“Finalmente, Leonardo reencontra a palhoça habitada por Camila. Encheu-se de júbilo diante da possibilidade de rever o seu amor e conhecer então o seu misterioso rosto.
— Camila!- chamou.
Silêncio absoluto.
— Camila!- chamou pela segunda vez e, pela segunda vez a resposta foi o silêncio.
— Camila! - chamou pela terceira vez.
Ouviu um ruÃdo e uma sinueta feminina surgiu em meio a escuridão da palhoça. A mulher aproximou-se da porta.
Leonardo sentiu o chão fugindo-lhe aos pés. A emoção de por fim conhecer o rosto da amada o tomou por inteiro. A mulher então se aproximou e o jovem sábio pode observá-la melhor. Ficou um tanto quanto decepcionado. Era uma mulher de aparência comum, sem grandes atrativos estéticos, entretanto o seu olhar parecia inundá-se de ternura, e, uma outra forma de beleza emergia de dentro daquela mulher: era a sua alma feminina que transbordava.
— Camila, onde está?- perguntou Leonardo, na certeza de que aquela mulher não seria a sua amada.
— Lamento muito, ela não mora mais aqui.
Leonardo decepcionou-se mais ainda. Camila havia esquecido o compromisso. Ela não o esperou. “Tu que eras minha estrela, que brilhava que brilhava... dona do meu coração, que te amava, que te amava, que te ama...â€-murmurou.
Desiludido, Leonardo sente o coração se abrir na dor do abandono e chora pela primeira vez a sua solidão.
— Você está cansado e sofrendo muito - disse-lhe a mulher - venha até a minha casa que lhe darei abrigo.
Leonardo levanta o rosto e com as mangas da camisa enxuga as lágrimas. Só então pode ver melhor o rosto de sua nova amiga e, mais do que isso, pôde ver o seu sorriso e uma expressão meiga, quase maternal.
— Como se chama a minha anfitriã? - perguntou amavelmente.
— Companheira, esse é o meu nome.
— Companheira!?
Diariamente, com uma fiel e incomparável dedicação, Companheira, cuidava de seu hóspede. Leonardo pôde ver algo que se revelava todos os dias nos olhos daquela mulher, companheira o amava, e sabia, nutria por ele um amor puro, sem os vÃcios da paixão e muito menos qualquer interesse.
Companheira era uma mulher comum. Jamais seria igual à Camila... Leonardo também amava a companheira, entretanto não conseguia esquecer a outra. Embora tenha recuperado a visão não conseguia enxergar o amor que brotava entre os dois. Quando ainda era cego Leonardo reconhecia as suas emoções e sentimentos pois, a tudo olhava com os olhos do coração. Agora que já podia ver as cores do mundo sensÃvel, todo o resto ficou invisÃvel para ele.
— Vou sentir a tua falta.
— Por que está me dizendo isso?- perguntou Leonardo sem realmente nada entender.
— Quando partires, sentirei a tua falta!
— Mas, eu não irei para lugar nenhum, estarei sempre ao teu lado.
— Não me prometa nada. Sei que irás um dia.
— Como sabe?
— Por que eu sou a companheira. Tu não me procuras, sou eu quem vai ao teu encontro. Tu jamais sonharás comigo, todavia, estarei sempre ao teu lado quando acordares. Tu me ignoras, pois ignoras também os próprios sentimentos. Eu sei que buscas a tua ilusão e a tua fantasia. Todavia, eu sou real, sou da forma que me vês, pois não me é permitido usar máscaras. Não queres o meu amor por que vives para a paixão e, quando a tua paixão for mais importante, partirás em direção a ela.
— Não há por que se preocupar. Eu não te abandonarei! Além do mais, eu nunca vi o rosto de Camila, como poderei seguir uma mulher que não conheço?
— Serás como uma borboleta, saltando de flor em flor, beijarás todas as rosas, as orquÃdeas e as margaridas e, quando sentires numa dessas flores o perfume de Camila, ficarás com ela. Entretanto, o vento levará para longe o perfume e essa flor perderá o encanto.
— E então?
— Continuarás voando de flor em flor.â€
Leonardo retorna em busca de sua paixão e encontra o amor verdadeiro.
É inteiramente compreensÃvel que Leonardo tenha se decepcionado. Primeiro por que Camila não cumpriu o compromisso, não o esperou, o que é natural das paixões, mais cedo ou mais tarde elas vão embora, elas só permanecem enquanto há algum interesse.
A segunda decepção de Leonardo e talvez a maior, é que ele esperava encontrar na palhoça uma mulher de beleza extraordinária, perfeita em todos os detalhes, a mulher ideal, entretanto, a que surge em sua frente é a mulher comum, aquela do dia-a-dia, que embora também seja bonita, não enxergamos mais os seus atrativos por que estamos acostumados com a sua aparência.
Esta mulher se apresenta: “Companheira, esse é o meu nome.†Aparentemente um nome estranho, mas, como poderÃamos chamar aquela pessoa que nos ama de verdade?
Ela sabe que Leonardo sofre por causa da outra (ela oferece o amor e, ele busca a paixão.). Entretanto, não o despreza e o acolhe. Um momento difÃcil na arte de saber amar: ela sabe que vai sofrer, todavia doa o seu sofrimento. Sabe que o seu amor será desprezado e mesmo assim não o despreza, abre as portas do seu coração e o abriga. Um hóspede, que apesar de muito querido, não se sente à vontade em seu novo cômodo.
