Urubus deliciando-se com a carniça atropelada na beira da estrada. Urubus brigando pela manutenção da hierarquia. Urubus tentando justificar seu papel na cadeia alimentar. Cabe a eles o tipo de serviço que ninguém quer fazer. Urubus adoram dias de sol, quando podem esquentar suas asas, desinfetando as penas do fétido bolor que o ar exala. Os miolos ferventes que eles disputam a bicadas.
Ao longe, uma garça acompanha seu balé e levanta vôo ratificando-se da inverossimilhança que a realidade apresenta. Levanta vôo incrédula e protetora. Amanhã pode ser sua vez, ou da ninhada, mas ela não quer pensar nisso. Enquanto levanta vôo em direção ao mangue, os urubus permanecem no asfalto que provoca miragens, lutando pela sobrevivência covarde e honesta que a natureza lhes reservou.
Urubus não virão bater à minha porta. Porque urubus sabem esperar. Respeitam todas as criaturas que ainda guardam uma centelha de vida. Hoje um deles caiu desavisado no chão. E talvez não sobre pedaço para contar a história. Da carniça do urubu, quem cuida? Será que urubus reconhecem famÃlia? Ou todos em seus trajes de luto são o mesmo urubu de tempos imemoriais?
Quando tudo começou é incerto. Fato é que o brilho azulado de sua penugem afugenta qualquer um que observe os cÃrculos concêntricos que traçam no céu. À distância, pode-se saber da presença irremediável da morte e tomar uma distância ainda maior, como se garças não se tornassem o urubu caÃdo.
Eles não virão bater à minha porta. Não são renegados, apenas não se escolhe falar sobre eles. Escondidos no descampado, seguindo com sua paciência grupal, os batimentos cardÃacos os ensurdecem até à loucura. Não podem, não querem ouvir. Silenciosos apaziguadores. Saliências e reentrâncias da vida que abdica da matéria. Seriam sábios? Seriam inescrupulosos os urubus? Aproveitadores. Mequetrefes. Dissimuladores.
A frente fria desponta das montanhas, e talvez a água lave até desbotar suas penas cor de carvão. Eles se afugentariam horrorizados, mas o corpo permaneceria lá, à sua espera na beira da estrada. E ainda que as forças inconseqüentes da natureza seguindo seu curso os amedrontem profundamente, eles conseguem olhar mais longe, e enxergar oportunidades onde sequer se imagine que existam. O urubu não é predador dos urubus, das garças ou dos homens. O cadáver de vestimenta negra aguardará seu destino. Talvez eles reconheçam famÃlia, e o encomendem como deve ser feito, arrendando um pedaço do Céu. A garça que levantou vôo sorriria de lado, como quem diz: “A minha hora não chegouâ€. Ia se fazer de desentendida, protegeria o ninho daquelas que são jovens demais para entender o que é o fim.
A natureza tem suas próprias leis, que são maleáveis, e amanhã pode ser dia da garça, como hoje foi do urubu. Urubus não renegam. Urubus são enxotados. Temidos. Malgrados. Seu agouro arrepia os mais sensÃveis. Urubus não desistem. Não disputam espaço com os caçadores. Não precisam de ferramentas para matar. Parasitam. Não virão bater à minha porta. Não aceitarão milho de bom grado. Escolherão. Espreitarão. Entontecerão.
As nuvens tornam-se cinzentas, como deveriam ser todos os dias de velório. A natureza chora a perda de seus filhos, mas os sacrifica impiedosamente. Hoje foi dia do urubu. E sua famÃlia afugenta-se com a chuva.
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