Muito Complexo e Relativo II

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andrecatuaba · Brasília, DF
10/9/2008 · 65 · 1
 

(X come a pedra).

Y - Eu ainda posso ganhar, ainda tenho forças. Você não me assusta.

X - Que bom.

Y - Sabe, uma vez publiquei um livro de poesias.

X - Foi boa a recepção?

Y - Não houve recepção. Nem da crítica, nem do público, nem sequer da família! Era uma droga de livro.

X - Por que? Por que ninguém falou bem dele? Por que ninguém o bajulou, por que nenhum jornalista de suplemento literário massageou o seu ego?

Y - Não, só era ruim mesmo.

X - Quem disse? Se você escreveu, deve ter parecido bom na hora.

Y - Eu era muito novo.

X - E quando saiu da adolescência resolveu parar de escrever poesia.

Y - Isso mesmo.

X - A poesia pra você não serve pra nada. No passado servia pra pegar mulher. Hoje, se recita o Vinícius na balada, vão achar que fugiu do hospício.

Y - Pior que é verdade.

X - Então você joga na lata de lixo da história e bola pra frente! Enquanto houver cerveja e futebol, o mundo ainda tem salvação!

Y - Não é bem assim.

X (Provocando) Cadê o ser humano de carne e osso, sangue e coração, apaixonado pela vida, querendo dar e receber amor? Você só quer ser um burguezinho médio, chegar em casa, comer a sua pizza congelada e ver porcaria na televisão.

Y - Não é assim não! A verdade é que tinha um poema do qual eu gosto muito. O nome era “O Luminoso!” Nele um grande anjo luminoso pisava em cima dos arrogantes e dos filisteus da cultura!

X - Ah, finalmente um pouco de violência. Espero que não seja um soneto tradicional.

Y - Não, verso livre! Verso livre, leve e solto, sem rima, sem ponto, sem freios, “O Luminoso!” Começava assim: aos intelectuais de boteco, à esquerda festiva, ao mundinho da academia, a todas as cooperativas e grêmios literários, EU, O Luminoso, eu, que irradio luz, eu, infinito e transcendental, eu mando é tomar no meio do olho do cu!

X (Batendo palmas) Finalmente um incompreendido com estilo! Viu como a poesia serve para alguma coisa? Mexeu com os brios aí dentro.

Y - Eu sou o Cristo Ressuscitado, eu sou o Milagre, eu sou o Nirvana!

X - Olha, se acalma....

Y - E eu vou ganhar! Vou te massacrar, vou te trucidar! Joga logo essa porra!

(W chega tomando um suco de melancia e senta-se num banquinho)

W - Oi.

Y - Oi.

X - Oi.

Y - Suco?

W - É.

Y - De melancia?

W - É.

Y - Fresquinho?

W (Tomando no canudinho) Un-hun.

Y - Posso?

W - Pode.

(Y dá uns goles).

Y - Melancia é bom que hidrata.

W - Muito seco aqui em Brasília

Y - Muito seco. Já disse que você ta linda hoje?

X - Ta mesmo, uma gata.

W - Brigada. Por que não come a torre dele?

X - Por que não como a torre dele? Sim, claro, como não vi isso antes!

(X joga e Y joga)

Y - Assim eu vou ficar com ciúmes.

X - Sempre há um triângulo amoroso em algum lugar. Temos duas rolas e ela só tem uma boceta e não creio que tope uma dupla penetração.

W - Dupla penetração? Como vocês estão sórdidos hoje.

X - O mundo é sórdido e as mulheres gostam é dos canalhas.

W - Será? Não sei, tenho me sentido tão filosófica... tão etérea... tão nas nuvens....

Y - Você é uma mulher moderna, linda, inteligente e maravilhosa. Vai uma rabiscada?

W - Será? Acho que não. Faz tanto tempo.

Y - É da pura colombiana, o veneno da lata que o Beira Mar enterrou na Amazônia, coisa de pirata.

W - Você ta inventando essa história.

Y - Não estou não, o Beira Mar enterrou toneladas e toneladas de pó na Amazônia junto com a guerrilha colombiana, só traficante profissional.

W - Você agora é traficante?

Y - Sou traficante, lobista e promoter free lancer. Faço o meu esquema. Topa um fim de semana no Guarujá?

X - No Guarujá? Hahaha. No Guarujá. Você sempre me surpreende.

Y - Você já reparou como ele se acha o rei da cocada preta? Tudo pra ele é brega.

X - O brega é lindo, não reprima o brega que há em você, mas tenha consciência dele.