A companheira não proclama o seu amor, apenas ama. Ela está presente o tempo todo, sabe das dificuldades do amigo e participa da sua vida, compartilha as alegrias e tristezas, e, mesmo quando envolvida por uma tristeza particular pode afirmar: “Estou feliz por você!â€.
Porém Leonardo busca a paixão, não compreende o amor verdadeiro, sabe que a companheira lhe faz bem, mas, para ele isto não é tudo, falta à emoção, o tempero, a fantasia. O que ele quer é realizar o seu ideal.
A companheira mais uma vez prova o seu amor e desprendimento, deixando-o livre para partir, e ainda, sem nenhum ressentimento o alerta do perigo de sua escolha:
Quem busca somente a paixão deve saber que busca uma miragem. A paixão é ideal e, portanto, não se concretiza. O amor verdadeiro, este sim, tem existência real.
A busca da paixão é uma busca infinita, pois, caÃda à máscara de projeção, o apaixonado deparará com uma pessoa real, que muitas vezes não corresponderá ao seu ideal. Então a máscara se projetará em uma segunda pessoa, depois em uma terceira... E o apaixonado seguirá um fantasma.
O amor verdadeiro não permite o uso de máscaras, pois para ele só à pessoa real interessa.
...
“À noite, companheira dormia, Leonardo aproveita-se de seu sono e lhe rouba um beijo. Um beijo que seria dele sem nenhum esforço ardiloso, se acaso não fosse um beijo de despedida.
Ao sentir o toque dos lábios de Leonardo, Companheira despertou, todavia, continuou fingindo está adormecida. O amado saiu como se fosse um ladrão, pela porta do fundo, enquanto a amante deixou cair a lágrima do abandono.
Leonardo à distância sente o desejo de olhar para trás, mas, temendo o desejo de retornar, se contêm e prossegue.
Leonardo estava cego para as coisas do coração. Não podia ver o amor de Companheira. O seu mal se tornou crônico, e, para estas coisas estava também surdo ao ponto de não ouvir nem a voz de sua consciência.
Partiu em busca de aventuras e novidades: queria ver o mar, foi até o litoral, viu as ondas batendo nas rochas, as águas beijando o céu no horizonte, a marola deslizando sobre a areia num eterno frenesi. Viu o sol se afogando como se fosse um suicida. Viu o mar até que se cansou.
Queria conhecer as cidades e viajou pelo mundo. Conheceu as maravilhas da arquitetura humana e as diferenças étnicas e culturais de todos os povos. Ficou fascinado com a diversidade e com o poder criativo dos da sua espécie. Viajou tanto que não tinha mais nenhuma cidade a conhecer.
Queria conhecer todas as maravilhas da natureza. Foi para o deserto e para as florestas, observou a diversidade dos animais e das plantas, estudou cuidadosamente o meio de vida de cada ser. Um dia achou que havia aprendido tudo a respeito da natureza.
Queria possuir todo o conhecimento, freqüentou todas as bibliotecas, leu todos os livros e testemunhou todos os grandes experimentos de sua época e, se tornou um conhecedor de tudo.
A arte, a música, a poesia, tudo interessava a Leonardo e ele, a tudo absorvia, até que um dia se cansou de aprender.
Um dia alguém lhe perguntou:
— De tudo o que você já viu, qual é a coisa que mais lhe surpreendeu?
— Conheci uma mulher que era desprovida de grande beleza, mas, que assim mesmo era linda.
— Esta foi a maior maravilha que você já pôs os olhos?- perguntou o outro sem nada entender.
— O que me surpreende, é que sempre eu me faço esta pergunta.
— E, o que lhe falta conhecer?- continuou o interlocutor.
Leonardo pensou alguns minutos antes de responder. Já havia visto de tudo no mundo, o que ainda lhe faltava conhecer? O outro esperou a resposta. Então, de súbito, um novo desejo penetrou no coração de Leonardo:
— Sei que, para cada pessoa, Deus apresenta uma face diferente, todavia, uma face é verdadeira. Um dia estive muito perto de Deus e não vi seu rosto. É isto que me falta ver, por acaso pode haver algo mais maravilhoso do que conhecer a face de Deus.
Leonardo estava decidido, iria voltar à montanha sagrada para ver a face de Deus.
— É um desejo perigoso, Pode lhe custar a própria vida - preveniu o amigo.
— Tudo bem, este pode ser o meu ultimo desejo!- ironizou.
O homem sentiu pena de Leonardo. Há um momento em que a fronteira entre a genialidade e a loucura se rompe e, Leonardo, obcecado por seus desejos, havia perdido a razão.
Trata-se de um fragmento do meu romance infanto-juvenil "Luzes na Retina" escrito entre 1991 e 1992( inédito).
O protagonista, Leornardo é um jovem vaiodoso, cheio de orgulho, que havia perdido a visão e a recuperado milagrosamente, reencontra sua amada e não a reconhece, em um outro plano sua ações são analisadas por um Padre que aconselha um jovem com tedências suÃcidas que aparentemente sofria de esquizofrenia ou até mesmo estaria possuÃdo por uma espécie de espÃrito.
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