"De coisas tão doídas
conservemo-nos
cada minuto nunca é demais
é sempre menos."
Ulisses era pescador e encontrou um meio para se proteger do perigo que rondava seu imaginário obtuso e praticamente escravo de antigas crenças dos aldeões. As sereias e seu canto suave de fazer qualquer um atirar-se ao fundo do mar e morrer mesmo por lá. Ulisses encheu os ouvidos de cera e mandou que o amarrassem ao mastro desta vez. Naturalmente, qualquer um que já tivesse se posto naquele mar volumoso de seduções já tinha pensado em tal estratégia de defesa menos aqueles que as sereias já atraíam de longe, sem cantar um semi-tom que seja, porque o canto delas atravessava tudo o que se pensa sólido de definições metafísicas e toma o pescador de uma fúria corpórea que mastros e correntes não enjaulam. Ulisses não pensou nisso, mesmo que já o tivessem advertido do assunto. A dureza da rocha é infantil. Confiou completamente no chumaço de cera e na corrente e no mastro e na própria convicção de 50 anos d mar.
As sereias adequavam-se nestes estratagemas usando uma arma muito mais poderosa que o seu canto. O silêncio. Nunca aconteceu, mas é provável que algum pescador escape do canto das sereias. Nunca do silêncio. O sentimento de ter sobre controle, vencer com sua própria vontade e o abobamento que isso causa e que tudo arrebata e empoeira o arbítrio, isso não tem super-homem que resista. De fato, quando Ulisses chegou, as sereias não cantavam ou porque a cara de soberba e triunfo do Ulisses intimidava o canto ou porque sabiam que este inimigo só poderia ser vencido pelo silêncio.
Ulisses não ouviu o silêncio. Pensava que elas estavam mesmo cantando e que ele era o último grande imperador que não escutava.
Por instantes, de canto de olho, observava os seus movimentos de pescoço, o balanço aconchegante dos seus quadris meio peixe, meio deusa e a respiração profunda e os olhos faiscantes e as bocas entreabertas, mas pensou somente que isto tudo era parte da coreografia que acompanhava a canção insolente que entoavam aquelas em volta dos seus ouvidos surdos. Mas isto tudo cessou nos olhos de pescador fixado na distância: as sereias literalmente sumiram. Mas voltavam, mais silenciosas e se esticavam e arranhavam as pedras como se empunhassem harpas e deixavam seus cabelos ao vento, como se já não quisessem mais o seduzir e sim carregar pro fundo do mar o brilho dos olhos de Ulisses.
Se as sereias fossem conscientes, teriam sido aniquiladas naquele exato instante.
Se Ulisses fosse mais inteligente, teria ouvido as sereias.
Ou o Petroleiro sinalizando que o barco de Ulisses estava em rota de colisão.
Sempre os SEs... e o silêncio desafiador.
Gostei
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