Sem visão lá de fora só fez aguçar os sentidos. O arrepio viajou o corpo inteiro, principiando no calcanhar e arribando até a moleira. Pressentiu o perigo. Aprumado de pinote, calçou rapidinho as botas e botou o olho na porta, única saÃda, na ambição de chispar dali o mais depressa possÃvel e para o mais longe que pudesse. Não deu tempo.
Uma criatura enorme, horripilante, vedava o escape. Os pés e as unhas adentravam o moquifo arremedando ancinho. Dos tarugos das canelas e cochas até a grande pança mais o mamá e o pescoço, tudo era só pêlo, muito pêlo, preto, de palmo, ouriçado. A criatura superava na altura a cumeeira, tanto que do queixo para cima nada era visÃvel. Um rugido de arrepiar resvalou por cima do telhado e repercutiu na noite escura, superando o trovão. Bem pior ficou no destelhamento, feito para facilitar o alcance da presa.
Atordoado e fraco de idéia diante do inesperado o parente só teve leitura de encher a mão de brasa e tição de fogo e atirar tudo no peito da coisa. Foi a valência-salvação. Um urro medonho, treme-mundo, rasgou a noite molhada. Aquele estropÃcio sorrateiro e mal-intencionado virou labareda. Um fogo santo, persistente, ganhou lastro naqueles pêlos compridos de tal modo que nem a chuva minimizou. Queimando como se fosse fogo do inferno o fedazunha sorveteu no breu da noite aos berros para nunca mais voltar, como de fato não voltou, pelo que consta.
É voz corrente também que esse parente ainda padece de tremura quando rememora o sucedido e que quando teve prazo e galeio levou um vigário ao local para um benzer forte, limpa espiritual, para prevenir que outro desavisado viesse a passar o por ele passado naquela infeliz e desaguada noite.
Na ocasião em que o Vô contou esta, nós, ainda tamaninhos, ficamos impressionados, inclusive pelo jeitão dele contar. É pena que na grande viagem tenha resolvido levar consigo esse encanto e magia.
Quanto à Rê, na vez derradeira em que nela pus o meu olhar percebi que alumiava feito vaga-lume, de alegria, viço e boniteza. Com brilho no olho e no beiço meiou bunda comigo num sofazinho surrado de um boteco aconchegoso. No fim da noite, depois das memórias, me ofereceu uma broa. Desta vez aceitei.
Oi, Arildo. Reparei que você postou duas vezes o mesmo texto para download, dividindo-o em partes na descrição. Por que não postar uma única vez, já que o arquivo para download é um só??? Melhor, não? Forte abraço.
Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2006 16:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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