Sempre há tempo

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Roberta AR · Brasília, DF
11/4/2011 · 0 · 0
 

Dona Menininha era amiga da família e sua casa foi um dos passeios de domingo mais recorrentes da minha infância. Ela nasceu no norte de Minas Gerais, assim como os meus pais, no início do século XX, conta simples, pois ela já tinha por volta de sessenta nos anos 80.

Pelo que me contavam, ela teve um casamento arranjado pela família, mas, logo depois de se casar, fugiu e se mudou para São Paulo. A partir de então, virou uma das mais conhecidas solteironas entre os nativos da região, já que seu casamento foi anulado.

Budista ortodoxa (dá para chamar assim?) ela fazia suas orações todos os dias às seis da tarde com a foto do imperador do Japão pendurada ao lado do altar, que era perfumado com incensos. Apesar disso, não era uma pessoa nada zen. Pelo contrário.

Seu mal-humor era famoso entre todos os conhecidos. Numa certa ocasião, ela recebeu uma sobrinha de Mato Verde (sua cidade natal), que tinha acabado de se mudar para São Paulo. Mesmo para quem não conhece, dá para imaginar que em Minas, já quase na divisa com a Bahia, faz um calor infernal. A sobrinha chegou no pico do inverno e fazia uns dez graus no dia da visita. Ela acabou pernoitando na casa de dona Menininha, que não se incomodou nem um pouco em deixar a menina com uma manta fininha sentada numa cadeira a noite inteira, a pobrezinha ficou traumatizada por anos.

Sua fama se consolidava, até um belo dia, já perto dos setenta anos de idade, ela decidir entrar num desses grupos de terceira idade. Em pouco tempo seu humor mudou e meses depois ela se casou com um senhor que já estava na casa dos oitenta.

Ninguém conhecia um casal mais feliz. Dona Menininha passou a usar roupas floridas e um perfume com aroma refrescante, que trocou pelo antigo aroma de rosas meio mortas. Passou a dar presentes para as sobrinhas e até eu cheguei a ganhar uma lembrancinha em uma das visitas.

Não durou muito entre ela deixar de ser solteira e se tornar viúva, mas nunca mais voltou a ser a mulher ranzinza do passado.

Sobre a obra

ensaio sobre a idade e as possibilidades que não se encerram com a chegada da velhice

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