Y (Gritando)Tenha consciência do que!, seu zé ruela, você acha que sabe o que passa na minha cabeça? O brega é lindo. Olha pra você. Você tem consciência do quanto é ridículo? Recalcado, pseudo-merda, ridículo, ridículo! (Para W) Me diz: você leu esse troço aqui?

W - Poxa, na correria, eu dei uma olhada e...

Y - E presta?

W - Pra falar a verdade não entendi muito bem. Só sei que achei bem pedante. Uma coisa meio forçada, meio morna, sei não...

Y - Ridículo, não é?

W - Bem, ridículo é uma palavra meio forte...

Y - Ridículo, ridículo, ridículo, pode falar, esse cara é ridículo. Tem alguma substância esse troço?

W - Não... os personagens são fracos, a história é tola, você se perde na leitura. Não prende atenção. Não tem substância.

Y - Viu, não tem substância, esse cara é um plágio ambulante, um instrumento do mal, um ridículo perigoso.

X - Se me acha perigoso é melhor começar a me respeitar.

Y - Eu respeito uma dedada no olho do seu cu, seu viado!

(Silêncio. Y dá outra rabiscada)

W - Gente, quanta testosterona... vão bater uma punheta. Vão se comer.

X - Pra você é fácil falar, fica aí com o seu sorriso, o seu suco de melancia, a sua calcinha cheirosa, os seus peitinhos.... juro que eu te comia agora nesse minuto. Topa?

Y - Ô camarada, não tem educação, foi criado na rua?

W - Olha, vou ter que ir embora.

Y - Fica.

W - Não, só dei uma passada mesmo, tenho dar comida pro meu gatinho....

Y - Você tem um gatinho? Adoro gatinhos! Qual é o nome?

W - Coió.

Y - Coió. Que lindo. Maravilhoso! Coió! Olha, vou te dar um presente. Se você não quiser dá de presente pra alguém. (Dá-lhe um papelote de pó) Por favor, faço questão. Você tem consciência do quanto é uma mulher maravilhosa?

W - Pra falar a verdade tenho sim.

Y - A sua bunda, os seus peitos...

W - To fazendo ginástica e natação.

Y - Como é? Ser mulher? Ter esse buraco negro maravilhoso, essa janela pra vida... como é ter ovários?

W - Deve ser como ter bolas.

Y - Se você quisesse eu te encharcava de porra, te fazia uma renca de filhos, me casava com você, te dava uma vida de rainha.

X - Uma vida de rainha? O cara é o maior aviãozinho meia-boca, mora numa quitinete de cinco metros quadrados.

W - Olha, tenho mesmo que ir embora. Mais tarde eu dou uma passada.

X - Traz um suco de melancia pra mim? Toma, compra outro pra você também.

W - Tchau. (Sai).

X (Filosófico) E então? Vejo que chegamos a um ponto crítico. Perdemos quase todos os nossos peões e uma parte considerável da artilharia. O jogo é franco, a céu aberto, sem máscaras, sem subterfúgios. Agora é chute no saco e dedo no olho. Vou quebrar os teus dentes. Vou te ver sangrar e rir da tua cara.

Y - Pode vir. Não tenho medo de você. O conflito é parâmetro único de todas as coisas.

X - Estamos condenados à guerra e ao conflito para sempre.

Y - Tem que ter alguma ação. Como dizem, só vou pro o céu se for open bar.

X - Eternamente, vidas e vidas, encarnações e reencarnações, para todo o sempre, há luta, há embate, há violência.

Y - O mundo não é para os fracos. Existam ou não deuses, deles somos escravos.

X - Você tem consciência de que citou Nietzche e Pessoa na mesma frase?

Y - Qual é o problema? Quer que eu desenhe uma nota de rodapé?

X - Você podia se esforçar para ser um pouco mais autêntico.

Y - Mais autêntico, eu? Amigo, EU sou um ser humano! Você – você não. Você não é um ser humano. Você é um espírito do mal.

X - Buuuu... ta com medinho? Vou aparecer no seu sonho e meter o dedo no te cu. Buuuu.... buuuuu..... pronto, joguei. Quebrei os teus dentes. O próximo é nas costelas.

(Y dá uma rabiscada).

X - Isso aí arrebenta tuas veias, já te falei.

Y - Não tenho medo da morte. Não sou um viadinho.

X - Não tem medo da morte ou não tem porque viver?

Y - Por que eu teria porque viver? Tipo uma motivação? Ter um filho, escrever um livro, plantar uma árvore? Viver até os cento e vinte anos vegetando em uma cadeira de rodas, usando fralda e tomando papinha? Não fui eu que inventei o hedonismo.

X (Irônico)Agora saca também de cultura grega?

