O Vô e a Rê

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montanha · Belo Horizonte, MG
29/3/2006 · 3 · 0
 

O Vô e a Rê ( 1a parte )

Portava o cenho pesado e a fama de durão, mas quando a gente queria virava mel. Finda a faina na oficina de carro-de-boi cedia à querência da netaiada no tocante à contação das estórias. Sentado no banquinho tosco e côncavo de três pernas, no beiral do fogão de lenha, sorvia café de rapadura prenunciando o palheiro. Aí feito viandeiro pousava a vista cansada nas entranhas do fogo crepitante e abria o gavetão da memória, onde guardava as tramas e urdiduras.

A penca de netos quietava na escuta atenta, eu agarradinho na Rê, que me emocionava por meiar bunda comigo num banquinho. A gente se ajeitava assim mais por empenho dela, mas tinha eu também muita culpa. Contava sempre com isso, inclusive porque ganhava broa mais que todo mundo. Além da que a Vó dava tinha aquela metade com que a Rê me distinguia. Um dia quis me dar broa inteira. Quase que eu aceitei.

Quando a peripécia incluía vizinho ou conhecido Vô dava tratos à galhofa, em ponto e conta certos de humor e graça, que aí o riso nosso vinha despregado. Para mim essa a era hora da ardência maior, causa que no chacoalho desses frouxos de riso a Rê administrava as esfregas, sem que ninguém notasse.

Entremeio um caso e outro Vô subitava uns indagos sortidos para mensurar a atenção e o interesse que a gente estava tendo. Dele o fito era não só a demonstração da sabença da vida e das coisas que ela lê e traz como também o repasse das verdades e valores do seu credo, os quais foram de grande valia para nós no futuro, nos caminhos e descaminhos que Deus reservou a cada qual.

Vez em quando reabria um conto de assombração, como este ora adiante repassado, ressalvada a falta de graça do narrador.

Um da família, mais distanciado, deleitava com boi bom e conhecimento. Nisso resumia o fito, a curiosidade e a realidade dele. Certa feita, com esse preceito e em hora propícia do ponto de vista financeiro, espichou uma viagem para as bandas da Siriema, lugar remoto, custoso de chegar, mas famoso pelo plantel.

Com dia e meio trotado e premido por prazo e lonjura reinou de atalhar por um grotão fundo que nem goela, escuro que nem breu e diferençado por um desce-e-sobe sem fim. Por tal conta e risco embrenhou em demasia e, já n aprochego da noite, quedou sem norte. Zanzou horas e horas em rodopios, sob um céu sem luar. até que, no limiar da canseira e da aflição, na iminência de um temporal, alcançou um eito desconsolado, feio mais que tudo. Vislumbrou uns taperões arruinados num ermo formado pela fé de uns alforriados na redução do sofrimento no fasto da idade. Notório ali o labor nenhum. Só abandono.

Apeou sem ser visto, fitando adentrar um casola isolada, sem janela. Dado o aperreio da viagem, de nada mais cogitou a não ser atiçar um foguinho no chão batido e descansar. Tomou da capa e do arreio por cama e travesseiro e morgou, esticando o cambito, no aguardo do sono. Foi quando o aguaceiro desceu feito dilúvio, uma chuvada que há muito Deus não dava. Trovão pipocava que nem morteiro, um atrás do outro. O negrume da noite lá fora folgava a vista só nos rabiscos dos relampejos. Um breu. O vento zunia e assoviava, vergando pau que nem cabelo, levando galhadas, ramas, folhas e mais tudo que desse baldeação.

Passado um tempinho deu de arregalar o olho por conta de uns estalos esquisitos, além daquela chatice de friagem de vento velhaco lambendo nariz e orelha. Sentiu um aperto de peito feita angústia, com resposta certa na carcunda e minguança no sangrador. No bucho um oco e fome não podia ser. Captou um tropel lento e pesado e um cheiro forte, nojento, denúncias de uma presença singular. Bicho grande quem sabe. Gente não era, com certeza.


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Arildo Ricardo
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