Joelma colonizada - parte I

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Daniel Longhi · Recife, PE
21/9/2007 · 25 · 1
 

Dada ao mundo sob o anonimato de um momento qualquer das duas últimas décadas, Joelma descia o morro onde crescera, carregando a alma nua. Sentia-se feliz e, por nada mais, cantava; havia sido contratada, trabalharia para uma distinta família.

Herdara da mãe a pobreza e a honestidade. As curvas disformes do corpo desmentiam as perfeitas proporções do caráter pelo qual se regrava, não por virtude, mas por sê-lo simples. A notícia do emprego propagou-se aos gritos e saltos, respondidos com beiços e braços. O sono, ao chegar, muitas vezes a flagrou entre gemidos satisfeitos. A felicidade fazia-se constante, e não havia porque omiti-la, ao público ou a si.

O nome bucólico do edifício contrastava com a ausência de cores do concreto que o revestia. Embora, a Joelma, não tenha ficado clara qualquer ironia, incoerência ou incompatibilidade, sentiu ela um momentâneo ímpeto de parar, regressar a casa, manter a vida em seu presente estado, não acatar mudanças. Bufou, coçou-se; decidiu subir.

Bateu à porta ostentando o sorriso desintencionado a ela natural. Logo lhe foi revelada a nuca da patroa, distanciando-se. “Entre, minha filhaâ€, soou a boca ignorada. Com os beiços ainda um tanto retorcidos do gesto não correspondido, entrou. A nuca que a fitava deu lugar a um perfil, cujo único olho e meia boca não conseguiu qualificar. Não expressavam declarada simpatia, nem tampouco qualquer hostilidade. Considerou sorrir novamente, e quase o fez; perdeu-se, no entanto, pelos caminhos das desconhecidas convenções, e passou ao rosto sua confusão. Arrependeu-se, sorriu novamente. Na busca por um meio termo, contorceu a face ainda algumas vezes; o percebia, repudiava-se.

A cena, que poderia ser dividida, esteticamente, entre a dinâmica metragem de Joelma e a tela inerte da senhora, pouco durou. A moça conheceu a casa, vazia pela manhã, e foi conduzida a seus aposentos.

Em uma das paredes do cubículo, havia um espelho. Pela falta de palavras, em seu vocabulário bronco, aptas a esclarecer o momento anterior, Joelma buscou-o, ávida por qualquer transparência, pelo reflexo obtuso de seus olhos brancos, óbvios, incrustados na pele escura. O que sentia, viu: traços e sulcos harmonizavam-se em uma ignorância medrosa, débil. Lembrou-se do perfil estéril da patroa, ciclópico, de meia boca e meias verdades. Fitou-se novamente, exposta, nua, inteira. Desconhecia as razões, mas em tão despudorada situação não suportaria ser flagrada.

Meia boca, meias verdades; conseguiria minguar-se a tão pouco? Sempre teve, pelas carnes maleáveis de seu corpo, livre tráfego das sensações interiores ao conhecimento alheio. Mas havia de tentar. Experimentou o extremo de sorrir; não passou de uma bocarra mal dentada, grotesca pelo absurdo da intenção. Não compreendia sutilezas; teria, pois, de imitá-las. Embora soubesse tratar-se de algo além, sua cabeça nativa chamava de mentira ao que almejava, e disso originava-se o receio maior: o ato de mentir supõe um caminho alternativo às verdades. As transforma, distorce, não raro as mata, antes de conduzi-las a uma existência perceptível. Joelma temia esse aniquilamento, temia, por sua fraqueza e virgindade, deixar-se levar e perder-se, definitivamente, no mundo falciforme das palavras robustas pelo volume único das próprias intenções indecorosas, das expressões convenientes, dos perfis herméticos. Mas seria mentira a imitação da mentira? Não sabia Joelma da obrigatória plenitude da falsidade ou da inevitável contaminação que acometeria de impurezas as futuras verdades e, por isso, tentou.

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Daniel Longhi
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Roberta Tum
 

Nossa, que triste!
Tomara que a Joelma de verdade sobreviva!
Parabéns pelo texto!

Roberta Tum · Palmas, TO 20/9/2007 09:54
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