Como acumular
Leonardo Villa-Forte
(publicado anteriormente no site mixlit.wordpress.com)
No caminho de volta, a vida real me pegou. Liguei meu telefone. Havia mensagens. Fiquei surpreso ao ouvir[1]: mamãe chora e fala, mamãe fala e chora. Mamãe fala chorando e chora falando. Mamãe chorando realiza longas frases que não querem mais acabar, e se elas não me dissessem respeito, seriam belas. Mas elas são pesadas[2]: “Meu anjo, meu doce amor. Como é que fomos nos separar assim? Onde foi que nos perdemos?â€[3]
Pronto, começou o chororô, pensei na minha indignação[4] e [5], chutando pedras, pisando na merda[6], logo cheguei em casa.
Meus pais não estavam preocupados, embora tivessem se irritado com o pó laranja de ferrugem nas minhas roupas e o rasgo no meu calção. – Por onde você andou, afinal? – minha mãe perguntou.
– Fui fazer uma caminhada – falei. – Me esqueci da hora[7].
Não fez comentário algum. Beijou-me, apenas, dizendo que esperava que eu me divertisse[8].
E deixamos a coisa por isso mesmo[9].
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[1] David FOENKINOS. Quem se lembra de David Foenkinos? Tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p.69.
[2] Herta MÜLLER. Depressões. Tradução de Ingrid Ani Assmann. São Paulo: Globo, 2010. p.88.
[3] Carlos Eduardo LEAL. A última palavra. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p.27.
[4] Cláudia LAGE. Mundos de Eufrásia. Rio de Janeiro: Record, 2009. p.22.
[5] Neil GAIMAN. Coisas frágeis 2. Tradução de Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo: Conrad, 2009. p.61.
[6] Pola OLOIXARAC. As teorias selvagens. Tradução de Marcelo Barbão. Rio de Janeiro: Benvirá, 2011. p.188.
[7] Neil GAIMAN. Op. Cit.
[8] W. SOMERSET MAUGHAN. O fio da navalha. Tradução de LÃgia Junqueira Smith. São Paulo: Globo de bolso, 2009. p.166.
[9] Neil GAIMAN. Op. Cit.
Ao redor
Leonardo Villa-Forte
(publicado anteriormente no site mixlit.wordpress.com)
Fazia muito tempo que Tucker não ia a um lugar ouvir uma banda, e ele mal conseguia acreditar que tudo aquilo ainda lhe parecia familiar. Não deveria ter havido algum progresso desde então?[1] Parecia que a banda de botas envernizadas não sabia tocar outra coisa. O mesmo acontecia com a banda de milÃcia dos mulatos. Nas festas, nos desfiles, escutava-se sempre a mesma melodia lamentosa, girando redonda como um cavalo velho de carrossel[2].
A sombra de uma profunda tristeza toldou-lhe os olhos tão bondosos, os tracinhos finos das rugas que os cercavam acentuaram-se-lhe, tornando-lhe o olhar mais profundo. Relanceou a vista em redor, e disse, a si próprio se ironizando:[3]
- Ah, humilhação é quase tudo[4], homem é assim mesmo. Nem todos gostam de mostrar que estão sem fazer nada em casa, sempre saem[5].
A baba dele caÃa ao chão. Sua cabeça, pensamentos escassos.
Disparou o gatilho.
E por lá viram se espalhar os miolos dele[6].
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[1] Nick HORNBY. Juliet, nua e crua. 2009. Tradução de Paulo Reis. Rocco. Rio de Janeiro. 2009. p.111.
[2] Alejo CARPENTIER. Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. In: (Vários Autores). Seleção, introdução e estudos crÃticos de Ãngel Rama, 1978. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. (Conto: OfÃcio de trevas. Tradução de Eliane Zagury. p.47.)
[3] Maximo GÓRKI. Tchekov. In: (Vários Autores). Sem data. Tradução de EmÃlia Rodrigues. Lisboa: Arcádia, 1963. p.12.
[4] Carola SAAVEDRA. Toda terça. 2007. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 69.
[5] Autran DOURADO. Armas e corações. 1978. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. p.30.
[6] Beatriz GRIMALDI. Coletânea Prêmio Off-Flip de Literatura 2008. In: (Vários Autores). Rio de Janeiro: Selo OFF Flip Editora, 2009. (Conto: Gravidade. p.43.)
Você está no seu quarto
Leonardo Villa-Forte
(conto inédito)
Os condomÃnios são cidades dentro das cidades.
Os apartamentos são cidades dentro dos condomÃnios.
Os quartos são cidades dentro dos apartamentos.
E daà já não se pode mais encolher, e por isso há gente que ainda compartilha quartos. Mas bem-vindo será o dia em que essa indelicadeza não será mais necessária. Ou que habitem as gavetas.
Você anota isso no seu caderno. Lê. Verifica. Concorda?
Há quatro cantos no seu quarto. Num dos cantos fica a porta, em outro uma cama encostada à parede, o terceiro dá acesso à janela, e no último fixou-se uma mesa de estudos e trabalho. Para não aumentar a razão daqueles que dizem que você passa o dia, a tarde e a noite inteiros na cama, você resolveu variar e queimar a lÃngua desses difamantes.
Agora, há tardes em que você se esgueira no canto da porta. É certo que nessas ocasiões há de se deter qualquer chance da porta ser aberta, caso contrário você seria esmagado. Por isso, quando está passando o tempo na ponta dos pés, todo verticalizado, ao lado da porta, você a tranca e se alguém perguntar se você está na cama, a resposta é correta e merecida: não, não estou na cama.
Há também ocasiões em que você agora faz força nos braços, dá um impulso para o salto e pronto: lá está você em cima da mesa. Ajeita-se de costas para a parede, vai arrastando o bumbum mais perto, mais perto, até encostar as costas eretas no canto. Suas pernas ficam pendendo para fora da mesa e, se dizem que uma cama não foi feita para se passar o dia nela, vão começar a dizer igualmente que uma mesa não foi feita para se sentar em cima, que a janela não foi feita para chegar tão perto, e aà o que mais eles querem, onde irá passar seus dias?
– Você está no seu quarto? – bate à porta aquela mesma voz.
Cada vez mais previsÃvel: você está no seu quarto.
Há pelo menos um respeito: a educação de sempre bater na porta antes de entrar. E dessa vez você não trancou a porta, pois não estava espremido no canto ao lado da porta, mas sim deitado feito um cão recém-alimentado na cama.
– Está na cama?
Dessa vez eles te pegaram. Dessa vez acertaram. Ou talvez não. Talvez não seja tarde e você possa ainda de alguma maneira, pelo menos desta vez, deixar de contribuir com o que comentam sobre você. Se você está no quarto? Não. Se você está na cama? Não, para eles você não está no quarto nem na cama, você não estará, é assim que tem de ser e é isso que você vai dizer. Não o canto da janela, e sim: A janela. Pela janela é possÃvel não estar no quarto.
– Não, não estou, pode entrar – e você voa.
"A série de MixLits de Leonardo Villa-Forte surpreende a cada fôlego, não só pela boa literatura como pela proposta questionadora e inquietante de produzi-la a partir de remendos (ou samples) de outras obras." (Revista Overmundo)
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