Sob o céu do Rajastão

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Ernesto Olivatto · São Paulo, SP
14/4/2007 · 31 · 1
 

Fiz que não vi quando a figura perfumada virou a esquina. Nem precisava estar perto para sentir o ardor nas narinas, memória do dia anterior que fez o frescor inebriante do sândalo perdurar noite
adentro - em Delhi nesta época as noites são quentes e qualquer distração serve para alimentar os insones de motivos para tranquilizar a lua de sua solidão, mesmo que com poemas rasos de amantes relapsos e impacientes.

Tanto quanto pude me concentrei no caminho que restava até a estação Purani Dilli, aflito com a perspectiva de ter de trocar palavras sem graça justamente neste momento em que conseguira o financiamento para a viagem à Caxemira de onde, imaginava, tomaria um novo rumo no trabalho iniciado no The Telegraph – lembrava antes de vê-la, enquanto caminhava, da sala esfumaçada dos repórteres dando longas baforadas enquanto esmurravam os teclados e eu, fitando a rua gelada de Brixton e imaginando a terra de mil e uma noites, de mil especiariais, mil tecidos, mil idiomas.

E naquele momento não havia espaço para romances, não queria ter de mexer um dedo sequer nos planos, mas as doses a mais na semana passada me fizeram quebrar o ciclo: quando vi lá estava falando mentiras e fazendo tudo aquilo que homens fazem no exercício da masculinidade tosca. E assim foi até hoje, quando planejava furtivamente minha saída sem deixar vestígios, pois não queria provocar cobrança do pedido de casamento que havia feito sob efeito do charas tampouco me decepcionar caso Parvati não caísse em prantos ajoelhando-se e suplicando por mais uma noite, "My Lord" – só que a mochila nas costas e a proximidade da estação não deixava dúvidas e antes que pudesse me embrenhar namultidão ouvi o sotaque do rajastão colado na minha nuca e o toque no ombro e, de súbito, o peso da sua mão aberta estapeou-me na face e senti, pela primeira vez na vida, vergonha.

Não era a vergonha dos criminosos, dos traidores, mas a vergonha dos medrosos apanhados em seu momento mais frágil. Como enfrentar não fosse uma opção, fugi, esgueirando-me dentre os dabbawallas e suas marmitas cheirosas (sinal dos tempos: Delhi importou o costume de Mumbai) e quase atropelando um saddhu que esmolava por ali. Parvati abria caminho gritando em hindi, incansável na perseguição e simplesmente arremessou ao lado da plataforma o artesão que carregava um enorme gongo de cobre, possivelmente de cunho religioso. O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Ninguém era louco o suficiente para conter uma mulher em fúria, e temi pela minha segurança na qualidade de representante do Raj britânico que como num enredo de Bolllywood tirava uma filha Mughal do seu sonho romântico.

Deixei a mochila no chão e esperei a turba que se formou em solidariedade. Eram duas e quinze da tarde e não lembrava mais do que ia fazer no dia seguinte, sentia calafrios e que minha coluna, como um graveto, estava pronta a quebrar.


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Autoria
Bruno Ferraz de Camargo - São Paulo
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Fernando Niero
 

" no exercício da masculinidade tosca" foi uma boa sacada
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abraços

Fernando Niero · São Paulo, SP 14/4/2007 23:03
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