Y - Saco. Sou um ser dionisíaco, você é apolíneo, um apolíneo fajuto mas ainda assim apolíneo.

X- E você é o autêntico deus do vinho e da loucura.

Y - Sou um apaixonado pela vida, já disse, por mais que ela seja efêmera, por mais que ela seja curta, eu quero até a polpa da laranja, o sumo do caju.

X - Que alma de poeta! O cara é um Che-Guevara!

Y - Sei que não vou mudar o mundo, mas não sou rancoroso.

X - EU sou rancoroso?

Y - É! Sua alma é seca, podre, sem vida, sem brilho.... quando foi que você desaprendeu a viver?

X - Quando eu constatei – e isso qualquer criança de sete anos já constata – que a vida é uma loucura e que ninguém se redime de nada. E eu fico olhando sujeitos como você, com os seus pequenos vícios, os seus pequenos sonhos... quando é que você vai se enxergar no espelho? Quando é que vai ver o idiota condenado que é?

Y - E o que quer que eu faça? Que dê um tiro na boca?

X - Você teria coragem? Não, porque é um medroso! Um paga-pau. Um inútil.

Y - Um inútil mas sou melhor que você. Ainda posso ganhar.

X - Ainda que ganhe, ainda que ganhe trezentas mil partidas, vai continuar à minha sombra, porque sou mais lúcido, mais justo, mais inteligente, maior, maior, muito maior que você!, compreenda, meu amigo, compreenda, EU sou melhor que você, eu faço um favor de ceder o MEU tempo pra jogar xadrez com você, eu me dou ao trabalho de dialogar com um sujeito bronco e burro como você...

Y - Bronco e burro?

X - Sem cultura, massificado, povão.

Y - Sou povão sim, seu aristocrata babão de merda! E outra: ópera é o espetáculo mais grotesco, mais ridículo, mais constrangedor que uma cultura já inventou. Ópera! Hahahaha! Olha, respeito mais o cara que vai no baile funk que o cara que vai na ópera.

X - E já foi à ópera pra saber?

Y - E já foi à opera pra saber? (Faz voz de criança mimada) Nhe-nhe-nhe-nhe-nhe? Ridículo.

X - Então é isso. Chegamos ao ponto da agressão gratuita e aleatória. Voltamos a ter cinco anos de idade.

Y - Libere o seu lado lúdico. Deixa de ser tão sério e fatalista. Vai, dá uma rabiscada.

X - Não, não vou dar uma rabiscada. Não quero nada que venha de você. Fica você daí e eu daqui.

Y - Aposto que nunca amou nem foi amado.

X - Mas já comi mais mulher que você.

Y - Será? Quer fazer as contas?

X - Inclusive, e eu tinha esquecido de te contar isso... lembra da Sinara, que você namorou por uns tempos e que depois eu acabei dando uns malhos.... pois bem, pilamos a mesma mulher. E sabe a Flavinha, irmã da Silvinha, amiga da irmã do Bicudo?

Y - Que Bicudo? Que Silvinha? Que história doida é essa?

X - Pois bem, a Flavinha falou pra Silvinha que me falou que a Sinara tinha contado pra Flavinha que minha rola era muito maior do que a sua e que a fodelança comigo foi muito mais divertida do que contigo.

Y (Incrédulo) O que? Você ta delirando! Que mentira! Ai, ai, que mentira! A que ponto você chegou!

X - É uma testemunha idônea, que fez um comentário legítimo, expressando um sentimento para uma amiga em comum, portanto está provado, registrado, lavrado, carimbado, eu sou o Fodalhão da Mauritânia, o Rasgador, o Espigão do Planalto Central, o Pica-de Aço, e você tem só um isquinha mole e muxibenta que não sobe nem por decreto presidencial.

Y - Que imaginação! Devo admitir que você é criativo com as suas mentiras.

X - Todo mundo sabe que o cara viciado em cocaína é meia-bomba, o sangue ferve tanto no cérebro que não sobra nada pra pica.

Y - Quando eu pensava que você não podia ser mais baixo, mais vil...

X - Sim, vil no sentido mais infame e mesquinho da vileza!

Y - Isso é Pessoa!

X - Há horas e horas para citar os clássicos. A diferença é que cito na hora certa. Não sou um lugar-comum ambulante, como uns e outros. EU olho Fernando Pessoa nos olhos e falo com ele. Eu puxo o bigodão do Nietzche e mostro pra ele o que é vontade de potência. Eu cuspo no Machado de Assis, no Drumond! Sim: li todo o Swyfft, o Lorca e o Dostoyevsky. Os livros estavam ali, eu estava de bobeira, li todos eles. É um crime?

