Poema para os Atos Mortos

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Claudio Miklos · Rio de Janeiro, RJ
25/5/2007 · 82 · 1
 

Tam Huyen Van - Agosto, 2006

Ainda que lhes tenhamos tanto medo, e que nos esforcemos por toda a vida a não cometê-los, são justamente nos atos errados que se abrigam as lições mais fundamentais da condição humana. Quem jamais desejou viver sua própria vida como um grande equívoco? Todos nós acalentamos o sonho de acertar, acertar sempre, e desta forma obter o máximo do mundo. Mas a existência possui mais facetas do que imaginamos, e – principalmente – não somos perfeitos. Ou, sendo mais correto, os atos humanos são forjados pelas intenções relativas, e ironicamente são justamente as certezas absolutas que dão fruto aos nossos maiores erros – não somos perfeitos porque nos achamos quase sempre certos.

Quem sabe reconhecer em si os sinais dos atos em sua plenitude? Quem possui a valiosa humildade de saber-se não-absoluto? Ser pleno ou achar-se absoluto são duas experiências distintas e completamente díspares em motivos e resultados; eu sei que todos nós podemos intuir nossa limitação sob o prisma da razão e ao toque da sensibilidade, mas a condição humana – sua natureza incerta e impermanente – possui uma face oculta, um segredo ancestral, que precisa ser desesperadamente desvelado.

A cada passo seguimos as pegadas dos que vieram antes de nós. Ao mesmo tempo, ainda que estejamos refazendo um caminho já trilhado por tantos homens e mulheres do passado, nossa jornada é única sempre, pois diz respeito tão-somente a nós e a mais ninguém. Este é o jogo (Lila, em sânscrito) do Samsara, uma maravilhosa seqüência de atos exaustivamente repetidos e sempre únicos, originais. Como isso é possível? Como podemos ser uma repetição de outras humanidades e ao mesmo tempo sermos completamente particulares em nós mesmos, sem antes nem depois? Podemos ser assim porque as circunstâncias podem se repetir ao longo dos séculos, mas as ações pertencem sempre ao aqui e agora.

Na alma de cada existência habitam os atos. E cada ato nos faz mais vivos e reais, tornando nossa vida única e impossível de ser repetida, tornando inclusive nossa persona, nosso ser, completamente real no momento em que vivemos – nem antes, nem depois. Assim, na gigantesca cadeia de acontecimentos que chamamos Vida, não há margem para nos repetirmos: somos sempre únicos e finitos através de nossos atos, e estes atos são tudo o que temos para provar que um dia existimos sobre a face da terra.

Os atos são os seres. Não, não somos nós que criamos os atos, são estes – meta-existentes e atemporais – que nos moldam através de si. Sem nossas ações, o quê nos sobra? Um nome, um corpo, uma forma ou lembrança? Estas coisas são pequenas demais para definir uma alma, é preciso mais do que isso. O que realmente permanece são as conseqüências do que fazemos, e as lições que tais ações nos dão ao longo da vida.

E, contudo, os atos precisam morrer. Também eles devem chegar a um fim, e na linha do tempo eles têm seu momento, deixando de fazer sentido logo depois. Esta é uma sabedoria que todo ser humano precisa urgentemente compreender, ao fazer isso será capaz de resolver o mistério que envolve o quê são realmente os atos coerentes. Ao fazer isso, poderemos afinal nos curar das conseqüências dos nossos atos ignorantes, sem culpas nem castigos. Os atos plenos e saudáveis são aqueles feitos sem culpa, não porque os justificamos através de uma moral conveniente, mas porque sabemos vê-los sob o prisma da nossa consciência em sua real natureza -- e quando terminam, os deixamos morrer.

[continua]

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informações

Autoria
Tam Huyen Van (Claudio Miklos)
Ficha técnica
Ensaio Filosófico
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Marluce Freire Nascasbez
 

Claudio Miklos,

Muito bom o teu texto!

Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 25/5/2007 18:22
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