Entra Zé Boceta, visivelmente transtornado.
Urutu Branco - Ó! Só falar na margarida! Zé Boceta, o papo aqui era boceta, diz aí você que é especialista!
Zé Boceta - Falar o que, Urutu? O que tu quer que eu fale? Não faz diferença o que fale ou deixe de falar.
Urutu Branco - Taí um cara esclarecido!
Zé Boceta - Mas se tu quer saber, me chamo Zé Boceta porque na minha terra, quando o cara sofre um corte, diz que abriu uma boceta nele. Como tenho um bocetão aqui nas costas (levanta a camisa e mostra a grande cicatriz) fiquei Zé Boceta. Não que eu não goste de boceta, mas o boceta do nome é por causa da cicatriz. Tem muito Zé Boceta na minha terra porque lá a ziquizira é na peixeira.
Urutu Branco - Que curioso! Por que nunca tinha me contado?
Zé Boceta - E tu por acaso ouve o que eu falo?
Urutu Branco - Ouvi de bom grado a explicação sobre o teu nome, o que muito me satisfez.
Zé Boceta - E por que caralho tu precisa saber por que as coisas tem um nome ou deixam de ter? Eu sou o Zé Boceta, isso é uma cadeira, isso é uma arma, dentro dela cabem balas e essas balas esburacam os outros. Tu é o Urutu Branco e esse morro, tu sabe qual é o nome desse morro!
Urutu Branco - Sei? Qual o nome desse morro, Peçonha?
Peçonha - Morro do Urutu Branco, porra!
Urutu Branco - É isso mesmo, Catiranga?
Catiranga - Que eu me lembre sempre foi.
Urutu Branco - É isso, João Bala?
João Bala – Qualquer idiota sabe disso.
Urutu Branco - E tu, Zé Boceta? Sabe qual é o nome desse morro? Sabe de uma coisa, Zé Boceta? Se tu conspirasse contra mim, se tu me matasse, me desse um tiro pelas costas e tomasse conta de todas as... são quantas bocas mesmo, Catiranga?
Catiranga - Mais de quarenta! E sempre em frente!
Urutu Branco - .... de todas as mais de quarenta bocas, e ficasse sendo o chefe do morro – o que seria muito natural – eu te daria razão. Na verdade, ia te admirar. Sim, se tu tivesse coragem de me matar, eu morria feliz. De saber que tu não foi um covarde.
Silêncio.
Zé Boceta - Tu mudou, Urutu. Te conheço de outros carnavais e sei que tu mudou. Pra pior.
Urutu Branco - Olha, aqui entre nós, acho que mudei pra melhor, pra muito melhor!
Peçonha - Isso com certeza, mas o que é Zé Boceta falou faz sentido. Tu tem que relaxar mais, Urutu!
Urutu Branco – Ah é, Peçonha? Então faz assim: enfia esse taco no cu. (entrega-lhe o taco de bilhar) – e to falando sério hein? Sem talquinho!
Peçonha - Porra, Urutu!
Urutu Branco - Ah, hesitou? Sabe o que ganha na vida um cara que hesita? (pega o taco de volta, quebra-lhe ao meio com uma joelhada e entrega as duas metades) – um no cu e outro na boca. Até a garganta e até o estômago. Se um encontrar com o outro melhor, juro que te pago cem mil dólares.
Catiranga: Cem mil dólares é muito dinheiro! Ta com uma conta no Caribe, Urutu?
Urutu Branco - Sempre tive, porra, pra vocês eu deixo as migalhas. Faz o seguinte: fica todo mundo olhando se ele faz o negócio certinho enquanto vou ali na laje tomar uma brisa e dar uma mijada, fiquem aí à vontade. E tu, Zé Boceta, ainda preciso falar contigo. Ouvi umas histórias aí. Tu sempre fazendo merda!
Urutu sai e deixa os bandidos sozinhos. O clima é pesado e ninguém fala nada. Todos se olham esperando o primeiro conspirador.
Peçonha - Não enfiar porra nenhuma no cu, tudo tem um limite.
João Bala – Eu não sou contra nem a favor. Vocês que se explodam.
Zé Boceta – Vocês tão vendo o jeito que o cara ta! Isso não ta certo, caralho!
Catiranga – E o que tu vai fazer, dar um tiro no bandido mais respeitado da cidade?
Zé Boceta - Antes que ele dê um tiro em mim!
