Dada ao mundo sob o anonimato de um momento qualquer das duas últimas décadas, Joelma descia o morro onde crescera, carregando a alma nua. Sentia-se feliz e, por nada mais, cantava; havia sido contratada, trabalharia para uma distinta famÃlia.
Herdara da mãe a pobreza e a honestidade. As curvas disformes do corpo desmentiam as perfeitas proporções do caráter pelo qual se regrava, não por virtude, mas por sê-lo simples. A notÃcia do emprego propagou-se aos gritos e saltos, respondidos com beiços e braços. O sono, ao chegar, muitas vezes a flagrou entre gemidos satisfeitos. A felicidade fazia-se constante, e não havia porque omiti-la, ao público ou a si.
O nome bucólico do edifÃcio contrastava com a ausência de cores do concreto que o revestia. Embora, a Joelma, não tenha ficado clara qualquer ironia, incoerência ou incompatibilidade, sentiu ela um momentâneo Ãmpeto de parar, regressar a casa, manter a vida em seu presente estado, não acatar mudanças. Bufou, coçou-se; decidiu subir.
Bateu à porta ostentando o sorriso desintencionado a ela natural. Logo lhe foi revelada a nuca da patroa, distanciando-se. “Entre, minha filhaâ€, soou a boca ignorada. Com os beiços ainda um tanto retorcidos do gesto não correspondido, entrou. A nuca que a fitava deu lugar a um perfil, cujo único olho e meia boca não conseguiu qualificar. Não expressavam declarada simpatia, nem tampouco qualquer hostilidade. Considerou sorrir novamente, e quase o fez; perdeu-se, no entanto, pelos caminhos das desconhecidas convenções, e passou ao rosto sua confusão. Arrependeu-se, sorriu novamente. Na busca por um meio termo, contorceu a face ainda algumas vezes; o percebia, repudiava-se.
A cena, que poderia ser dividida, esteticamente, entre a dinâmica metragem de Joelma e a tela inerte da senhora, pouco durou. A moça conheceu a casa, vazia pela manhã, e foi conduzida a seus aposentos.
Em uma das paredes do cubÃculo, havia um espelho. Pela falta de palavras, em seu vocabulário bronco, aptas a esclarecer o momento anterior, Joelma buscou-o, ávida por qualquer transparência, pelo reflexo obtuso de seus olhos brancos, óbvios, incrustados na pele escura. O que sentia, viu: traços e sulcos harmonizavam-se em uma ignorância medrosa, débil. Lembrou-se do perfil estéril da patroa, ciclópico, de meia boca e meias verdades. Fitou-se novamente, exposta, nua, inteira. Desconhecia as razões, mas em tão despudorada situação não suportaria ser flagrada.
Meia boca, meias verdades; conseguiria minguar-se a tão pouco? Sempre teve, pelas carnes maleáveis de seu corpo, livre tráfego das sensações interiores ao conhecimento alheio. Mas havia de tentar. Experimentou o extremo de sorrir; não passou de uma bocarra mal dentada, grotesca pelo absurdo da intenção. Não compreendia sutilezas; teria, pois, de imitá-las. Embora soubesse tratar-se de algo além, sua cabeça nativa chamava de mentira ao que almejava, e disso originava-se o receio maior: o ato de mentir supõe um caminho alternativo à s verdades. As transforma, distorce, não raro as mata, antes de conduzi-las a uma existência perceptÃvel. Joelma temia esse aniquilamento, temia, por sua fraqueza e virgindade, deixar-se levar e perder-se, definitivamente, no mundo falciforme das palavras robustas pelo volume único das próprias intenções indecorosas, das expressões convenientes, dos perfis herméticos. Mas seria mentira a imitação da mentira? Não sabia Joelma da obrigatória plenitude da falsidade ou da inevitável contaminação que acometeria de impurezas as futuras verdades e, por isso, tentou.
Nossa, que triste!
Tomara que a Joelma de verdade sobreviva!
Parabéns pelo texto!
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