãos do verdugo de esporas.
Antes do fim, observei as nuvens, uma tinha a figura de uma mortalha. Quando o caminhão tombou percebi que não sobreviveria ninguém.
Intelectua de esquerda viaja de pau-de-ararano intuito de sentir o mesmo sofrimanto do povo no pérpetuo desespero de buscar uma vida melhor. O que ela previu foram as vicissitude da empreitada.
a menina dos olhos castanhos já estava prevendo isso...
acho que ela tinha esperanças de que não fosse assim...
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!