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Reinado Vermelho - Cap 1

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Persephonne · Brasília, DF
25/6/2010 · 0 · 0
 

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Vampiros. Por centenas de anos, nos adoraram. Escreveram livros, fizeram filmes, séries de TV, vídeo games. Cada um com uma versão diferente da idéia básica de um morto vivo que suga a vida das outras pessoas. Já fomos demônios, aberrações genéticas, mutantes, deuses, vítimas de vírus, sedutores, monstruosos e fascinantes.

Quanta besteira.

A verdade é que estamos por aí há tanto tempo quanto os humanos. E, assim como para eles, para nós a nossa gênese permanece um mistério. Ninguém entre nós sabe realmente como viemos parar neste mundo. Somos criaturas vindas do inferno abaixo? Ou apenas estamos infectados por uma gripe ou parasita que se deu bem na escala evolucionária? Somos uma raça completamente diferente ou apenas cadáveres ambulantes que existem graças a alguma magia profunda?

Como os humanos fazem, existem tantas teorias entre nós que ninguém mais realmente se preocupa com isso. Pelo menos eu não.

Eu acredito em evolução, no entanto. O motivo para que haja tantas versões de nós na mídia é que eles realmente existiram em algum ponto da história. Vampiros com asas, alérgicos a prata e alho, ultra sensíveis ao sol, metamorfos, e tantos outros. No passado eles precisaram evoluir nestas formas para sobreviver, assim como nós evoluímos agora para nos misturar melhor com os humanos, nos parecendo mais com eles.

Dos mitos e características antigas só o que restou foi a aversão ao sol, embora ninguém mais saia por aí explodindo ou virando cinzas. Não, hoje simples óculos escuros e um bom protetor solar nos permitem ir e vir livremente durante o dia. Só não espere ver um vampiro bronzeado.

Sim, nós temos reflexos, assim como cadáveres têm. Embora eu já ter conhecido alguns vampiros que podem se transformar em fumaça ou sombras. Mas esses são antigos, bem antigos. Nós podemos comer uma pizza com bastante alho sem derreter, mas símbolos religiosos muito poderosos ainda nos repelem. Talvez isto seja uma sobra da Idade Média. Algo como um trauma. Ninguém mais anda por aí com asas ou se transformando nos seus animais de estimação.

Nossos corpos estão quase mortos, talvez porque quando recebemos e bebemos o sangue vampiro pela primeira vez nós estamos andando naquela linha tênue entre vivo e morto, naquele momento fugaz antes da vida deixar o corpo para sempre. Estamos presos eternamente neste momento. Por isso, ainda temos as funções corporais básicas. Nós podemos comer, beber, mijar, cagar, foder. Mas só no limiar. Mal e mal temos respiração e pulso, por isso a temperatura corporal baixa e a palidez. Por exemplo, eu ainda posso comer um cheeseburger e me sentir satisfeito se eu estiver com fome. O sangue é o que o meu corpo quer, não o que ele precisa.

Como estamos mais parecidos com humanos, chegamos a um ponto evolucionário em que não precisamos mais tanto assim de sangue para sobreviver. Pelo mesmo motivo, podemos ser mortos dos mesmos modos definitivos que eles, apesar de nos curarmos mais rápidos se ingerirmos sangue. Nossas presas se tornaram retráteis, sendo controladas à nossa vontade. Essa foi a melhor parte da evolução. Quando ingerimos sangue por um período de tempo contínuo, somos mais rápidos, mais fortes, com sentidos e reflexos mais aguçados.

No geral, as características básicas persistem. Somos imortais, sim, mas viver eternamente não tem todo o glamour que a mídia faz parecer que tem. Não podemos entrar nas casas das pessoas sem sermos convidados antes, esta é uma regra que sempre existiu e ninguém nunca entendeu. E precisamos de sangue, vida, para os nossos corpos funcionarem direito.

Como eu falei, não precisamos mais de sangue para sobreviver. Hoje o hábito de bebê-lo regularmente é reservado para aqueles que escolhem continuar com os velhos hábitos. Se um vampiro quer continuar dando uma de super homem, ele vai precisar se alimentar de sangue a cada dois dias. Se ele for como eu e prefere seguir uma vida calma e sem estresse, só irá precisar de sangue uma ou duas vezes a cada duas semanas.

Eu vejo estes outros vampiros que só querem matar e me envergonho. Viciados, é o que eles são. Zumbis que em nada pensam a não ser a sua próxima presa. Não precisamos mais do sangue tanto assim, mas os nossos corpos podem ficar viciados nele. Como uma droga. Exceto que é a droga mais poderosa, viciante e letal que existe.

Eu consegui me livrar deste vício. Mais ou menos. Ainda tenho as minhas recaídas eventualmente, mas estas estão ficando mais raras, ainda bem. Trabalhar num hospital ajuda. Os sacos de sangue não servem pois não têm mais força vital neles, mas eu dou um jeito quando me sinto muito fraco.