Catiranga – A Zilda falou, isso aí por causa de mulher! Homem quando pira é sempre por causa de mulher!
Zé Boceta - Não, isso vai muito além. Faz tempo que vem ficando cada vez pior, cada vez mais cruel, como se o coração dele estivesse apodrecendo.
Catiranga – Eu só sei que eu não sei de nada e nem quero ouvir conversa! Vou ouvir aqui a minha musiquinha e nem sei nada. (bota os fones no ouvido).
Peçonha - E Tu, Roberval? Também não sabe de nada e não viu nada?
Roberval (que estivera calado no canto até então) – Sei que em boca fechada não entra mosca.
Zé Boceta – Eu to falando que o cara entrou numa de ser mal e ta achando divertido. Olha aqui, olha aqui (vai até uma estante onde estão vários livros e os vai tirando e mostrando) – livros sobre imperadores romanos que queimavam cidades, príncipes hindus que promoviam orgias e carnificinas, sacrifícios humanos. Olha esse aqui: “Um perfil antropológico dos grandes assassinos.” To falando pra vocês.
Roberval – O cara é intelectual.
Zé Boceta - Sim, até demais. Agora diz que é um espírito-livre nietzcheano.
João Bala - Nietzcheano?
Zé Boceta – É, seja lá o que for essa merda! Diz também que é niilista!
Peçonha – Nietzheano, niilista, que merda! Era mais fácil quando ele era pagodeiro e flamenguista!
Zé Boceta – Pois é, depois que ele começou a andar com diretor de cinema, com atriz de novela, ele olha pra gente como se fosse lixo. Ele tem vergonha de ser do morro.
Roberval - Ruim com ele pior sem ele, ia ser de novo um dono no morro por mês. E ele é o dono do morro há o que?, dez anos? Acabou o crime, a polícia não passa nem perto. Botou escola, esgoto e o caralho. O cara é o estado e a lei. Eu respeito.
Zé Boceta - Eu também, mas ele pirou! Neguinho pira, porra!
Urutu entra.
Urutu Branco (imitando ridiculamente Zé Boceta) - “Neguinho pira, porra!” Hahaha. Vem cá, seu fanfarrão, me dá um abraço! (abraça-lhe) Seu safado! Ataque soviético, ataque soviético! (começa a pipoca-lo com as mãos e induz os outros a fazerem o mesmo) Bora galera, ataque soviético! Bum-bum-bum! (todos o imitam, constrangidos. Zé Boceta está espumando de raiva) Quéisso, Zé Boceta, não conhece esse filme? Não dá valor no cinema nacional?
Zé Boceta - Não, não conheço essa merda.
Urutu Branco - É brincadeira, porra! E ó: tu tem que ver uns filminhos, ler umas paradinhas. Tem que deixar de fuleragem!
Zé Boceta - A gente é tudo fulero pra tu.
Urutu Branco - Mas são gente boa. E aí Peçonha, enfiou o vergalho no olho de Tandera?
Peçonha - Porra, Urutu!
Urutu Branco - Porra Urutu é o caralho! O que falo é lei e quem não cumpre a lei vai virá rango de verme! Morre, féla da puta!
Dá-lhe um tiro no peito.
Urutu Branco - Hahaha. Ataque soviético! Hahaha! Hahaha (gargalha ridiculamente).
Silêncio constrangedor.
Urutu Branco- E aí Catiranga, já agilizou o lance da festa?
Catiranga - Pra quando?
Urutu Branco - Pra ontem, Catiranga! Cadê, eu quero ver esse morro pegar fogo, quero fogo de artifício, o funk no último! É pra ontem, cinqüenta quilos hein!
Catiranga - Tem certeza Urutu? Pensa bem.
Urutu Branco - Você tá sugerindo que eu não penso?
Catiranga - Claro que não!
Urutu Branco - Acha que eu falo por falar?
Catiranga - O que tu fala é a lei.
Urutu Branco - É o que eu sempre digo, o que eu falo é a lei. Então desaparece da minha frente e bota a cobra pra fumar.
Catiranga - É pra já, Urutu. Vou dar um festão. Tamo comemorando algo?
Urutu Branco - Tamo comemorando a vinda do terceiro profeta no terceiro dia da criação com três milênios de atraso.
Catiranga- Se você ta dizendo.
Urutu Branco - E tu João, cadê o meu cimento?
João Bala - Que cimento!
Urutu Branco - O cimento dos arcos do morro! Do Cristo! Cadê? Tu sumiu com meu cimento, féla da puta?
