Um amor de fantasia

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Vanessa Souza · Rio de Janeiro, RJ
25/1/2009 · 54 · 0
 

Ele me mostrou seu livro. E, de brinde, o talento para as artes. Como sempre, como já esperado, como ocorrera desde o primeiro encontro, casual, o danado me surpreendeu, mais uma vez. Não imaginava que mãos tão ágeis e deselegantes ao teclar o notebook, poder-se-iam revelar habilidosas autoras de uma peça cuja delicateza me emociona ainda hoje, décadas depois de seu lançamento.

Era, sim, um livro. Era, sim, produzido por um jornalista. Era, sim, uma obra diferencial. Por quê? Talvez por seu vocabulário reduzido, pouco mais de vinte palavras. Talvez por ser de pano, um bonito trabalho artesanal. Talvez, ou certamente, por conter uma mensagem de amor. Talvez, ou remotamente, porque a mensagem fora destinada a mim.

Quem sou eu? Uma apaixonada sem ilusões? Talvez. Uma, e quem sabe, única, protagonista de um amor de fantasia? Talvez. Ou uma, e seguramente, única, que conhece o motivador desse sentimento manifesto todas as noites. Sentimento que acorda e ainda desperta vivo pelas manhãs. Que adormece e morre com as conveniências do dia-a-dia.

Temo por decepcionar os mais românticos, aqueles que creditam o amor de fantasia comparado ao amor de contos de fadas, aqueles que, sinto em informar, estão errados, equivocados, ultrapassados. Infelizmente.

Sejamos práticos, apesar de qualquer provérbio que oriente o contrário. Eu não conheço as razões que a própria razão desconhece. Por isso afirmo que, se apenas eu, logo eu, uma mulher conformada com a prática de ocultá-lo, uma mulher que não ousa pronunciar-lhe de olhos abertos, uma mulher que não o revela nem sob tortura. Se apenas eu, essa mulher, poderia vivê-lo, então esse amor está morto. Nasceu morto. Sem direito a choro. Sem luta. Sem trela.

Pode parecer irônico, e acredite, também julgo contraditório viver por um amor nessas condições, mas eu o vivo. E tenho estórias a relatar sobre ele. Muitas estórias, por sinal.

Enfim, não sou uma mulher corajosa. Não faço o tipo inconsequente que arrisca tudo por uma paixão... Desde que eu esteja acordada, é claro! Pois no meu mundo hedonista particular, o danado de mãos talentosas e eu, uma destemida aventureira sem limites, vivemos juntos há duas décadas. E a mensagem registrada no livro de pano era, sim, destinada a mim. Estava declarado, quase sem palavras:

"Como deusa poderosa que és, você me construiu. Como servo fiel e amoroso, amo-te imensamente. Mas não sou um homem, sou tua obra. E tudo o que represento representa um instrumento para as suas palavras. Sou o que você quer que eu seja. E até os meus sentimentos estão sujeitos ao humor da sua imaginação. Temos uma estória quando dorme, e por vezes penso em acordá-la. Como seria bom poder usar as minhas próprias palavras para te conquistar! Mas sei que esse gesto a condenaria à frustração. Não posso disputar com um sonho. Não sou perfeito. Não fora do sonho."

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