Jonas geme, atrofiada a perna, dentro do casulo branco, o corpo escorregadio, de escaras coberto, o olho torto atraÃdo para a frouxa luz verde vislumbrada apenas, o rádio repetindo notÃcias de um tempo que não era o agora, tinha certeza, talvez mais adiante, na rua o resto do rebanho a regatear a vida, ele, gado, bezerro ou lesma, rondando a loucura e buscando a lucidez perdida nuns olhos de mar, tudo tão distante, tudo tão estranho, Jonas, um nome, um nome perdido no obituário, ciclope quase cego por um Ulisses desaparecido nos corredores brancos, branco também ele, o Ulisses sem porto em seu jaleco branco, o sangue nas mãos, suja a trajetória de Jonas, suja a saga de Jonas, arrependido, arrogante, arroto de vida, arrosta a si mesmo a tentar lembrar: o sangue, a vida a esvair-se de suas próprias mãos na jugular definitivamente seccionada, ele, o vampiro Jonas, perdido ônix na noite dissimulado, trocando sangue por sangue, lembra o rádio rouco e velho as vÃtimas do vampiro, lembra o rádio em ondas cerebrais a loucura do louco recluso em si mesmo, para sempre, para sempre, essas notÃcias tão antigas, tão antigas, uns olhos de mar, uns olhos de mar, recorda: ah, a perdição, Jonas entorta, torce, estica o pescoço mas não consegue, não consegue vislumbrar a luz, esverdeada luz que vem do canto oposto, janela? e ganchos prendem a pele de pergaminho de seu peito, suspende seu corpo-peixe, são escamas as escaras que se desprendem, a perna inútil, esmagada dentro da cápsula branca, tranca o pensamento, tranca a mente e não quer lembrar, mas em jorro de sangue, sangue verde, sangue de jade, tudo fica de repente nÃtido: o visitante do ventre da baleia sabe que o fim é lembrar e então ele vê, num filme de cinemascope, ele vê o que não queria, o indesejável, o inenarrável, em horror, na tela rota de seu único olho mais ou menos bom, e não há barreiras para o projétil que lhe esmigalhara osso, olho, orelha, em estilhaços a cabeça lançada para trás, a dor apenas pressentida, sem tempo para alucinar, a queda livre em direção ao asfalto negro, e a baleia bÃblica a arrancar de dentro dele a perdição fatal, a perna presa sob imensa baleia negra cheia de vermes negros e suas armas raiadas, areópagas, e o grito, o grito ao ser sugado que ecoa dentro da baleia em ondas de navegante louca que o cospem numa tumba ardente e mãos brancas alfinetam e serram e atarraxam e costuram e riem, ele se salvará, o bandido, o olho não, nem talvez a perna, mas ele viverá, alguém, Ulisses?, comenta: desgraçado, mas Jonas não lembra mais, a luz apagou e agora ele está ali, só, profundamente só, à quela cama atado, amarrado, algemado, a dor lancina, o olho ciclópico busca outra luz, outra lembrança, ele se interroga e vêm de novo os olhos de mar, maldição de Jonas, maldição, e ele se lembra e ele se lembra daqueles olhos de mar, sua última e verdadeira luz, brilho de faca que cortara, cortara firme aquele pescoço de jade, Jade, mulher-peixe, a mulher que o amara tanto que o queria só para si, louca, louca de ciúme afogando na banheira os filhos da outra, da outra, da outra, os seus filhos, os seus filhos, e Jonas grita, grita o quanto sua garganta agüenta em agonia que alguém abra, enfim, a janela, como ele abrira a jugular de Jade, que alguém deixe, enfim e para sempre aberta aquela maldita janela, a janela de Jade.
Nossa!
Que conto!
isso foi sonho ou pesadelo?
bjs e votos
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