Era inverno e eu andava em Baker Street. Noite fria, minhas orelhas congelavam e eu soltava fumacinha pela boca. A rua escura, o tempo era de morte, uma lamparina tÃmida e quase vencida projetava minha sombra na calçada. De barulho, só os meus passos. Ploc, ploc, ploc. Passo ante passo.
Sim, ele chegou silencioso. Moço sorrateiro é o que ele era. Arfava uma respiração pesada, extasiada, excitada. Aproximou-se, pediu as horas. Dez e quinze, moço. A princÃpio, ele me fustigou um medo. Sem tamanho nem forma, mas medo. E eu esperava que ele fosse embora.
Então ele me olhou. Ou melhor, eu o olhei, desconfiada de que ele não tirara os olhos de mim desde que vira minha silhueta a percorrer aquela escuridão quase completa. Olhei-o nos olhos, e ele tinha um olhar latino. Eu esperei que ele me dissesse alguma coisa. Ele então se referiu a um tal portal. Resmungou mais meia dúzia de palavras fúnebres, quase numa cusparada, e foi embora.
***
Era primavera, e eu andava em Baker Street. Noite enluarada, meu nariz reprovava aquele cheiro de crisântemos, e eu soltava sangue pela região pubiana. A rua iluminada pelo clarão da lua, o tempo era de flores, um cãozinho de andar tenro e quase maternal revirava os lixos à procura de comida. De barulho, um piano engasgado projetava um minueto pela janela mais alta da casa verde. Pam-pâ-râ-ram. Nota atrás de nota.
Dessa vez ele chegou atiçando meu faro. Cheiro de sal é o que ele tinha. Tragava uma erva qualquer embrulhada num papelzinho. Aproximou-se, pediu fogo. Não tenho, moço. Da segunda vez, ele me despertou vontade. De tocá-lo, de tê-lo nos braços, mas não um desejo. E eu esperava que ele me oferecesse um trago daquele cigarrinho.
Então ele soprou uma fumacinha branca no meu rosto. E eu suspirei áspera e longamente, desconfiada de que o fogo que ele me pedira não era um isqueiro ou um palito de fósforo, porque seu cigarro já estava aceso. Puxei o ar, e aquele cheiro de sal inundou meus pulmões. Num Ãmpeto, tomei o rolinho das mãos dele e o pus nos meus lábios. Queimou, e eu esperei que ele ralhasse comigo. Ele então deixou escapar um "minha menina", combinado a mais três palavras doces, e foi se afastando lentamente, como se seu faro tivesse se enjoado do meu cio.
***
Era verão e eu andava em Baker Street. Noite quente, minha pele grudava nos meus trajes mÃnimos, e eu soltava suor por todo e cada poro. A rua remetida à s sombras dos enxames de mosquitos que parecem fazer fotossÃntese, o tempo era de férias, uma cambada de jovens como eu bebia na calçada frente a um bar. De barulho, vozes de todos os timbres e alturas. Blá blá blá blá blá blá blá. Voz sobre voz.
Agora ele chegava colorindo. Moreno de sol é o que ele era. Andava num gingado de um swing que só ele ouvia. Aproximou-se, pediu um gole. Não bebo, moço. Da terceira vez, ele me despertou desejo. Sexual, irracional, mas não instintivo. E eu esperava que ele me tocasse.
Então ele parou de súbito. E eu parei também, desconfiada de que o swing que ele ouvia tivesse dado uma trégua ou diminuÃdo o volume. Virei de lado, e todas as cores que ele trouxera se transformaram em arco-Ãris. Aproximei-me e beijei-lhe as bochecha. Esperei que ele limpasse a face num gesto de asco. Ele então se virou para mim, sorriu o sorriso mais inofensivo do mundo e apressou os passos, de modo a dobrar a esquina enquanto eu ainda subia a ladeira.
***
Era outono e eu andava em Baker Street. (...)
(...por favor, façam o download do documento para ler o final...)
(Já publiquei esse conto aqui há algum tempo. Acontece que coloquei todo o enredo no documento para download, e acredito que a visibilidade do conto acabou prejudicada. Agora, adotei nova estratégia. Obrigada pela atenção =])
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