Um brevíssimo tratado sobre o amor

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Milena Azevedo · Natal, RN
9/3/2006 · 67 · 0
 

O amor já foi deveras cantado, estudado, desprezado, endeusado por tantos – notórios e desconhecidos –, ao longo das primaveras dos tempos. Tentou-se até ensinar o amor em manuais. No entanto, nem o Kama Sutra e muito menos Ovídio, conseguiram dar conta da sua essência. Aqueles que chegaram mais perto, foram os que optaram pela interrogação. Mas somente os loucos, desafiando toda e qualquer convenção, foram capazes de falar sobre o amor são.
Se me perguntas sobre o mais nobre dos sentimentos, só posso responder-te na penumbra de um quarto, balançando-me em uma rede, ao som de Van Morrison ou de Roy Orbison.
Concordo com Rilke, para quem o amor é antes de tudo uma aprendizagem. Para o referido poeta, amar não é simplesmente “entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoaâ€, mas sim “uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro serâ€. Em outras palavras, o amor faz com que nós nos conheçamos melhor e aprendamos a conhecer o outro, porque cada um de nós somos um todo, não uma metade a ser completada.
Talvez o escritor francês Michel Houellebecq tenha razão quando escreve que o amor é um “fenômeno raro, artificial e tardioâ€, e que “só pode desabrochar em condições espirituais especiais, raramente reunidas, em todos os pontos opostas à liberdade de costumes característica da época moderna.â€
Quem sabe amor rime mesmo com dor, como afirma Philip K. Dick, escritor norte-americano: “e não se pode sentir o sofrimento a menos que já se tenha amado antes. O sofrimento é o resultado final do amor, porque é o amor perdido.â€
Mas o que sei é que a pressa mata o amor. A pressa é para os apaixonados. O amor é espera, em todos os sentidos. A ânsia pelo gozo imediato priva o gozo completo de uma vida. Contudo, não estou afirmando que o amor é calmo, parado, inerte; justamente porque é o amor quem nos tira da nossa ignóbil inércia.
Há diversas outras forma de matar o amor, mas não quero escrever sobre sua morte, e sim sobre a centelha que o traz à existência.
O amor pode estar em uma lágrima, em um gemido, em um sorriso ou em um beijo na testa. Quando há cumplicidade, o amor pode tudo. Se o diálogo falta, o amor enfraquece.
São várias as gradações do amor, como vários são os tipos e os sentidos do amor. É necessário respeitar cada um deles, afinal amor é transcendência.
Saramago, velho escritor comunista, já deixou escapar essa máxima na fala de um de seus tantos personagens: “...mais nos pertence o que veio oferecer-se a nós do que aquilo que tivemos de conquistar...â€.
Só se ensina o que é o amor a quem a gente aprendeu o que é amar. E amar nada mais é do que aprender a ver o céu, a enxergar fundo dentro dos olhos do outro, a conhecer almas. Amar é especial, mágico, quase divino, mas deveras simples. Somos nós quem teimamos em complicar.
Há quem diga que o amor não passa de uma reação química, de uma troca de energia, de uma mistura de fluidos. Há até matemáticos com fórmulas para calcular a precisão do amor. Há os que fazem distinção entre amor e sexo. Há os que não fazem. Há quem ame muito e muitos. Há quem ame a um só. Há os quem têm medo de amar. Mas não há nada mais verdadeiro do que o título de um dos livros de Drummond: “amar se aprende amandoâ€.
E para encerrar esse texto, só mesmo a estrofe última do poema “Ouvir Estrelasâ€, de Olavo Bilac, na qual ele responde ao imaginário amigo, que está duvidando da lucidez do poeta parnasiano: “amai para entendê-las!/ pois só quem ama pode ter ouvido/ capaz de ouvir e de entender estrelas".

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Autoria
Milena Azevedo (historiadora, micro-empresária, poeta e contista, natural de Natal, capital do RN.

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