João Bala - Sumi mas já vou achar.
Urutu Branco - Quero os arcos mais lindos da cidade! Os arcos do Morro do Urutu Branco! E um Cristo! Um Cristo com um baita vergalhão armado! Hahahaha! Como sou pós-moderno!
Cena IV: Gritaria, tiros de metralhadora e fogos de artifício. Urutu Branco e Zé Boceta estão jogando bilhar e tomando cerveja.
Urutu Branco - E aí, ainda não me contou como foi.
Zé Boceta - Como foi o que?
Urutu Branco - Matou todo mundo que eu mandei?
Zé Boceta - Matei.
Urutu Branco - E então?
Zé Boceta - E então nada. Foi sórdido.
Urutu Branco - E que mais? Sórdido e que mais? Fala pra mim.
Zé Boceta - Não sei o que dizer.
Urutu Branco - Sei porque.
Zé Boceta - Por que o que?
Urutu Branco - Você não sabe o que dizer. Por que é um burro, um ignorante que não sabe articular meia dúzia de frases e que nem imagina o que seja uma metáfora. Você precisa de alguém que traduza isso que ta aí dentro, alguém que saiba usar as palavras, tipo um escritor. Vai, me acha um.
Zé Boceta - Um o que?
Urutu Branco - Um escritor, porra! Qual é a dificuldade? Tenho que repetir tudo trezentas vezes?
Zé Boceta sai. Urutu fica olhando a festa lá pela janela e acende um cigarro. Depois de um tempo, Zé Boceta volta com um sujeito qualquer.
Zé Boceta - Esse aqui diz que é escritor.
Urutu Branco - O que escreve, homem?
Escritor - Contos e crônicas.
Urutu Branco - Então é um artista?
Escritor- Tento ser.
Urutu Branco - Transforma em palavra tudo o que a gente sente, amor, ódio, essa porra toda?
Escritor - Na verdade eu...
Urutu Branco - E de alguma forma, mesmo que diagonal, mesmo que inconsciente, você tenta dar um – hrnsffffff (segurando o riso) - sentido pra vida... você tem uma busca espiritual, tem perguntas sinceras e verdadeiras dentro do coração... to te sacando... porque escreve essas paradinhas tu pensa que é melhor que os outros, que vai entrar pra história depois que todo mundo virar pó... que vai sobreviver...
Escritor- Também não é assim...
Urutu Branco - Pertence a alguma vanguarda? A algum clubinho?
Escritor- Não.
Urutu Branco - No que escreve tem sexo? Tem morte?
Escritor-- Tem um pouco de tudo...
Urutu Branco - E assassinos? Já escreveu como se fosse um assassino? É o exercício mais primário de qualquer escritor.
Escritor - Na verdade ainda não.
Urutu Branco - O que diria um covarde ao assassinar uma família? Espaço um e meio, alinhamento justificado, pode começar.
Senta-se muito entretido, como se fosse assistir um filme. O escritor e Zé Boceta se olham. O escritor começa, meio precariamente:
Escritor - Chovia naquele dia...
Urutu Branco – Horrível! Começa de outro jeito.
Escritor - Peguei a pistola e guardei na cintura.
Urutu Branco - Que coisa horrível, sei que pode fazer melhor. Não me venha com descrições enfadonhas. Quero fluxos de consciência delirantes e megalomaníacos.
Escritor - Hoje vou matar alguém.
Urutu Branco - Ah, vai? Espero que não seja eu, hahaha!
Escritor - O café está mais amargo do que nunca. Nada me tira esse gosto de morte da boca.
Urutu Branco - Camarada, vou te dar um Jabuti, vou te dar um Pulitzer, pago quanto for pra te darem um Nobel! Que sentimento! Continua assim: eu, Zé Boceta, sou um covarde assassino, um torpe...
Escritor - Eu, Zé Boceta, sou um covarde assassino, um torpe, um pusilânime...
Urutu Branco - Um pusilâmine! É a palavra mais linda que já ouvi! Que vocabulário!
Escritor - Vil e rancoroso...
Urutu Branco - Sim, esse Zé Boceta é mesmo vil e rancoroso, como vocês escritores são perspicazes!
Escritor - E que mal há em matar um homem, se não existe deus nem eternidade...
Urutu Branco - Sim, qualquer criança sabe que não existe deus nem eternidade...
Escritor - Só tenho que me esquivar da justiça dos homens...