Os vampiros são tão arrogantes que criaram algo como um governo. Uma monarquia, imagine só. Com reis, rainhas, príncipes e princesas, territórios e até mesmo leis. Como se isso os fizesse menos animalescos.

Os tronos são cedidos aos vampiros mais velhos, os anciões que constituem a 'realeza'. Veja, há uma grande diferença entre ser mordido pelo Rei vampiro de Londres e ser mordido por um vampiro sanguessuga qualquer que espreita os becos à noite. Por isso, os únicos herdeiros possíveis são vampiros de segunda geração, como chamamos os que foram transformados pelo próprio rei ou rainha. Como em qualquer monarquia, quando o monarca morre, o herdeiro mais velho fica com o trono. Funcionou para os franceses, não tinha porque não funcionar para nós.

Eu, é claro, queria distância daquilo tudo. Eu era um enfermeiro, pelo amor de Deus. Eu salvava vidas, não as tomava. Quando eu me sentia fraco demais era só eu procurar algum paciente que estivesse inconsciente e tirar uma seringa ou duas de sangue quando ninguém estava olhando. Eu tinha uma boa vida.

Até eu receber a notícia de que Blake Storm, Alto Rei Vampiro de Londres, meu progenitor e criador, estava morto.

E a linha de sucessão era traçada diretamente até a minha porta da frente.

***

Eu tive o azar de ter sido transformado, em algum ponto dos anos 1920, pelo Rei. Até hoje não sei por que diabo ele me escolheu. Eu era músico em uma banda medíocre que tocava nos bares e pubs pela Inglaterra em busca de algum dinheiro para nos alimentar. Não lembro mais dos nomes dos meus companheiros, mas eles eram só o que eu tinha. Eram tempos difíceis. Eles eram a minha família, meus irmãos.

Eu nunca soube por que eu fui o único que foi poupado. Por assim dizer.

Era uma boate nova. Ninguém sabia exatamente o que acontecia lá, mas o rumor era que tudo o que você imaginava e mais acontecia naquele lugar. Na época nós simplesmente achamos que se tratava de bebida, dançarinas e jogatina.

Eu o notei. Ele havia nos seguido a umas duas apresentações atrás, sentado sozinho a uma mesa no fundo dos bares, nos observando. Apenas eu o notei, mas não falei nada aos outros. Achei que ele só gostava da banda.

Porém, em uma noite quando nós já tínhamos terminado a noitada e estávamos saindo do bar, ele apareceu do nada.

Veja bem, ele não era o tipo de pessoa que nós esperaríamos encontrar na rua, assim. Para começar, ele era negro. Quase. Na verdade, moreno. A sua pele tinha o tom da terra. Eu só tinha visto ou sabido de pessoas como ele servindo em hotéis, bares ou casas de família trabalhando como criados.

Mas aquele homem claramente não era um criado. Ele exalava confiança de cada poro de sua pele. Seus olhos castanhos mais pareciam duas gotas de sangue seco. Seu cabelo liso era luxuoso, curto, e tinha a cor de carvão. O homem também era alto, de porte atlético que transparecia mesmo através de seu sobretudo preto, que o fazia se parecer com uma sombra.

Ele era imponente o suficiente para fazer com que nós, quatro homens adultos, ficássemos paralisados com a sua presença. Era quase algo sobrenatural, como uma aura. Pressentindo isso, ele levantou as mãos em um gesto que deveria ter tido um efeito tranqüilizador, mas fez o contrário. Eu notei que as mãos dele eram grandes e fortes. Ele poderia quebrar o pescoço de qualquer um de nós como faria com uma galinha que ia virar assado.

- Não se assustem. - Sua voz poderosa retumbou, o que não ajudou em nada para diminuir a nossa impressão de que ele iria nos fazer em pedaços. - Eu vim para oferecer um trabalho a vocês.

Demorou um minuto até que eu encontrei voz suficiente para falar. Talvez por que eu era o único ali que já o tinha visto antes.

- Q-que trabalho? Aonde? - Eu vi que eu deveria ter parecido um pouco rude e retraí um pouco. - Quer dizer, desculpe, mas nós nem te conhecemos.

O homem me olhou demoradamente, arqueando uma sobrancelha e eu podia ouvir o meu coração se jogando contra as minhas costelas cada vez mais rápido. Foi a última vez que eu senti aquilo.

Enfim, ele falou novamente.

- A nova boate. Tenho certeza que vocês já ouviram falar dela.

Nós concordamos lentamente, ainda olhando pra ele. Claro que sabíamos. O lugar não tinha nome, como muitos outros em Londres, mas nós sabíamos muito bem de qual ele estava falando.

- Ótimo. - ele falou, vendo que a gente sabia do que ele estava falando. - Poderão beber de graça lá. E serão recompensados. - o homem sorriu. Tinha dentes tão brancos quanto leite.

- Bem, vamos precisar do seu nome. - Eu falei de repente, tentando não gaguejar. Muito. Ele continuou sorrindo.

- Blake Storm. - O homem disse e deu as costas, desaparecendo do beco tão misteriosamente quanto tinha aparecido.

