notei a cena quase corriqueira, por que ela faz isso? a mulher olhava as figuras para em seguida as rasgar. a imagem se repetia várias vezes no banco a frente. ela olhava, ela rasgava. e rasgava e olhava, continuamente. decidi olhar mais atento, mais perto. ela tirou outro papel da bolsa. me aproximei mais e vi, eram pequenas imagens nem um pouco sagradas, contrastavam com sua posse santa – daquele jeito vestida de cinza e de saia – e ela as olhava. as imagens trepavam.
reparei assim que seu olhar continha um sentir a mais. ela os rasgava. me percebi seduzido por aquela mulher em seu honesto pecar. ela se manteve naquele ritual: abria a grande bolsa de pano – daquelas antigas com estampa de flores – e pegava seu lenço gasto e dali retirava as páginas de revista barata para rasgar. não eram só papéis rasgados, eram algo mais a se apagar. eu a admirava quando após juntar um punhado de desonestidades ela erguia o braço, aproveitava a fresta da janela e com um gesto habituado jogava os retalhos ao vento. os papéis aos poucos se espalhavam pela vinte de três de maio. nada a denunciava. foi quando alguém sentou ao seu lado. ela se ajeitou. guardou as folhas. e em alguns momentos ainda tentou olhar e rasgar. não pode. seria revelada, sua face santa desmancharia.
então senti. através do vidro no qual eu a observava, ela também me via. olhos vidrados. em seu tempo aguardou, levantou, me olhou e deu sinal. a pura desceu com sua santa sacola para encontrar outros pares, enquanto eu voltava a caçar novos fragmentos.
uma mulher no ônibus não para de mexer em sua bolsa. gesto repetitivo. o jovem no banco de trás a observa.
http://desmontandodedalus.wordpress.com
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