Y - Inseto arrogante!

X - Fui abençoado pela sanidade, pela compreensão e pela lucidez, não posso desperdiçar esse dom.

Y - Lucidez? Lucidez? Você é mesmo um ególatra sem a menor noção da realidade. Lucidez! Se soubesse, se desconfiasse, se tivesse a mínima idéia...

X - É o seu cérebro que está fritando, não o meu.

Y - E um mentiroso! Sim, um mentiroso! Falando da minha rola! Quer que eu enfie no seu cu pra ver se funciona, seu viado de merda? Quer? Fica de quatro aí pra ver a isquinha muxibenta! Aqui é pau pra mais de metro! Tem buraco na frente eu to rasgando!

(W chega , com o suco e o entrega para X.)

W - Não acredito.

Y - O que?

W - Que estavam comparando o tamanho da rola.

Y - Foi ele que veio com essa história!

X - Já passou, já passou.

(Silêncio).

Y - Bem, vou jogar aqui. (Para W) O que acha?

W - É sempre bom atacar pelos flancos, mas eu prefiro dominar o centro.

Y - Nossa, ótima observação. Curte a história do xadrez?

W - Adoro a história do xadrez. É a metáfora de tudo.

Y - Sim, o xadrez é a metáfora de tudo. Já te disse o quanto é linda e inteligente?

W - Olha, melhor parar de me bajular. To com um problema de saúde e sem poder trepar por umas semanas.

Y - Que pena.

X - Que coisa.

W - E olha: é melhor parar também com essa agressividade. Esse jogo ta fazendo mal pra vocês. Decretem o empate e vão pro o boteco tomar uma cerveja.

Y - O Hitler aí não bebe, só fica em casa lendo romance. Agora acha que é um personagem e só fala coisas absurdas e pseudo-grandes como os personagens de Dostoievsky.

W - Nossa, por falar em Dostoievsky acabei semana passada o Crime e Castigo.

X - E então, o que achou? Deve-se punir o sociopata brilhante, o artista do mal? Claro que não.

Y - Então agora você anda por aí dando machadadas em velhinhas agiotas e quem sabe até envenenando os outros? Não tomo mais uma gota de nada que servir na sua casa. Afasta de mim esse cálice!

X - Para de citar Chico Buarque, por favor! É pedir muito?

Y - Seria mesmo capaz? De matar alguém? Acha que isso te faz brilhante, além do bem e do mal? É essa sua idéia de genialidade?

W - Pelo que eu entendi, a própria paranóia do assassino o corrói de tal maneira que ele acaba ficando louco, nesse mundo sem deus, onde tudo é permitido.

X - Acredita em deus? Ou acha que é muito complexo e relativo?

W - Acredito na busca espiritual, na capacidade de transcendência, no super-computador astral...

X - Um super-computador astral que mova as engrenagem. Traduzindo, deus. Tudo faz sentido, e quando você morrer vai pro céu comer algodão doce.

W - Por que transforma tudo num pastiche, numa piada corrosiva?

X - Deus não existe, você não vai pro céu comer algodão doce, fique sabendo. Quem não segura a barra acaba se entregando às drogas.

Y - Você ta falando comigo? Hein?

X - Veja aí o que deus criou: um alienado auto-destrutivo. Palmas pra ele.

Y - Você ta começando a me ofender pessoalmente, vou acabar perdendo a cabeça!

W - Gente, gente! Já sei: que tal uma brincadeira?

Y - Brincadeira?

X - Qual?

W - Qualquer uma. Escravos de Jó, passa-anel, adedonha...

Y - Salada de fruta!

X - Com beijo na boca!

W - Não! Parem de ser pervertidos. Uma brincadeira de criança!

Y - Esse aí desaprendeu a ser criança. Já eu sou um crianção, tenho até vídeo-game e álbum de figurinha. Minha infância foi uma aventura linda e maravilhosa. Ah, as crianças...

W - Você já usou muita droga hoje?

Y - Só o suficiente.

X - Viu como é? As, as crianças... tenho que suportar isso.

Y - Amigo, vou embora da sua casa antes que lhe parta a cara.

X - Ta com medo de perder? Vai fugir?

Y - O jogo ta ganho. Você quer um xeque mate?

X - Quero.

Y - Então jogue.

X - Aqui.

(Eles finalizam o jogo rapidamente, comendo todas as pedras, até sobrarem somente os reis de cada um).

X - Deu empate.

Y - Que merda.

X - Temos que jogar outra.

Y - É verdade. Amanhã na mesma hora.

X - Combinado.

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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

um bom trabalho.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 11/9/2008 11:54
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