Urutu Branco - Será que Zé Boceta vai sair dessa? Será que vai ceder à loucura? Será que vai virar homem e finalmente falar alguma coisa? Adoro um suspense.
Silêncio.
Urutu Branco - Te falaram que mudei o nome do morro?
Escritor - Mudou?
Urutu Branco - Agora é morro do Urutu Branco. Sabe quem é Urutu Branco?
Escritor - Você.
Urutu Branco - Eu, claro, mas sabe por que meu pai me deu esse nome?
Escritor - Não.
Urutu Branco - Era o personagem de um livro. O dito “maior romance brasileiro do século XX.” Já leu?
Escritor - Não.
Urutu Branco - Como assim! Tem que ler os clássicos, camarada! (vai até a estante e tira uma edição de Grande Sertão: Veredas) – Toma, pode ficar. Meu pai era um intelectual que comeu a empregada. Nasci eu.
Escritor - Vou ler.
Urutu Branco - Não é muito fã?
Escritor - Sou um escritor urbano, escrevo sobre dinheiro, poluição e sexo casual.
Urutu Branco - Claro, não vai perder o bonde da história. E tu, Zé Boceta, já leu?
Zé Boceta - Se sabe que não, por que é que pergunta?
Urutu Branco - Só verificando.
De repente, ouve-se o barulho de tiros, cada vez mais perto. Catiranga entra esbaforida pela porta, gritando:
Catiranga – Os cara do morro da Cebola tão chegando aí, vai ter guerra, vai ter guerra!
Urutu Branco - Pipoca eles, Catiranga! Arregaça! Quero ver bala pra todo lado!
Catiranga - Bora, Zé Boceta!
Zé Boceta (para Urutu) – Isso é culpa tua! É tudo culpa tua!
Ambos saem. Ficam Urutu Branco e o escritor.
Urutu Branco - Senta aí, senta aí. Vamos, dialoguemos.
Sentam-se um de frente para o outro.
Urutu Branco - Bem, outro dia estava lendo um aforismo de Deleuze sobre o corpo sem órgãos e sobre a desconstrução da imagem e pensei comigo mesmo: ora, isso me soa como uma releitura estruturalista de Heidegger. Compreende o que eu digo?
Escritor - Claro.
Urutu Branco - E pensei comigo mesmo também: na verdade tudo é a releitura de uma releitura de uma apropriação de um mito primário e esse mito proto-original já era antigo e quase mítico quando os primeiros jônios começaram a colonizar a Península do Peloponeso...
Escritor - Já leu o livro egípcio dos mortos?
Urutu Branco - Não, mas vi uma versão surrealista de Medeia no teatro Municipal que foi de gritar “Bravo!” e olha que acho meio antiquado isso.
Escritor - É impressionante o teatro grego, mas gosto mesmo é ficção científica...
Urutu Branco - Que bom que disse isso, porque sempre quis saber que caralhada simbólica é aquela no final de 2001...
Escritor - Ora, a cápsula espacial nada mais é do que uma gota de esperma que entra no túnel de luz e deságua num planeta. O monolito significa nossa eterna incompreesão perante o universo.
Urutu Branco - Se nunca compreendemos nada, por que sempre continuamos perguntando?
De repente entra Roberval.
Roberval - Urutu?
Urutu Branco - Fala.
Roberval - Escorraçamos cara, ta tudo liberado!
Urutu Branco – Então vamo comemorar. É festa no morro Roberval! É festa no morro!
Cena V: Ao fundo, os arcos do morro e a estátua de um Cristo com o caralhão armado. Barulho de tiros e fogos. Urutu Branco e Zé Boceta jogam bilhar. Zé Boceta cheira uma grande carreira de pó.
Urutu Branco - Ta valente hoje, hein Zé Boceta?
Zé Boceta - Hoje eu to. Ninguém me segura.
Urutu Branco - E o que vai fazer com tanta valentia?
Zé Boceta - Tu sabe bem o que vou fazer.
Urutu Branco - Finalmente vai virar gente grande.
Zé Boceta - Uma hora a gente aprende.
Urutu Branco - Foi o que sempre quis. Ser grande. Um Nero. Incendiar o mundo e deixar cento e quarenta filhos com a marca da maldição na testa.
Zé Boceta - Tu nunca vai ser nada disso, foi engolido pela vaidade e agora vai receber o que merece.
Urutu Branco - Mas tentei. Amei e sofri nessa porra.
