O e-Indivíduo

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Callera · São Paulo, SP
10/11/2007 · 35 · 1
 

Perco-me em mim mesmo, para me encontrar no mundo: profissionalizado, virtualizado, pulverizado, mutilado, consumista, hedonista, egoísta, alienado, fragmentado.

E aí lembro-me de Nizan:
"Por mais que tente, o homem será apenas um fragmento do homem, alienado, mutilado, estranho a si mesmo; quantas partes abandonadas... quantas coisas abortadas!â€.

O desemprego, o medo, a violência e a solidão são tormentos que se abatem sobre o homem hipermoderno.

A pessoas, perplexas, assistem a todo esse processo de macrotransição com um sentimento de impotência que as aniquila.

Desencontradas, deixam de ser elas mesmas para serem apenas um Nick ou um Avatar na grande rede: perdidas, perplexas, solitárias, volatizadas, virtualizadas, buscando reencontrarem a si mesmas em um mundo que não existe mais.

Dormiram como pessoas, acordaram como e-indivíduos.

Como dói perder a identidade. Como dói ser apenas um fantoche nas garras dessa falsa liberdade que a todos aprisiona em nome de um monstro chamado... Mercado.

Enquanto sou rentável, luto contra a fatalidade natural da vida. Decreto meu antidestino me tornando um hiperconsumista voraz.

O mundo tem exigido de todos nós novas habilidades. Pede que sejamos competentes, excelentes, comprometidos, agressivos, aguerridos, visionários, inovadores, funcionais, empregáveis, passíveis de instrumentalização, etc, etc. Ufa!

E aquilo que era um direito de todos nós, o trabalho, virou obrigação: a obrigação de ser "empregável" e "rentável".

O pior, é que na maioria das vezes, sequer sabemos se iremos ter uma nova oportunidade quando perdermos nossos empregos.

Antes, poderíamos dizer: que Deus tenha piedade de nós. E agora, nesse mundo dessacralizado... a quem recorreremos?

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informações

Autoria
Carlos Pessegatti é consultor de empresas com pós-graduação em Administração de Empresas pela ESAN e em Gerência de Sistemas e Serviços de Informação pela FESP-SP. Estudou física quântica, música e semiótica durante muitos anos buscando compreender e traduzir todas as formas de linguagem em uma única: a grande linguagem da vida. Foi um dos primeiros escritores a publicar um trabalho nesse novo e grande livro do mundo: a Internet.
Ficha técnica
Uma explicação para o título desta crônica. Quando completei 40 anos, resolvi escrever um texto que chamei de Dobrando o Cabo da Boa Esperança (link Contos e Poemas do site www.cpessegatti.rg3.net). Nesse texto/poema, eu fiz uma reflexão sobre os três dilemas do homem: o tempo, a morte e o amor. Diante dessa "fatalidade", que como um ananke se abate sobre todos os mortais, eu me perguntava: o que redime a vida, afinal? Acabei por concluir que era o "amor".

Tendo se passado mais de dez anos, resolvi voltar a esse texto para fazer um novo balanço da minha vida, e agora, com pouco mais de cinqüenta anos, vi-me diante de um mundo terrível, onde a fragmentação, o hiperindividualimo e o consumo estão tornando essa era que estamos vivendo em um período extremamente vazio e desesperançoso. Resolvi, então, escrever um texto onde novamente pudesse fazer uma reflexão, não só sobre o que havia mudado na minha vida e no mundo durante esses dez últimos anos, mas estendendo essa reflexão para o sujeito contemporâneo, do qual faço parte.

A virtualização, vista no seu sentido inverso (aqui faço uma leitura invertendo o seu significado original, donde "virtual" é algo que não existe em ato, mas sim, como potência), seria algo que trabalharia no sentido de pulverizar e desmaterializar o indivíduo, tornando-o oco, podendo nele o mundo escrever a sua história à vontade. Acredito que estamos vivendo um era de sujeição, e não de subjetivação. As matérias da Revista Você Gente buscam entender esse momento de macrotransição que estamos passando e como o mundo desembocou nisso que assistimos hoje. http://www.vocegente.com.br/

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Mah Caldeira
 

Muito pertinente sua crítica! Gostei do texto!

Mah Caldeira · Belo Horizonte, MG 11/11/2007 21:00
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