E foi assim, o meu primeiro contato com Vossa Majestade Blake Storm, Rei Vampiro da Cidade de Londres.

***

A boate era tudo que imaginávamos que ia ser, e mais. O bar ocupava um lado do estabelecimento inteiro, e todas as bebidas que eu conhecia e muitas que eu não conhecia estavam expostas na parede. Eram precisos três bartenders para servir todo mundo, sem contar os garçons. No centro havia um palco onde as garotas dançavam com pouca ou nenhuma roupa para os homens que estavam lá. Alguns metros à direita era o espaço da banda, onde nós estávamos tocando sem sermos muito notados pelos clientes, mas ainda éramos atendidos pelos garçons e tínhamos uma boa vista das dançarinas.

Os outros não notaram, mas eu sim. A maior parte da clientela bebia algo em taças que era espesso e escuro demais para ser vinho, mas eu achei que era algum drinque novo. E estas mesmas pessoas nos olhavam como se fôssemos bifes, embora alguns dos clientes homens também olhassem as dançarinas assim.

Nós nunca tivemos chance. Nosso set já tinha acabado e nós estávamos sentados a uma mesa, bebendo e olhando as garotas. Nós conversávamos sobre.. qualquer coisa quando senti uma enorme e pesada mão no meu ombro, que me fez dar um pulo e olhar para cima, vendo Blake sorrindo para mim.

- Que bom ver que vocês estão se divertindo. Agora, se me permite, venha comigo até o escritório para discutir o pagamento de vocês.

Eu, já bêbado, levantei e concordei, seguindo Blake até um escritório espaçoso e bem decorado. Eu cheguei a estranhar vagamente quando ele trancou a porta, mas algo me dizia que estava tudo bem, enquanto ele andava até mim lentamente.

- Qual é o seu nome mesmo? - ele perguntou suavemente, me olhando.

- Vaughn Shelby Hayden. - eu respondi automaticamente, sem saber exatamente por que eu tinha dado o meu nome completo a ele.

Só me lembro de ter visto Blake se aproximar de mim rápido como uma bala antes de eu sentir os dentes dele na minha veia e minha vida se esvaindo.

***

Acordei no dia seguinte com Blake me olhando. Eu não me sentia diferente, apesar do frio e da fome.

Lá fora meus amigos estavam mortos. Blake me explicou que eles não tinham sentido dor ou terror algum. Afeta o gosto.

Ele me explicou tudo. Me falou que agora eu tinha uma nova família, um novo modo de viver, um novo corpo. Eu tinha renascido numa versão melhorada de mim mesmo.

Ele disse que meus amigos não tinham morrido em vão, pois vários outros de nós agora estavam fortes novamente graças a eles. Então ele me falou que eu era especial, que ele tinha sentido isso de longe. Blake me contou do reinado vampírico, que era muito mais antigo e poderoso que qualquer outro que já existiu. Ele me contou que ele era o Rei Vampiro de Londres e não tinha herdeiros, até aquele momento.

- Um rei precisa de alguém forte para substituí-lo. Eu passei muito tempo procurando, mas agora sei que encontrei um herdeiro à altura do meu trono. - Eu decidi não lembrá-lo que nós nos conhecíamos apenas a algumas horas. Se bem que provavelmente ele tinha passado um bom tempo me observando à distância de qualquer modo. - Você é o príncipe herdeiro do trono de Londres, Vaughn.

Na época, eu gostei de como aquilo tinha soado. Pareceu certo, como algo a que eu era destinado. Eu sorri e Blake me abraçou como um pai abraça um filho.

- Bem vindo à corte. Venha, vamos alimentar você, Vaughn. - ele falou, dando um tapa nas minhas costas. Eu sorri para ele, me sentindo realmente importante pela primeira vez na minha vida.

***

Então, esta é a minha origem. Eu nem lembrava de nada disso há muito tempo. Eu sou um enfermeiro, oras. Eu tenho uma vida normal. Mas eu senti quando aconteceu. Mesmo antes das duas figuras de preto baterem à minha porta eu sabia o que tinha acontecido.

Eles me olharam e eu suspirei. Eles me chamaram de Sua Majestade e eu ri. Eu perguntei o que tinha acontecido, pois eu sabia que Blake era muito velho e muito poderoso. Só alguém mais velho poderia matá-lo. E eles disseram. Uma luta com o rei de Manchester, que quer aumentar o seu poder. Aparentemente foi uma luta justa, e todos achavam que agora Romulus Cole tinha duas das principais cidades da Inglaterra em suas mãos.

Até que alguém se lembrou de mim.

***

Sobre a obra

Um ex-vampiro renegado tenta levar uma vida comum em Londres, trabalhando em um hospital e ignorando os pedidos de seu criador, o Rei Vampiro de Londres, para que ele volte à família real vampírica. Até que um dia, ele recebe a notícia que vai mudar tudo: Seu pai e criador está morto e ele é o sucessor do trono.

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Autoria
Persephonne Lynne
Ficha técnica
autoria: Persephonne Lynne
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