Zé Boceta - Faz tempo que tu não ama ninguém. É tudo vaidade Urutu, tudo vaidade!
Urutu Branco - Sim, vaidade! Quanto mais melhor!
Zé Boceta - Não Urutu, antes tu olhava as pessoas, via a beleza delas.
Urutu Branco - Que beleza, Zé Boceta? Só tem puta e ladrão nesse mundo de merda.
Zé Boceta - Então é isso. Pode rezar.
Urutu Branco - Não vou rezar nem pedir perdão. Mete o balaço que eu to fervendo!
Zé Boceta tira um trabuco da cintura e dá-lhe um tiro no peito. Fica olhando o corpo estatelado no chão.
Cena VI: Zé Boceta, Catiranga, Zilda, Roberval e João Bala estão em volta do corpo de Urutu. Depois de algum silêncio, Zilda fala.
Zilda - Vamo reza pra ele?
João Bala – Por mim tudo bem.
Roberval – Por mim também.
Catiranga – Reza aí.
Eles dão-se as mãos.
Zilda – Bem, não sei rezar direito, na verdade nunca fui pra igreja, mas acredito em deus e essas coisas. O Urutu tinha uma boa alma, ele sempre ajudou a gente. De repente pirou, acontece.
Zé Boceta – É, ele surtou, todo mundo viu, agora a lei do morro é outra.
Zilda – Agora ele é um morto, meia hora atrás tava vivinho da silva.
Zé Boceta – É isso, agora ele ta morto e tudo mudou nessa porra.
João Bala – Agora tudo vai ser diferente.
Roberval – Vai vir polícia e repórter, acho melhor sumir com esse corpo.
Catiranga – Porra, deixa a Zilda continuar a reza.
Zé Boceta – Essa Zilda só fala merda.
Catiranga – Deixa ele continuar! Vai, continua Zilda...
Zilda – E onde ele estiver tenho certeza que vai se lembrar da gente...
Zé Boceta – Onde ele estiver! E onde mais ele estaria, senão apodrecendo na sua frente!
Roberval – O cara morreu, deixa ela falar umas palavras!
Zé Boceta – Já sei. Me chama o fulaninho escritor, pronto, ta resolvido o problema. E ele até escreve um epílogo.
Roberval - Um epitáfio.
Zé Boceta - É, isso daí. E tu João Bala, destroça ele, que vou pendurar perna, braço e cabeça pela Zona Norte inteira. Pode vir repórter, pode vir polícia, pode vir até o exército!
Cena VII: A cabeça, os braços e pernas de Urutu estão espalhados e pendurados nos arcos e no Cristo. O escritor, sobre uma caixa de cerveja, faz o discurso improvisado:
Escritor - Urutu Branco era um homem grande e poderoso, que não estava no mundo fazendo figuração. Compreendeu a complexidade social do seu tempo e lutou contra a elite mesquinha e o latifúndio econômico. Fez mais por sua comunidade em alguns anos do que o estado brasileiro em quinhentos. Tinha alma de artista, sempre tocou e desenhou belamente. Bom de bola e flamenguista doente, um ótimo lateral esquerdo. Amou, sofreu e gozou. Teve amigos de verdade, como todos que estão aqui. E, particularmente, me apresentou o Grande Sertão, que já estou terminando (ergue o livro).
Zé Boceta- É, ele era mesmo bem por aí.
Escritor - Mas tudo acaba. Somos meros mortais e nosso destino está traçado desde o início dos tempos. Voltar para a terra, que é nossa mãe.
Zé Boceta - Ou ficar pendurado nos arcos, hahaha!
Escritor - Para isso somos feitos, para isso temos longos braços para o adeus...
Zé Boceta - Olha, ta ficando melodramático demais, dá a letra e acabou!
Escritor - E então, amigos, fica aí para a eternidade: morreu hoje, no décimo quinto dia do mês de novembro de 2008, Urutu Branco, no Morro do Bueiro.
Zé Boceta - Sim, no Morro do Bueiro! (grita, lunaticamente) No Morro do Bueiro! No Morro do Bueiro! Hahaha! No Morro do Bueiro!
Para comentar é preciso estar logado no site. Faa primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Voc conhece a Revista Overmundo? Baixe j no seu iPad ou em formato PDF -- grtis!
+conhea agora
No Overmixter voc encontra samples, vocais e remixes em licenas livres. Confira os mais votados, ou envie seu prprio remix!