Tosquiador da desesperança

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Simone M. e Mendes · Maceió, AL
5/11/2011 · 0 · 0
 

Poderia ter sido enredo de “Vidas Secas”, se contemporâneo de Graciliano Ramos fosse. Mas sua vida não foi registrada por nenhum biógrafo, não servira de inspiração para nenhum romancista. Cada linha está escrita na tela de sua mente. Na medida em que vai sendo recontada, num qualquer repente, suscita ouvintes boquiabertos ao deparar-se com a superação encarnada num homem altivo, sábio, ponderado, forjado para o improviso. Um coração generoso costurado com pele de jacaré, o de um nordestino genuíno.
Conta que, pouco a pouco, seus irmãos iam sendo dizimados pelas mazelas, até hoje, campeadas no sertão cearense, onde rico era quem dispunha de um jegue. A seleção natural urdida pela miséria poupou apenas sete de uma dúzia dos filhos de seus destemidos pais, cuja única fortuna era a inquebrantável fé. Quando um adoecia, normalmente, açoitado pela disenteria, seus resignados genitores já o recomendavam a Deus. “Venha, meu filho, vamos cortar tábuas para o caixão de seu irmãozinho, que, pelo estado de abatimento, de amanhã não passa”. Chorar não deveria para não desperdiçar água, pois cada lágrima o corpo cobraria. Aliás, ainda que tentasse infringir essa regra de sobrevivência, antes que a lágrima se precipitasse o sol causticante a secaria.
Desse irmão a morte desistiu, porque a vida lhe requisitou para pastoreio de muitas ovelhas. Com a família reunida em assembleia, uma decisão foi tomada: deixaria aquelas plagas de solo sulcado, de terra desidratada, onde desfrutava de dignidade humana aquele que conseguisse respirar. Com as tábuas cortadas para o caixão, confeccionou uma mala. Os pertences da casa foram nela acondicionados e os “andrajos” das nove pessoas da família, em dois sacos de açúcar. Num velho jipe, que fazia o serviço de transporte de retirantes, em condições pior do que “pau de arara”, seguiu comendo poeira por longas horas. Entrou na estatística do êxodo rural. Chegar a Fortaleza foi a conquista da “terra prometida”. Romperia os grilhões da fome, salvaria a prole da ignorância.
Nessa capital, que estômago cheio prometia, seu pai foi servil à construção civil. Na casa de taipa e chão batido, em um distante subúrbio, hauria-se a atmosfera de um lar. Com os trocos de cada feira, ia substituindo parede por parede por alvenaria: um tijolo unido a outro, unidos com a argamassa do amor, preparada com o suor de cada dia.
A vida foi dando indícios de melhora. Ele, por sua vez, aos sete anos conhecera escova de dente, de que não mais prescindiu para cumprir as regras básicas de higiene. Quanto a seus pais, que sequer sabiam acompanhar o tracejado das letras na cartilha, sempre sonhavam com os filhos doutores.
Somente aos nove, ele foi alfabetizado. Fez teologia e entregou-se, também, à missão de pastorear ovelhas e tosquiar qualquer desesperança. Bacharelou-se em Direito e prestou concurso de nível superior. Por muito pouco não galgou a magistratura em outro concurso prestado. Por enquanto, busca ser pastor das ovelhas perdidas às margens do “Velho Chico”.
Simone Moura e Mendes

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Simone Moura e Mendes
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www.simonemouramendes.com
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