infinito amor

1
Silvio Pélico · São Paulo, SP
18/2/2014 · 1 · 0
 

3.







Manhã de inverno. No canto da cozinha, ardendo em brasa, o fogão à lenha espalhava pelo ar lufadas de calor. Com os olhos encharcados de felicidade, o menino saboreava seu café, tendo seus gestos guarda-dos pelos olhos zelosos da mãe.
Depois, já de pé e ao lado da mesa, a mãe lhe arrumava a roupinha que, dias antes, ela mesma costurara. Vez por outra, satisfeito, voltava os olhos para o chão e, com charme, estendia o pezinho na direção da luz e reparava no sapatinho que ganhara de véspera. Orgulhosa, a mãe lhe ajeitava os cabelos. Tímido, um leve sorriso lhe brotava na face. Era 29 de junho de 1947, dia de festa na cidade, dia de são Pedro.
Num instante já ia descendo pela rua, tendo por companhia a mais querida das amigas.
A conversa era animada, pois muitas novidades pululavam em suas mentes: desfiles, músicas, presentes. Mas os olhos não se desviavam um instante do caminho acidentado, das pedras soltas que jaziam pelo chão. Afinal, não queria que nada arranhasse seus sapatinhos novos.
De repente, a visão se alargou e eles avistaram a praça, que alegre se abria em variadas cores: bandeirolas, mastros, retretas...
Juntos caminhavam de um lado a outro: sempre na direção de um grupo mais animado, de fardamentos mais coloridos, de ritmos mais empolgantes...
Num momento, o desfile de um grupo chamou a atenção do casal. Hipnotizados, pararam entre a rua e a linha férrea, e as evoluções que o grupo realizava não os deixaram perceber que, atrás, bem próximo, uma locomotiva realizava uma perigosa manobra.
Súbito um grito foi ouvido. Pressentindo o perigo, a professora dera na menina um violento puxão, que sem nada entender caiu na calçada. Assustado, o menino deu dois passos para trás, tropeçou no trilho e caiu.
De repente, o céu foi encoberto por uma nuvem escura de ferros. Aflito, sentiu uma das pernas suportar todo o peso do mundo.
Em casa, sobre a prancha de costura, um frêmito dominou as mãos de sua mãe. Súbito, os pés perderam a cadência natural do balanço. Os olhos, involuntários, tomaram a direção da janela. Por um instante a alma ficou suspensa, e um estranho presságio a alcançou. O corpo já não queria mais ficar parado. De um lado a outro da casa, ela começou a se movimentar.
Debaixo do vagão, feito uma ave assustada, a mãozinha se espa-lhou no ar à procura de um apoio, encontrou uma haste, gesto que o salvou. Ao redor, correria, confusão, gritos... E um impiedoso tirante lhe comprimiu o peito. Paralisada, a mente já não podia compreender o que se passava: só havia sentimentos. Aos poucos os sons mudaram de tons, ficaram mais graves: eram vozes de homens trabalhando. Depois, ouviu o ranger de ferros se atritando. Um alívio e de novo a claridade da manhã: fora puxado para fora do arcabouço. Nas costas, ainda a sensação de pedras o lixando. Na perna acidentada, sentiu um forte arrocho de tecido. Os olhos se voltaram na direção do aperto. E, no branco linho, viu brotar uma assustadora mancha vermelha. Enér-gico, um solavanco o colocou no ar: estava nos braços fortes de um homem, que depressa o levava para o carro. Os ouvidos quase não podiam mais decifrar os sons: pareciam todos confundidos. Mas ainda foi capaz de distinguir um ruído de motor. Mais gritos, empurrões e solavancos... E tudo se apagou.
Quando acordou, viu um homem vestido de branco extraindo figuras de uma cartolina: era o médico que tentava distraí-lo, fazendo esboços de animais. O garoto sentiu úmida a perna acidentada, olhou para baixo e percebeu os sapatinhos respingados de sangue. “Por favor, doutor, não suje mais meus sapatos. São novos...” “Certamente ele não tem a menor ideia da gravidade do acidente”, refletiu o médico.
Subitamente os olhos do garoto se fecharam: era uma forte picada de agulha. Mais tarde, mergulhado na penumbra do quarto, os olhos se depararam com a protetora face da mãe.
— Sinto muita dor em meu peito... O que aconteceu?
A mão macia e acolhedora deslizou sobre seu peito, acariciando-o.
— Já vai passar meu filho, já vai passar...

No final da madrugada, o sono profundo fez o corpo virar para o lado, forçando o peito contra o duro braço do sofá. Com o tempo, a dor o faz acordar, enquanto os primeiros raios da manhã tocam sua face que, tombada, encontra-se bem próxima ao chão. Num instante, percebe que dera um salto no tempo.
Com muito esforço, ergue o tronco, olha para o lado e observa a esposa: está na mesma posição que a deixara antes de adormecer.
A manhã se vai, a tarde termina, o segundo crepúsculo principia. Próximo à janela, vê um filete de luz vazar pelas frestas da persiana, iluminando parcialmente a delicada face da esposa, enquanto mais uma imagem o alcança...

Para ler os 4 primeiros capítulos, visite o blog do professor pelico.

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Silvio Pélico
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