Insondável, a repetição do mesmo horário - não houve cabeçada de madrugada na porta. O carneiro mimado, chamado Xico pouco apareceu. Dando por falta, a famÃlia começou procurá-lo em volta do rancho.
Zizinho mais ligado ao bicho já engolindo o choro, gritou:
- Pessoal, achei o Xico!
O pai, mãe e irmão foram até a parte posterior do rancho, onde existia um banco de cimento batido. O animal estava em cima com focinho escorrendo sangue e lÃngua para fora.
Falou o pai de Zizinho:
- Menino, larga o bicho soltando sangue!
- Mas papai é meu amigo.
Zizinho abraçado com seu amigo lembrou-se do encadeamento da amizade: chovia, os animais estavam estabelecidos, menos uma ovelha prenha que berrava. Com 8 anos Zizinho, encontra seu prometido amigo.
Frágil, pequeno e doce.
Tempo passado, suficiente, para o filhote virar centro da atenção. Cresceu transformando em um carneiro ostentoso e mimado. Até o carrancudo do pai de Zizinho tinha certa simpatia. Nos finais de semana a vó Anita, vinha do outro sÃtio e agradava o neto sem esquecer do amigo. Teve uma ocasião que ela colocou um lacinho azul no carneiro combinando com o colete do neto.
Zizinho comentou:
- Agora Xico, tá aqui morto com sangue...
- Maneco, dá um jeito nos restos desse carneiro tá partindo o coração. SensÃvel ao sentimento do filho, indicou Madalena.
- Resolvo. Mas que aconteceu?
Gilberto demonstrou falta de comodidade:
- DESEMBUCHAAAAHHHH LOGOOOOHHHH?
Ameaçado pelos pais, o garoto pronunciou:
- O carneiro tava já velho tinha uns 4 anos...
Enquanto, Zizinho ainda chorava abraçado ao amigo. Maneco completou:
- Madalena, segura o moleque!
- NÃOOHH XICOOHH!
Comentários:
- Será certo?
- Não me importo, se for rápido! Acaba com a dúvida Maneco.
- Pai, e o luto? Interrogou, o preguiçoso Gil.
- Mãe, por favor, eu gosto muito do Xico foi meu único amigo... Já enxugando as lágrimas falou Zizinho.
Excedidas lágrimas - próprias da inocência - causaram consternação. O carneiro teria sua despedia caso evitassem tocar no assunto.
Gil idealizou:
- Posso usar um sobretudo preto e ser padre, mãe?
- Acho que não tem problema... Lá perto da represa tem uma árvore grande e terra fofa.
Localidade escolhida às 7h e 48 minutos iniciaram o adeus.
- Papai, o Xico merece um caixão já que não temos... A mãe arranjou um lençol. Será que ele vai ficar bravo? Perguntou Zizinho.
- Claro que não, moleque. E cambada, vamo logo, que depois temos muita lida. Respondeu Maneco.
Ãrvore saudando os visitantes ao passo que o pai cavava para enterrar Xico. Zizinho parecia mais tranquilizado, entretanto ainda sentia a perda:
- Eu só tinha ele... Ele só tinha eu.
A mãe confortava:
- Não fica assim... As coisas costumam se perder de nós.
Foi colocado no túmulo improvisado, o carneiro trazido pelo pai. Zizinho pensou: foi demais o jogo de bola, o Xico sabia brincar de pega-pega igual uma pessoa. Subiu e desceu, desceu e subiu uns tocos de árvores do descampado...
- Corações felizes não aguentam... Afirmou Zizinho, agora Zizo já crescido para o filho Betinho, futuro Beto de 6 anos, tentando compensá-lo pela Morte de Boje, após o cachorro ser atropelado. - Sabe filho? O Xico foi meu único amigo e animal de estimação na infância.
- A saudade passa?
- Não, mas vira uma lembrança boa.
- Já que nosso cachorro morreu o que acha da brincadeira de enterro?
O pai ignorou a questão, como bom interlocutor. Transportes deslizavam nas ruas, avenidas, rodovias, radiais. Vias nascem e morrem - menos nascidas, mais mortas. Animais de estimulação eram esquecidos. Partidas resultam dos enterros.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!