RG

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Reinaldo Chaves · Bauru, SP
4/2/2007 · 8 · 0
 

Me abaixei para pegar um documento de identidade que encontrei na rua. Logo vi que tinha o meu rosto, apesar de mais jovem. O nome era outro e a data de nascimento também. Pensei que pudesse ser alguma falsificação, mas o número do documento era diferente do meu.
Guardei no bolso e fui embora pensando no homem da foto. Queria conhecê-lo , saber se é algum parente. No meio da manhã liguei para minha mãe e perguntei se conhecia aquele sujeito. A resposta foi uma pergunta:
- De onde você tirou esse nome?
Nunca gostei desse jeito de me tratar, como se eu sempre estivesse em risco ou fosse retardado. Preferi dizer que ele tinha passado no meu trabalho quando eu não estava e deixado lembranças para mim, mas não havia dito se era amigo ou parente. Seu tom de voz mudou do espanto para o aborrecimento:
- Eu não sei quem é, mas fica longe desse homem... vai saber quem pode ser!
Dei uma risada e me despedi. Antes, porém, ela disse para avisar se ele aparecesse de novo e pediu para passar na sua casa quando acabasse meu expediente. Não me preocupei mais com isso, mais tarde ou outro dia ia falar com um conhecido meu na polícia sobre o documento.
No final do dia fui beber um pouco em um bar perto do trabalho. Velhos ressentimentos também foram ingeridos junto com a cerveja. É isso na verdade que te faz ficar bêbado, na garrafa junto com a bebida eles colocam pequenas porções daquilo que incomodam as pessoas, seja o que querem esconder ou libertar. O álcool só estimula a beber numa quantidade suficiente para que esses monstrinhos possam fazer o serviço dentro do corpo.
A minha dose tinha a frustação com minha família. Esse documento que encontrei na rua bem que poderia ser a chance de me aproximar mais de meus parentes. Sei que eles pedem dinheiro, te julgam, exigem hipocrisia, dão presentes horríveis e várias outras maravilhas, mas dá muita inveja ver meus amigos serem abraçados e beijados pelos pais. Já passei dos 30, tenho meu emprego e minha casa, mas este homem que olha para o fundo de um copo de cerveja num bar esfumaçado queria voltar a ser criança para tentar de novo.
Passei muito tempo culpando quem me criou por essa forma de isolamento. Minha família mal conversa e se vê, sempre foi assim. No final é um ciclo de brutalidade, meus avôs fizeram isso com meus pais também. Um monte de filho para alimentar, quase nenhum ensino, um emprego vagabundo na roça que pagava uma miséria e tirava o couro. Se embebedar e descontar nos filhos era a opção mais fácil mesmo para meus avôs. Foi essa a educação da minha família. É claro que o mundo está cheio de histórias assim, mas isso lógico que não é consolo. Queria mesmo é conhecer alguém parecido comigo, de preferência para beber e chorar.
Após os tradicionais malabarismos para não tropeçar na rua cheguei em casa e caí na cama com a roupa do trabalho mesmo. Não sei ao certo quanto tempo dormi, mas não deve ter sido muito porque acordei com pouca ressaca, apesar de bem cansado. No fim das contas não fez importância, o motivo para ter despertado foi bem pior. Meu pai me ligou e dizia que minha mãe estava morta.
Ele chegou do trabalho e encontrou ela caída no chão com um ferimento de bala no peito. Desliguei e imediatamente comecei a chorar. Além da dor da perda, senti culpa por não ter ido ir ver ela como havia pedido. Fiquei mal também por tudo aquilo que havia pensado no meu porre e de certa forma por ter julgado ela. E também porque percebi a voz embargada de meu pai, um som que nunca tinha ouvido na vida (continua no arquivo...)

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Reinaldo Chaves
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