Foi por acaso, quase sem querer. Já estava anestesiado a estas notÃcias, não me abalo mais como me abalava há alguns poucos anos trás. E sei que não sou o único, já que os jornais sensacionalistas não os reportam mais em meio a músicas de suspense e aos gritos inconformados e hipócritas de um apresentador histérico. Mas foi por acaso, quase sem querer.
Cheguei em casa após o trabalho. Automaticamente, liguei a TV para que a casa não parecesse vazia. Vazia. Apertei uma tecla qualquer no controle e a imagem de uma menina, abraçada aos pais em uma foto de famÃlia, estava congelada na tela. Um sorriso inocente e infantil. Uma menina. Então, atentei-me ao que dizia a TV:
- Uma menina tão pequena, arrancada dos braços de sua mãe! A polÃcia e o governo não podem mais deixar estas coisas acontecerem! É mais um seqüestro na nossa cidade! Estamos nas mãos dos bandidos!
A TV continuava a gritar, mas eu não me importava. Não conseguia tirar os olhos do sorriso inocente da menina. Os pais choravam inconsoláveis, mas não me comoviam. Pensava apenas nos olhos sapecas e espertos da menina.
Enfim, o programa acabou. Desliguei a TV e voltei a me preocupar com o jantar, ainda pensando na menina. A água esquentava para preparar um macarrão instantâneo. Comida de gente solitária. Sozinho. E os cabelos castanhos e lisos que escorriam pelo rosto da menina. Lia, mas não lia as instruções há muito decoradas na cabeça e escritas no pacote de macarrão. Uma menina chorava pois estava longe de sua mãe.
A água ferveu e transbordou da leiteira. Apagou o fogo e fez barulho ao tocar a chapa do fogão. Apesar da sujeira a ser limpa, não resmunguei, como faria costumeiramente. Reacendi o fogo e coloquei o macarrão dentro da leiteira. Cutucava a massa com um garfo para ficar pronto mais rápido e o pensamento, cada vez mais, se dirigia à menina.
A TV nada mais ofereceria de interessante e fui tomar um banho para dormir. O outro dia é sempre um novo dia. Mas sonhei com um sorriso inocente e infantil, com olhos sapecas e espertos, emoldurados por um cabelinho liso castanho e bochechas gordinhas.
O outro dia é sempre um novo dia. Acorde, levantei, fui ao bar da esquina e tomei meu café-com-leite de sempre. O jornal do dia repousava ainda intocável sobre o balcão. Uma nota pequena, no rodapé da capa, dizia: “Menina de 6 anos foi seqüestrada ontemâ€.
A pequena me perseguia. Quase podia ouvir seus passos saltitantes atrás de mim. Mas peguei a condução que me levaria ao serviço. Mecanicamente. Há quanto tempo eu fazia isso?
Bati o cartão de ponto. Tomei mais um café. Sentei-me de frente ao computador e coloquei os fone para começar a trabalhar. Telemarketing. Uma, duas, três horas depois. Levantei-me para tomar um café. Voltei. No computador de um colega, vejo um site. Toquei seu ombro. Ele pulou.
- Que susto, cara! Pensei que era o supervisor!
- Como você acessou o site? Não é bloqueado?
- Bloqueado é, não? Mas a gente sempre dá um jeito! – ele sorriu sacana, como se driblar a segurança do bloqueio de sites fosse incrivelmente mais esperto.
- Faz isso no meu computador? Preciso ver algo urgente!
- Claro! Afinal, somos amigos, não? – ele se levantou e bateu no meu ombro com camaradagem. Definitivamente, não. Não somos amigos.
Com uma seqüência de teclas que não pude acompanhar, a internet ficou livre.
- Aà está, cara! Liberado! – ele se levantou e voltou para o seu computador.
Sentei-me. Abri o primeiro site de notÃcias que apareceu. Busquei o seqüestro. Nada. Outro site. Uma pequena nota: “PolÃcia não divulgará nada à imprensa sobre o seqüestro de ontem para que não atrapalhe as investigaçõesâ€. Nada mais. E não haveria nada mais até o fim, sendo ele bom ou mal.
Uma semana. Acordei com uma febre alta. Nunca fiquei muito doente, mas a febre não advinha de doença alguma. Uma menina bochechuda e travessa ainda está longe de casa e eu não conseguia dormir ou comer direito.
Um mês. As paredes de minha casa me sufocavam e quase não fico mais parado. Minha mãe veio de longe pois eu não atendia aos seus telefonemas e porque foi informada que eu fui demitido com justa causa. Abandono de emprego. Não sei como, consegui tranqüilizá-la e ela partiu.
Dois meses. Continuei andando pelas ruas. Buscava suspeitos com meus olhos arregalados e paranóicos. Hoje em dia, qualquer um pode ser um bandido. Na cidade grande, ninguém tem tempo para se preocupar com os outros ou com a forma com que os outros te olham. Então, qualquer olhar esquivo pode ser suspeito.
E numa esquina de um quarteirão tão próximo de casa. Meus olhos loucos pousaram nos olhos de um homem comum. Ele esquivou depressa, com medo. Medo! Sim, ele tinha medo porque eu sabia! Dei meia volta e o agarrei pela roupa.
- Cadê a menina, seu desgraçado! Onde ela 'tá? Fala, cachorro!
E bati nele com vontade, descarreguei toda a ansiedade contida. Não ouvia seus gritos, nem das pessoas que vieram me separar dele. Elas apenas tentavam, porque eu me agarrava a ele e socava. Então, chegou a polÃcia. Eles conseguiram me separar. Algemaram-me. Falaram alguma coisa. Me jogaram no camburão. Dirigiram frenéticos pelas ruas. Pararam em uma delegacia. Havia carros de televisão. Me tiraram do camburão e me empurraram para dentro da delegacia. Lá, uma repórter falava para a câmera:
- É o fim de mais um seqüestro! A pequena Ana, que foi levada há dois meses da porta de sua escola, foi entregue aos seus pais hoje. Aqui, olha o reencontro! Que emocionante!
E eu vi um rostinho bochechudo, com olhos sapecas e espertos, um sorriso inocente e infantil emoldurado por um cabelo castanho liso surgir no meio de um casal que chorava emocionado. A pose era igual a foto que vi dois meses antes. O nome da menina era Ana. E enquanto era levado, gritei:
- Aninha! Você voltou! Aninha!
O rostinho voltou para trás, por cima dos ombros zelosos dos pais. Não sabia quem era o estranho que a chamava e me ignorou. Escondeu-se na mãe. E eu continuei comigo mesmo:
- Aninha! Você voltou! Aninha, Aninha…
Um homem atormentado por mais um caso de seqüestro nas cidades.
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